sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Meditações Quaresmais

M E D I T A Ç Õ E S     Q U A R E S M A I S


O  SERVO   SOFREDOR
A história da paixão de Cristo



1 - Consciências atribuladas
   
 Deixai-vos reconciliar com Deus. (2 Co 5.20)[1]

     As folias do tumultuoso carnaval abrandam, enquanto isso, muitas consciências começa a se tumultuar. Mais uma vez Satanás conseguiu triunfar em muitas vidas. Os jornais mostram o saldo do carnaval: lares desfeitos, suicídios, vidas arruinadas, etc.   
     Também nós cristãos não conseguimos evitar que a pecaminosidade do carnaval nos afetasse. Vimos pecado pelos meios de comunicação, jornais, revistas e a televisão, bem como na rua. Nossa carne se sentiu atraída e se regozijou. Exclamamos com o apóstolo Paulo: Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte? (Romanos 7.24) Onde buscaremos e encontraremos consolo?
     Eis que Deus, em sua grande misericórdia, nos estende mais uma vez nos sua mão, dizendo: Deixai-vos reconciliar com Deus (2 Co 5.20). Mais uma vez ele nos convida, dizendo: Vinde, pois, e arrazoemos, diz o SENHOR; ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a lã (Isaías 1.18).
    Para que Deus pudesse nos convidar e oferecer o perdão, foi necessário que seu Filho unigênito Jesus Cristo se dispusesse a tomar sobre si os nossos pecados e trilhasse o caminho ao Calvário. Esta sua obediência ao Pai e o carregar de nossos pecados até a morte de cruz, queremos contemplar bem de perto nestas meditações quaresmais, conforme relatado nos quatro evangelhos. Nisto não queremos ser meros expectadores, que pasmam e se comovem diante da paixão e morte de Cristo, dizendo: Como os fariseus, os romanos e o povo puderam ser tão injustos e cruéis com Cristo. Queremos antes meditar sobre o por quê da paixão de Cristo. Este por quê, o próprio Jesus nos indica dizendo: (Tu) me deste trabalho com os teus pecados e me cansaste com as tuas iniqüidades (Isaías 43.24). Isto vale para cada um de nós. Nós fizemos Jesus sofrer. Cada pecado em pensamentos, palavras e ações são as bofetadas, os açoites, os pregos que feriram Jesus. Por isso confessamos com o poeta sacro: Eu, eu e meu pecado havemos motivado a tua grande dor (Hinário Luterano, n° 94.4).
     Queremos meditar também sobre o proveito desta tão profunda humilhação de Jesus. Tudo isso aconteceu para nós. Jesus foi o substituto de toda a humanidade, também o teu e o meu substituto. Ele trilhou o caminho que tu e eu deveríamos trilhar, mas não éramos capazes disso. Por isso Jesus perguntou a seus discípulos: Podeis vós beber o cálice que eu estou para beber? Responderam-lhe: Podemos! (Mateus 20.22) Eles julgaram, naquele momento que sim. Mas isto era impossível. Jesus concluiu a conversa com eles dizendo: O Filho do homem veio para servir.... e dar a sua vida em resgate por muitos (isto é, por todos). Ele cumpriu a lei em nosso lugar, carregou nossos pecados e os pagou pelo derramar do seu sangue. Venceu nossos inimigos pecado, morte e Satanás. Tudo isso para que pudéssemos voltar à comunhão com Deus, pela fé na graça de Cristo. Agora ele nos diz: Deixa-vos reconciliar com Deus (2 Co 5.20).
     Vamos, pois, a ele. Humilhemo-nos em profundo arrependimento, suplicando-lhe perdão. Orando: Cria em mim, ó Deus, um puro coração e renova em mim espírito reto. Não me lances fora da tua presença e não retires de mim o teu Espírito Santo. Torna a dar-me a alegria da tua salvação e sustém-me com um voluntário espírito (Sl 51.10). Amém.


2 - Glorifica o teu Filho

     Tendo Jesus falado estas coisas, levantou os olhos ao céu e disse: Pai, é chegada a hora; glorifica a teu Filho, para que o Filho te glorifique a ti, assim como lhe conferiste autoridade sobre toda a carne, a fim de que ele conceda a vida eterna a todos os que lhe deste.  E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste. Eu te glorifiquei na terra, consumando a obra que me confiaste para fazer; e, agora, glorifica-me, ó Pai, contigo mesmo, com a glória que eu tive junto de ti, antes que houvesse mundo. (João 17.1-5)

     Na noite de quinta-feira santa (em doenças), quando Jesus havia acabado de instituir a Santa ceia, ele começou a orar em voz alta. Ele disse: Pai, é chegada a hora; glorifica o teu Filho, para que o Filho te glorifique a ti. Era chegada a hora marcada, cuidadosamente preparada pelo Pai desde a eternidade, como o apostolo Paulo o atesta: (Ele) nos escolheu nele antes da fundação do mundo (Efésios 1.4). Esta hora foi anunciada em minúcias por muitos profetas, durante quatro mil anos. Esta hora foi ansiosamente esperada por tantos fiéis, por reis e profetas (Lc 10.24). Chegara a hora do sofrimento, da paixão e da morte de Jesus. A hora em que a serpente feriria o descendente da mulher (Gn 3.15), pensando, em sua ilusão, que venceria. Este atrevimento trouxe a derrota a Satanás. Jesus lhe esmagou a cabeça, libertando desta forma os que andavam pelo vale da sombra da morte (Sl 23.3). Jesus veio para destruir as obras do diabo (1 Jo 3.8). A hora da luta final chegara. Jesus se prepara com oração para este momento. Orou ao Pai: Glorifica o teu Filho, para que o Filho te glorifique a ti. Que glória é essa? Vejamos exemplos. A glória de um atleta são suas lutas e vitórias. A glória de um carpinteiro é sua obra, uma mesa, um armário, etc. A glória de Jesus é seu sofrimento, sua morte, sua ressurreição, sua obra salvífica, a salvação da humanidade. Sim, Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna (Jo 3.16).
     O mundo, desde a queda de Adão e Eva, está deitado em pecado, escravizado por Satanás, condenado à eterna condenação. Por mais que se elogie a sabedoria e honra do ser humano, ele está perdido. Ninguém o pode salvar. A justiça de Deus é fulminante: A alma que pecar, essa morrerá (Ezequiel 18.20). Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no Livro da lei, para praticá-las (Gálatas 3.10). Deus, por ser um Deus justo, não pode voltar atrás. Anjos não podiam ajudar. O homem não pode se ajudar a si mesmo, ele estava eternamente perdido. Mas eis que o Filho de Deus se prontificou a sofrer pela humanidade e libertá-la. Por seu sofrimento a libertou. Possibilitou a volta do pecador a Deus. O restabelecimento da comunhão com Deus, pela fé na graça de Cristo.
     É isto o que agora mais apreciamos, louvamos e glorificamos em Deus, sua obra salvífica por Cristo. Que Deus nos amou e salvou por seu Filho unigênito, Jesus Cristo. Esta é a glória de Jesus: Sua obra salvífica. Todos os feitos de Deus, a criação, a manutenção, os milagres são gloriosos, mas nenhuma obra divina é tão gloriosa e glorifica e o Pai e o Filho como este feito da salvação da humanidade, a salvação pela cruz. 
     Esta glória o mundo não vê. Os fariseus, Pilatos, Herodes não a viram, apesar de terem Cristo diante de seus olhos. Até os discípulos ficaram perturbados diante da humilhação de Cristo. Somente no dia de Pentecostes, quando o Espírito encheu seus corações e os iluminou, compreenderam as Escrituras e a magnitude da obra de Cristo. Ainda hoje muitíssimos não vêem a glória de Cristo. O malfeitor na cruz, no entanto, viu a glória de Cristo. Em adoração suplicou: Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu reino (Lc 23.42). Ele viu, mesmo no momento da maior humilhação, que este a seu lado, era seu Salvador, no qual encontrou perdão, vida e eterna salvação. Isto não lhe foi revelado por carne e sangue, por sua inteligência, seu raciocínio, mas o Espírito Santo o lembrou do que aprendera na infância, comparando isto com o que ouviu de Jesus e viu nele, o Espírito Santo o conduziu ao arrependimento e a fé na graça de Cristo.
     É chegada a hora, glorifica o teu Filho. Os discípulos confessaram mais tarde: Vimos a sua glória, glória como a do unigênito do Pai (Jo 1.14). E Jesus lhes havia dito: E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste (João 17.3).
     Diz Jesus, Senhor bondoso: / Minha glória abandonei / por amor ao Pai gracioso; / ao desprezo me entreguei / para serdes redimidos / de pecado e maldição; / trouxe, pois, a vós perdidos / sempiterna salvação. (HL 86.1)


3 - Todos vós vos escandalizareis

     E, tendo cantado um hino, saíram para o monte das Oliveiras.  Então, Jesus lhes disse: Esta noite, todos vós vos escandalizareis comigo; porque está escrito: Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho ficarão dispersas. Mas, depois da minha ressurreição, irei adiante de vós para a Galiléia. Disse-lhe Pedro: Ainda que venhas a ser um tropeço para todos, nunca o serás para mim. Replicou-lhe Jesus: Em verdade te digo que, nesta mesma noite, antes que o galo cante, tu me negarás três vezes. Disse-lhe Pedro: Ainda que me seja necessário morrer contigo, de nenhum modo te negarei. E todos os discípulos disseram o mesmo (Mateus 26.30-35).

    Tendo cantado um hino, saíram. Com este hino Jesus encerrou a cerimônia do comer o cordeiro pascal, conforme a lei de Moisés. Neste momento também havia instituiu o jantar do Novo Testamento, a Santa Ceia. Então orou fervorosamente por seus discípulos, conforme o lemos na oração sumo - sacerdotal, no evangelho de João capítulo 17. Os hinos cantados nesta ocasião eram, provavelmente, os Salmos 115 a 118. Leia-os com atenção. Então saíram. Era noite. Noite iluminada pela lua cheia.
     Jesus dirigiu-se com seus discípulos, como de costume, para o Monte das Oliveiras. Lugar onde, já durante toda a semana, orou antes de seguir para a casa de Lázaro, onde pousavam.
     Caminharam pensativos. Jesus estava preocupado com seus discípulos, que ainda nada compreenderam o que estava por acontecer. Seja também essa nossa principal preocupação nestes dias da quaresma: a salvação da humanidade?
     Jesus lhes disse: Esta noite, todos vós vos escandalizareis comigo; porque está escrito: Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho ficarão dispersas (Zc 13.7). Uma severa advertência. Os discípulos estavam há três anos em companhia de Jesus, mesmo assim, iriam fraquejar. Seria possível? O mestre o disse. Eles sabiam que a palavra do Mestre não falha. Mesmo assim, não a aceitaram.
     O que fazem os discípulos? Fazem o que nós muitas vezes também fazemos. Revidaram a advertência. Os que há pouco se assustaram com a palavra de Jesus: Um de vós me trairá, cônscios de suas fraquezas, perguntando: Mestre sou eu? Agora não aceitam a advertência. Pedro olha para seus colegas e conclui: Estes são fracos, deles de fato nada se pode esperar, e diz a Jesus: Ainda que venhas a ser um tropeço para todos, nunca o serás para mim. Pobre Pedro! Jesus olhou para ele e lhe disse sob juramento: Em verdade te digo que, nesta mesma noite, antes que o galo cante, tu me negarás três vezes. Em sua autoconfiança Pedro respondeu resoluto: Ainda que me seja necessário morrer contigo, de nenhum modo te negarei. E todos os discípulos disseram o mesmo (Mateus 26.32-35). Eles o disseram na sinceridade de seus corações, pois amavam o Salvador. Pobres discípulos.
     Como é necessário vigiar, para que nosso próprio coração não nos engane. Pensamentos e sentimentos são preza fácil de nossa natureza carnal, de onde procede a autoconfiança, o egoísta e a não aceitação da palavra de Deus, quer seja a advertência ou o consolo. Precisamos estar atentos à palavra de Deus escrita e pedir ao Espírito Santo que nos guie.
     Satanás por sua astúcia conseguiu enganar os discípulos. Firmaram-se em seus próprios pensamentos e suas próprias forças. A queda era inevitável. Por vezes o entusiasmo nos afasta de Jesus, outras vezes é o desânimo. Importa sempre examinar a razão de nosso proceder. Jesus orou por eles ao Pai, para que não permitisse que Satanás tivesse domínio sobre eles. Nesta oração também nós estamos incluídos.
     Devo agradecer-te tanto, ó Jesus, tamanha dor; / chagas, agonia, pranto, / penas e mortal horror. / Vivo e morro consolado / por teu sangue perdoado: / Grato sou por tanto amor, / meu bendito Redentor. (HL 93.5) 


4 - Satanás te reclamou

     Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como trigo!  Eu, porém, roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; tu, pois, quando te converteres, fortalece os teus irmãos (Lucas 22.31-32).

     Jesus advertiu os discípulos, dizendo lhes que nesta noite todos eles se escandalizariam nele. Pedro retrucou que nunca faria isto. Com amor e firmeza, Jesus passou a mostrar-lhes o poder da tentação. Satanás vos reclamou.     
     Quem é Satanás? Ele é um inimigo poderoso. A antiga serpente, a quem pertencemos por nascimento. Seu reino é vasto. No carnaval que passou, vimos seu tremendo poder. Milhares de pessoas lhe pertencem. São seus escravos. Retorcem-se quais vermes no fogo, mas não têm poder para se libertarem dele. O apóstolo afirma: Éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais (Efésios 2.3). Cristo, o Senhor mais forte, veio para destruir as obras do diabo (1 João 3.8) e libertar a humanidade do poder e da escravidão de Satanás. E todo daquele que arrependido de seus pecados confia na graça de Cristo é perdoado, liberto da escravidão de Satanás e volta à comunhão com Deus. Mas o fato de ser, agora, filho de Deus pela fé, não significa que não será mais agredido e tentado por Satanás. Pelo contrário, Satanás dobra sua astúcia em relação aos filhos de Deus, para reconquistá-los. Assim ele tentou a Jesus, que teve que lhe dizer: Arreda Satanás! (Mateus 16.23) Conseguiu dominar Judas, agora quer especialmente a Pedro e aos demais apóstolos. Jesus adverte a Pedro, mas este, cegado por sua nefasta autoconfiança, mesmo advertido por Jesus, não reconhece o perigo. Eis as características do orgulho: Confiamos em nossas próprias forças, rejeitamos a admoestação de Jesus, menos prezamos o próximo, e então segue a queda. Cada dia este quadro se repete com muitos cristãos.
    Como Jesus deve ter ficado triste ao ver como Pedro e os demais discípulos rejeitavam sua admoestação, quando deveriam ter suplicado: Senhor! Ampara-nos, não nos deixes cair. Fortalece-nos. Não permitas que Satanás nos prostre ao chão. Mesmo sem ser pedido, Jesus orou por eles. Especialmente por Pedro: Roguei por ti, para que tua fé não desfalecesse. Jesus, o bom pastor, ora também por nós. E quando nós nos desviamos, ele nos procura também como procurou a ovelha perdida. Jesus disse ainda a Pedro: Quando te converteres, fortalece os irmãos. Basta ler as cartas pastorais de Pedro, e ver como Pedro consola os irmãos. Ele escreve em sua carta: Lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós. Sede sóbrios e vigilantes. O diabo, vosso adversário, anda em derredor, como leão que ruge procurando alguém para devorar (1 Pedro 5.7-8).
     Vem salvar-me nesta lida / de pecados e temor. / Vem, Senhor da minha vida, meu Jesus, meu Redentor. ( HL 427.4)


5 - Vigiai comigo

     Então, lhes disse: A minha alma está profundamente triste até à morte; ficai aqui e vigiai comigo (Mateus 26.38).

     Era noite quando saíram da cidade de Jerusalém. Fora da cidade estavam as muitas tendas dos visitantes que vieram para a grande festa da Páscoa. Jesus atravessou o riacho Cedron, que significa turvo. Nele desembocava o esgoto do templo. O riacho separava Jerusalém do monte das Oliveiras. Entraram no jardim do Getsêmani. Logo na entrada, Jesus deixou oito dos seus discípulos. A eles não foi dado ver a profunda humilhação de Jesus. Ele levou consigo somente a Pedro, João e Tiago, os que haviam presenciado a transfiguração. Com estes três, Jesus continuou caminhando para o interior do Jardim. De repente os discípulos notaram que Jesus suspirava. Apreensivos olharam para ele. E receberam de Jesus a surpreendente resposta: A minha alma está profundamente triste até à morte.
     Aquele que é a fonte da vida e de toda a alegria, está triste. Jesus que consolou a muitos, está desconsolado. Por quê? Os discípulos estão desnorteados. Nossa razão também não o compreende. A Escritura afirma: Aquele que não conheceu pecado, ele (Deus Pai) o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus (2 Coríntios 5.21). O profeta Isaías afirmou: Certamente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus e oprimido (Isaías 53.4). Ele tomou sobre si os pecados de toda a humanidade. Os pecados pelos quais eram sacrificados os cordeiros no tempo, até que viesse o Cordeiro de Deus para tirar o pecado do mundo (Jo 1.29). Jesus, como verdadeiro Deus e verdadeiro homem, tomou os pecados da humanidade voluntariamente sobre si. Sentiu estes pecados em sua alma santa como se fossem seus próprios.
    Sabemos quanto sofrimento, quanta dor de consciência causa o pecado. De início o pecado parece proporcionar alegria, mas uma vez provado, é amargo. A consciência desperta, acusa e leva ao desespero. Conta-se que o filósofo francês Voltair passou a vida zombando de Cristo. No leito da morte sua consciência despertou. Ele desesperou. Sentiu os horrores do inferno. Gritou tão desesperadamente que seu enfermeiro particular não o suportou e fugiu da casa dele. O historiador judaico Josefo conta que o rei Aristóbulo da palestina, que mandou matar injustamente seu próprio irmão, dias depois, quando sua consciência despertou e passou a acusá-lo com tanta força que ele veio a falecer sob o peso do desespero. Sem dúvida você também conhece, em parte ou muito, o que significa o despertar da consciência.
   Tal angústia Jesus sofreu ao tomar sobre si os pecados da humanidade. Pelo salmista Jesus diz: Não têm conta os males que me cercam; as minhas iniqüidades me alcançaram, tantas, que me impedem a vista; são mais numerosas que os cabelos de minha cabeça, e o coração me desfalece (Salmos 40.12).A compreensão desta profunda humilhação de Jesus nossa mente corrupta não é capaz de captar no seu todo.
Só podemos contemplar em profunda adoração esta verdade: Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus – exclamamos em oração: “Grato sou por tanto amor, meu bendito Salvador”. E, quando nossa consciência nos acusar, podemos refugiar-nos em Cristo. Nele temos perdão dos pecados, vida e eterna salvação. Triunfamos jubilosos com o apóstolo Paulo: Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica (Romanos 8.33).
    Tu grande e divinal amor / desejo aqui cantar; / nos céus, porém, Senhor melhor / espero te louvar. (HL 84.4)


6 - Passa de mim este cálice

     Pai, se queres, passa de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, e sim a tua.  Então, lhe apareceu um anjo do céu que o confortava.  E, estando em agonia, orava mais intensamente. E aconteceu que o seu suor se tornou como gotas de sangue caindo sobre a terra. (Lucas 22.42-44)

     Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo, (Hb 10.31) afirma o escritor de Hebreus. Basta acompanhar Jesus passo a passo em sua paixão para ver o quanto isso é verdade.
     Jesus está sozinho. Nesta obra da redenção da humanidade, ninguém pôde lhe ajudar. Ele mesmo afirma pelo profeta: O lagar, eu o pisei sozinho. (Isaías 63.3 RA) Com o rosto prostrado em terra, Jesus orou a seu Pai: Pai, se queres, passa de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, e sim a tua. Se possível, mas não era possível. Este era o único caminho para salvar a humanidade. Jesus era o único que poderia levar ao fim este duro empreendimento do amor divino. Pai se possível passa de mim este cálice. Mas o Pai, em profundo amor para com a humanidade, para contigo e comigo, não passou o cálice. Jesus orou três vezes. Sua agonia aumentou a ponto de soar gotas de sangue. Se há pouco estava triste até a morte por ter sido feito pecado por nós, agora está em agonia por a ira de Deus estar sendo derramado sobre ele, nosso irmão na carne, por causa de nossos pecados. Agora, ele  estava sentindo o abandono de Deus, as agonias da morte, os horrores infernais. Tudo isto arde em sua alma santa, a ponto de soar sangue. São nossos pecados que o fazem penar assim. Quão horrível é o pecado. Quão grande a ira de Deus sobre o pecado. Eis ali nosso substituto. Sofre! Sofre por ti e por mim. Seu sofrimento foi tão grande que foi necessário vir um anjo do céu, para o animar e fortalecer. O que estava acontecendo a Jesus para que uma criatura viesse consolar o Criador? A Escritura não nos revela os detalhes. Provavelmente, o sofrimento de Jesus foi tão grande, sua humilhação tão profunda, que em sua natureza humana perdeu de vista o porquê desse seu sofrer. Foi necessário vir um anjo para consolá-lo. Para lhe mostrar a razão do seu sofrer que é para a salvação da humanidade. Após esta luta com a morte, na qual experimentou o profundo abandono de Deus e os terrores infernais, Jesus se levantou e foi a seus discípulos.
     Os apóstolos não se cansam de falar sobre o sofrimento de Jesus. Paulo escreveu: Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas? (Romanos 8.32 RA) O apóstolo Pedro declarou: Sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram, mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo (1 Pedro 1.18-19). Tudo isso Jesus suportou para que todo aquele que nele crê não precisasse temer mais a morte. Nesta fé, Estevão ao ser apedrejado exclamou: Eis que vejo os céus abertos e o Filho do Homem, em pé à destra de Deus (Atos 7.6). E o apóstolo Paulo afirma: Porquanto, para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro (Filipenses 1.21).
      A história nos mostra muitas pessoas que enfrentaram a morte corajosamente. Mas enfrentar a morte considerá-la lucro, enfrentá-la com confiança e esperança só aquele que está em Cristo.
      Tememos a morte por causa do pecado, porque não fomos criados para a morte e sim para a vida. A morte é castigo sobre o pecado, é uma intromissão em nossa vida. Mas Jesus venceu a morte, e nos diz: Não temais: Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo o que vive e crê em mim não morrerá, eternamente (João 11.25-26). E ao malfeitor na cruz, Jesus disse: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso (Lucas 23.43).
     Diante disso cantamos com o poeta sacro: Consola-me na morte, / lembrando a tua dor; / és meu escudo forte, / glorioso Vencedor. / Estando a contemplar-te, / confiante vou dizer, / feliz, ao abraçar-te: / Assim é bem morrer. (HL 88.8)
           

7 - Vigiai e orai

     Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca (Mateus 26.41).

     A agonia do mestre é grande. Grande também sua preocupação com seus discípulos. Jesus interrompe seu momento de oração e volta aos discípulos. Talvez buscasse neles um pouco de amparo, mas ele os encontrou dormindo. Envolvidos pela tristeza e a não compreensão do que estava acontecendo, dormiram. A tristeza enche muitas vezes a alma de sono. Como somos iguais aos discípulos. Jesus os adverte: Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca. O espírito é o “novo homem”, a nova vida, a fé, criada pelo Espírito Santo. Conforme esta fé, estamos dispostos a abandonar a própria vida para seguir a Cristo. Mas ainda estamos na carne. Temos nossa natureza carnal, nosso “velho homem”, que sempre de novo nos puxam de volta ao pecado, para amarmos o mundo e as coisas que há no mundo, e dessa fonte procedem os maus pensamentos, o medo, o pavor (Mateus 15.19). Assim existe dentro dos cristãos uma luta constante entre a nova vida e a natureza carnal, ou como costumamos dizer: entre o novo e o velho homem. Daí a advertência: Vigiai e orai. Devemos examinar nossos pensamentos e desejos à luz da palavra de Deus e combater as investidas de Satanás. Orai! Buscai forças, pela oração, junto a Deus. Ele tem todo o poder e ordenou: Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á (Lucas 11.9).
     O que fazem os discípulos nesta hora tão difícil e perigosa? Eles dormem. Vencidos pela tristeza, dormem. Um quadro da Igreja? Um quadro de nossa própria vida? Diante de dificuldades desanimamos e nos tornamos sonolentos, quando deveríamos vigiar e orar. O que fazem os inimigos? Eles não têm sono. Eles trabalham, correm, planejam e lutam. Judas não teve sono. Parece que no caminho do mal não se sofre desânimo. Vede quantos sacrifícios, quantas lutas os inimigos realizam. Lembramos quantos sacrifícios, por exemplo, em tempo, esforços e dinheiro os homens de mundo levantam em prol do carnaval? Será que os membros da igreja estariam dispostos a fazer também tão grandes sacrifícios em prol da causa de Cristo? O que fazem os membros da igreja durante estes dias tão perigosos do carnaval, em que muitos cristãos jovens são tentados e caem nas garras de Satanás? Vigiai e orai!
    Oramos com o poeta sacro:
Alma espera em prontidão; / ora, sempre alerta, / Superando a provação / Quando mais aperta. / Pois Satã, com afã / Sobrevém ao crente, / Enganosamente. (HL 441.1)

8 - A quem buscais?

     Tendo, pois, Judas recebido a escolta e, dos principais sacerdotes e dos fariseus, alguns guardas, chegou a este lugar com lanternas, tochas e armas.  Sabendo, pois, Jesus todas as coisas que sobre ele haviam de vir, adiantou-se e perguntou-lhes: A quem buscais?  Responderam-lhe: A Jesus, o Nazareno. Então, Jesus lhes disse: Sou eu. Ora, Judas, o traidor, estava também com eles.  Quando, pois, Jesus lhes disse: Sou eu, recuaram e caíram por terra. (João 18.3-6)

      A humilhação de Jesus começou com sua concepção na virgem Maria. O santo Filho de Deus aceitou ser concebido e nascer da virgem da Maria que, mesmo sendo muito temente a Deus, era de natureza pecadora como todos nós. Que humilhação para o santo, unigênito Filho de Deus, nascer duma criatura corrompida pelo pecado, como todos nós. Esta humilhação aumentou gradativamente até sua morte na cruz e sepultamento. Ele se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana (Filipenses 2.7). Agora, sabendo tudo o que lhe iria acontecer, levantou-se do seu lugar de oração e se entregou voluntariamente às mãos de seus inimigos. Ele disse a seus discípulos: Levantai-vos, vamos! Eis que o traidor se aproxima (Mateus 26.46).
     Jesus dirigiu-se à entrada do jardim, onde estavam os outros discípulos. Ele foi para ser entregue aos inimigos e proteger seus discípulos. Os dois grupos se encontram. O pequeno grupo, com Jesus à frente; e o grupo maior, com Judas à frente. O nome Judas significa: objeto de louvor. Para isso Deus o havia criado, bem como toda a humanidade. Para isso Jesus tinha escolhido Judas para ser apóstolo. Mas eis que Satanás, que seduziu a humanidade e também a Judas, os reduziu a um objeto de horror. Atrás de Judas uma grande turba (Mateus 26.47), os principais sacerdotes, os anciãos do povo, guardas do templo e um capitão com alguns soldados. Na ponta desta turba estava Judas. E todos eles dirigidos por Satanás.
     O quadro não se alterou em nossos dias. A igreja é um grupo pequeno, indefeso. Mas Jesus lhes diz: Não temais, ó pequenino rebanho (Lc 12.32). O grupo dos inimigos de Cristo é grande, mesmo assim, temem a igreja e a combate com violência.
    Jesus vai ao encontro deles. Se o primeiro Adão, quando Deus o chamou se escondeu, o segundo Adão, Jesus, voluntariamente se apresenta para a luta e o sofrimento. Jesus perguntou: A quem buscais?Responderam-lhe: A Jesus, o Nazareno. A resposta visava humilhar Jesus e ao mesmo tempo acalmar suas próprias consciências, dizendo para si mesmos: Jesus é somente um homem, o homem de Nazaré, nada mais. Jesus respondeu: Sou eu! Quando Jesus lhes disse: Sou eu! Recuaram apavorados e caíram para trás. Não esperavam encontrar Jesus de maneira tão fácil e que ele se apresentasse voluntariamente. Por outro, foi mais uma demonstração do poder de Jesus. Mas Jesus ainda não os derrubou em definitivo. Era somente uma séria advertência. Jesus ainda não veio para julgar, mas para salvar (Jo 3.17), para tanto lhes revelou um pouco de seu poder, para induzi-los ao arrependimento, permitindo que se levantassem novamente. Mas chegará a hora em que os inimigos de Cristo cairão para não mais se levantarem, para serem julgados e condenados ao fogo eterno. Isto será no dia do juízo final.
     A quem buscais? O que nós estamos buscando? Buscamos sinceramente a Cristo ou as coisas do mundo. A quem buscais? Nós queremos responder esta pergunta em humilde arrependimento e apego a Cristo: Buscamos a Jesus, o Nazareno! Nosso querido Salvador.
     Se Cristo, o Senhor, / como nunca ninguém / nos deu tanto amor, / vamos todos também / com fé o adorar / e o amor sem cessar. (HL 269.4)


9 - Amigo, para que vieste?

     Ora, o traidor lhes tinha dado este sinal: Aquele a quem eu beijar, é esse; prendei-o.  E logo, aproximando-se de Jesus, lhe disse: Salve, Mestre! E o beijou.  Jesus, porém, lhe disse: Amigo, para que vieste? Nisto, aproximando-se eles, deitaram as mãos em Jesus e o prenderam (Mateus 26.48-50).

     A traição de Judas é amplamente descrito no Antigo e no Novo Testamento, para advertência a todos nós.
     Judas foi um verdadeiro apóstolo. Ele foi enviado a pregar o Evangelho e expulsou demônios. (Mateus 10.5) Sem dúvida confessou com o apóstolo Pedro: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo (Mateus 16.16). Mesmo assim, Satanás conseguiu desviá-lo da fé. Judas teve antecedentes. Profetas e pessoas que fizeram proezas em nome de Deus, que tiveram o dom do Espírito Santo, mas depois caíram da fé. Lembramos o rei Saul. A culpa de tais quedas não é de Deus, mas das próprias pessoas que caíram.
     Como foi possível a Satanás prostrar Judas em tão grave pecado, desviá-lo da fé e levá-lo à eterna condenação? O que Satanás fez com muitos outros e ainda hoje o faz com muitos cristãos. É preciso lembrar que temos nossa natureza carnal, corrupta pelo pecado, que não muda. Este “velho homem em nós, por contrição e arrependimento diários, deve ser afogado e morrer com todos os pecados e maus desejos, e, por sua vez, sair e ressurgir diariamente novo homem que viva em justiça e pureza diante de Deus eternamente” (Catecismo Menor). Quem se descuidar nessa luta e não se examinar diariamente à luz da palavra de Deus, e em arrependimento e fé buscar perdão e forças de Jesus, perecerá. Deus não abandona ninguém, a não ser quando a pessoa insistentemente resiste ao Espírito de Deus.
     Com grande amor Jesus buscou a Judas. As muitas admoestações durante os três anos de discipulado. Quantas vezes Jesus advertiu contra a avareza e o amor ao mundo. As advertências especiais aos discípulos e a Judas na quinta-feira santa à noite. Tudo em vão.  Mesmo assim, Jesus revela amor a Judas ainda no Jardim Getsêmani: Amigo, para que vieste? Mesmo sabendo Jesus o que Judas estava fazendo, não o acusa antes da consumação do pecado, mas o convida à reflexão. Judas pensa no que você vai fazer. Mas Judas não deu importância, abraçou hipocritamente a Jesus, para lhe dar o beijo da traição. Então Jesus lhe disse claramente: Judas, com um beijo trais o Filho do homem?(Lucas 22.48) Judas recuou. Seu trabalho estava concluído. Ele traiu Jesus por 30 moedas de prata.
     O que se passou na cabeça de Judas ao trair a Jesus? A Escritura não o revela. Conhecemos, no entanto, o procedimento de Satanás. Ele apresenta o pecado como algo vantajoso e bom. Talvez Judas tivesse pensado o seguinte: Jesus é o Filho de Deus. Eles não conseguirão prendê-lo. Já tentaram várias vezes prendê-lo, e ele sempre se livrou. Talvez isso apresse, como todos pensavam, a manifestação do reino de Deus (Atos 1.6). Eu terei o dinheiro e Jesus me perdoará. Não é assim, que ainda hoje o diabo tenta muitos assim para o pecado? 
     Que coisa triste. Satanás arrancou Judas das mãos de Jesus, para precipitá-lo na eterna condenação. Sirva-nos isso de advertência: Com o pecado não se brinca. Satanás, como uma aranha astuta, com sua teia maldosa, prende e enrola a pessoa com pecados cada vez mais graves, até sufocar-lhes a fé. Daí as diversas admoestações da Escritura: Vigiai e orai, para que não entreis em tentação (Marcos 14.38). Desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor (Filipenses 2.12). Isto pelo apegar-se a palavra e sacramento, pelos quais Deus Espírito Santo nos fortalece para que possamos lutar, resistir e servir.
     De ti, Senhor, careço, / sou pobre pecador. / Sem ti vaguei, perdido / Jesus, meu salvador. / Na tua excelsa graça / encontro paz, perdão; / da maldição eterna., / completa redenção. (HL 346.1)  


10 - A Jesus, o Nazareno

Jesus, de novo, lhes perguntou: A quem buscais? Responderam: A Jesus, o Nazareno.  Então, lhes disse Jesus: Já vos declarei que sou eu; se é a mim, pois, que buscais, deixai ir estes (João 18.7-8).

     Era chegada a hora do poder das trevas. Muitas vezes os fariseus haviam tentado matar Jesus, mas em vão. Agora, porém, o conseguiram. Os dois grupos se encontraram frente a frente. Jesus e seus discípulos e Judas, com os fariseus, anciãos, guardas e soldados. Os filhos de Deus, tendo à frente o próprio Filho de Deus, um grupo pequeno, e os filhos das trevas, tendo à frente, Judas, mas atrás de todos está o próprio
senhor das trevas, Satanás. Assim ainda hoje se apresenta o quadro: um grupo pequeno, o de Jesus, um grupo grande o de Satanás.
     Jesus foi ao encontro deles sabedor de tudo o que iria acontecer. Revelou-lhes seu poder, fazendo-os cair por terra. Revelou-lhes seu amor, na admoestação a Judas, na admoestação a Pedro, na interrogação ao grupo todo, e na cura do servo Malco. Porém seus corações estavam endurecidos, pelo terrível poder das trevas. Antes de se entregar a eles, voluntariamente, Jesus lhes dirige mais uma vez a pergunta: A quem buscais? – O capitão deveria responder com clareza o que queria. E ele respondeu: A Jesus o Nazarenos! Ao que Jesus respondeu: Se é a mim, pois, que buscais, deixai ir estes. Jesus conhece o poder das trevas. Sabe que o diabo gostaria não só a ele, mas desgraçar toda a igreja.
    Eis um resumo de toda a história da paixão. Jesus é nosso substituto. Está ali em teu e meu lugar. Nós éramos buscados pelos poderes infernais, pela ira de Deus, pelo tribunal eclesiástico e pelo tribunal civil. Sim, éramos filhos da ira como também os demais (Ef 2.3), escreveu o apóstolo Paulo. Eis que Jesus se entrega a eles por todos nós. Aqui me tendes. Ele disse a Deus Pai, pune-me a mim. O profeta Isaías escreveu:             
Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados (Isaías 53.5). Eis aqui o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Ele nos comprou com o seu sangue, afim de que nem a lei, nem a maldição, nem o diabo, nem o inferno nos pudessem fazer Mal. Pois as palavras: Deixai ir estes se coloca entre nós e nossos inimigos.
     Se é a mim, pois, que buscais, deixai ir estes. Isto é uma ordem. A ordem do Filho de Deus. Ele conhece a intenção do poder das trevas. Engolir a todos. Mas para isso ele estava se entregando, para que a ordem: Deixai ir estes! entrasse em vigor.
   Quem são estes? São todos os que confiam na graça de Cristo. São todos os que, cansados e sobrecarregados, buscam refúgio em Cristo. São todos os que dizem a Jesus: Senhor, tem compaixão de mim, pobre pecador. Aqueles que arrependidos e confiantes na graça de Cristo clamam: Não me lances fora de tua presença. Pois, e ele é a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro (1 João 2.2 RA). Bem-aventurados todos os que confiam na graça de Cristo.
      Na verdade, Satanás gostaria de arrebatar todos nós das mãos de Cristo e tenta fazê-lo constantemente. Quantas perseguições a igreja já sofreu? Quantas doutrinas falsas. Quantos problemas. Mas em toda a parte ainda soam as palavras protetoras: Deixai ir estes. São palavras que protegem a Igreja Cristã até ao fim dos séculos. E as portas do inferno (Mateus 16.18), não prevalecerão contra ela. Pois eu lhe serei, diz o SENHOR, um muro de fogo em redor e eu mesmo serei, no meio dela, a sua glória (Zacarias 2.5). A todos os cristãos Jesus afirma: Não temas, porque eu te remi; chamei-te pelo teu nome, tu és meu (Isaías 43.1). Mas aquele que, como Judas, rejeitar a misericórdia de Deus, será condenado.
    Ainda hoje Jesus estende suas mãos pela pregação da palavra e chama a si, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna (João 3.16).
     Certeza plena tu me dás / de que jamais nos deixarás. / Tu és o guia que conduz / pela aflição à eterna luz. (HL 77.4)  


11 - Deixai, basta

     Então, Simão Pedro puxou da espada que trazia e feriu o servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha direita; e o nome do servo era Malco.  Mas Jesus disse a Pedro: Mete a espada na bainha; não beberei, porventura, o cálice que o Pai me deu? (João 18.10-11)
     Mas Jesus acudiu, dizendo: Deixai, basta. E, tocando-lhe a orelha, o curou (Lucas 22.50,51).

     Quando Jesus disse: Sou eu! Os inimigos caírem por terra. Isso parece ter encorajado a Pedro. Jesus deixou que se levantassem novamente. Ainda não era hora do julgamento.  Jesus deu-lhes a ordem: Se é a mim que buscais, deixai ir estes. Então os soldados avançaram para prendê-lo. Os discípulos se entreolharam e perguntaram a Jesus: Senhor, feriremos à espada? Pedro como sempre, não esperou a resposta e passou a ação. Em fervente entusiasmo por Jesus, puxou da espada e feriu um dos servos do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. Imediatamente Jesus intervém e diz a Pedro: Embainha a tua espada, pois quem com a espada fere, com a espada será ferido. O que estava errado? Pedro agiu por amor a Jesus. Mas ele não havia esperado a resposta de Jesus. Esquecera-se de quem era filho, daquele que dissera: Amai os vossos inimigos (Marcos 5.44). Não tornei a ninguém mal por mal (Romanos 12.17). Esqueceu-se de que Jesus tinha dito que tudo isso deveria acontecer para que se cumprisse a Escritura. Esqueceu-se de que Jesus tinha dito: Acaso pensas que não posso rogar a meu Pai, e ele me mandaria neste momento mais de doze legiões de anjos? Como, pois, se cumpriram as Escrituras, segundo as quais assim deve suceder (Mateus 26.63).
     Quantas vezes cristãos agem como Pedro? Num zelo e entusiasmo carnal avançam sem a ordem nem a promessa de Deus. Temos hoje muitos que tomam uma e outra palavra de Deus, para fora do seu contexto e do todo da Bíblia e julgam poderem dar ordens a Deus para curar, para empreendimentos grandiosos que fracassam e levam muitos ao desespero.
     O apóstolo Pedro, repreendido por Jesus, embainhou sua espada. Jesus se inclinou para a terra, juntou a orelha decepada e curou o servo, cujo nome era Malco. Este foi o último milagre de Jesus antes de sua morte. Os inimigos e contemplaram admirados. Jesus lhes disse: Saístes com espadas e porretes como para deter um salteador?  Diariamente, estando eu convosco no templo, não pusestes as mãos sobre mim. Esta, porém, é a vossa hora e o poder das trevas. Palavras opostas: Salteador e templo. Não, não, Jesus não era um salteador. Ele ensinou publicamente durante três anos em toda a Palestina, revelando seu amor às pessoas. Mas, agora é tratado como salteador. Quanta incompreensão, cegueira e ingratidão.  Esta ingratidão Jesus colhe diariamente, ainda hoje, não só dos inimigos, mas, infelizmente, também de todos nós, de sua igreja.
     Parece incrível. Os principais sacerdotes, os anciãos do povo, que são os representantes de Deus, que lidavam com a Bíblia, diariamente, estão sob o poder das trevas, a serviço das trevas. Eles, que deveriam estar a serviço da luz e se orgulhavam dizendo: Somos filhos de Abraão (Lc 3.8). Que cegueira. Eles que deveriam receber Jesus de braços abertos, estão prendendo e condenando o Filho de Deus à morte. Terrível.
     Em sua presciência, Deus previu tudo. Tudo foi escrito para advertência, para que ninguém pudesse se desculpar, dizendo: Eu não sabia. Os fariseus o sabiam. Por isso temia Jesus. Por isso, as espadas, cacetes, tochas. É o poder das trevas.
     Jesus lhes estende voluntariamente as mãos. E eles não receiam em amarrá-lo. Amarar as mãos que há pouco ainda curaram milagrosamente a orelha decepada. Eles não querem o Salvador. Bem afirma o Salmo: Os reis da terra se levantaram, e os príncipes conspiram contra o Senhor e contra o seu Ungido, dizendo: Rompamos os seus laços e sacudamos de nós as suas algemas (Salmo 2.2).  Voluntariamente Jesus estende suas mãos e se entrega para ser amarrado, a fim de nos libertar desses laços das trevas. E ele os rompeu todos. Nós podemos jubilar e dizer: SENHOR, deveras sou teu servo, teu servo, filho da tua serva; quebraste as minhas cadeias. Oferecer-te-ei sacrifícios de ações de graças e invocarei o nome do SENHOR (Salmos 116.16,17).
    Quanta injúria suportaste / para a todos nós salvar! / As cadeias que quebraste / de Satã me vem livrar; / teus tormentos e amarguras / me libertam de torturas. / Oh! Não seja em vão Senhor, / teu martírio expiador. (HL 81.2)


12 - O sumo sacerdote interroga a Jesus

     Então, o sumo sacerdote interrogou a Jesus acerca dos seus discípulos e da sua doutrina. Declarou-lhe Jesus: Eu tenho falado francamente ao mundo; ensinei continuamente tanto nas sinagogas como no templo, onde todos os judeus se reúnem, e nada disse em oculto.  Por que me interrogas? Pergunta aos que ouviram o que lhes falei; bem sabem eles o que eu disse (João 18.19-21).

    A alegria entre os fariseus foi grande. Parece que eles próprios não estavam acreditando terem Jesus manietado em seu palácio. De fato, depois de tantas tentativas malogradas, especialmente, daquela uma, na qual eles queriam apedrejá-lo; Jesus, porém, tornou-se invisível e passou no meio deles (João 8.59). Agora estava preso no palácio. Às pressas convocaram o Sinédrio, constituído de 72 pessoas das mais sábias e veneradas em Jerusalém. Quanto alvoroço nessa hora da noite. Eles queriam resolver tudo durante a noite até a madrugada, a fim de não alvoroçar o povo. Mas Deus tinha outros planos.
    Enquanto o Sinédrio era reunido, Jesus foi levado e entregue a Anás, que havia ocupado o cargo de sumo sacerdote antes de Caifás, agora estava aposentado. Anás deveria interrogar a Jesus para ver se pudesse encontrar um motivo para o condenarem. Anás interrogou a Jesus acerca dos seus discípulos e da sua doutrina. Se pudessem acusá-lo de doutrina falsa, teriam um motivo justo para o matar. Pois falsos profetas deveriam ser punidos com a morte. Interrogou-o acerca de seus discípulos, para poderem acusá-lo diante dos romanos de rebelião, a fim de ser também por eles condenado à morte.
    Jesus respondeu: Eu tenho falado francamente ao mundo. Ensinei continuamente no templo e nas sinagogas e nas ruas. Eu nada disse em oculto. Pergunta aos que me ouviram. Eles sabem o que eu disse. Por que me interrogas? Os fariseus e também Anás conheciam muito bem o ensino de Jesus. Eles o ouviram muitas vezes. Tantas vezes tentaram surpreendê-lo em alguma afirmação errada, mas não conseguiram nada. Eles sabiam muito bem que Jesus não era um falso profeta. Além disso, era dever deles ter primeiro a acusação e as provas, só então poderiam prender alguém. A situação se tornava cada vez mais embaraçosa. Na medida em que o interrogavam, a inocência e a santidade de Jesus brilhavam cada vez mais. Um guarda percebeu isso e deu uma bofetada em Jesus. Jesus lhe disse: Porque me feres. Se falei mal, dá testemunho do mal; mas se falei bem, por que me feres? Então eles o levaram manietado para a presença do sumo sacerdote Caifás e o Sinédrio.   
      Este era o poder das trevas. O apóstolo João afirma: Os homens amaram mais as trevas do que a luz (Jo 3.19). Sim, Anás e os principais sacerdotes conheciam os ensinamentos de Jesus. Eles, que deveria zelar pela retidão da palavra de Deus e do ensino dessa palavra, bem como preparar o povo para receberem Jesus, mas eles se afastaram de Deus e de sua Palavra. Eles sabiam disso, por isso odiaram Jesus porque ele tirou deles, dos sacerdotes, fariseus e escribas, a máscara da hipocrisia e o fez em público, no templo, nas escolas e onde quer que ensinava e dizia:
     Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque fechais o reino dos céus diante
dos homens; pois vós não entrais, nem deixais entrar os que estão entrando!  Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque devorais as casas das viúvas e, para o justificar, fazeis longas orações; por isso, sofrereis juízo muito mais severo!  Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque rodeais o mar e a terra para fazer um prosélito; e, uma vez feito, o tornais filho do inferno duas vezes mais do que vós!  Ai de vós, guias cegos, que dizeis: Quem jurar pelo santuário, isso é nada; mas, se alguém jurar pelo ouro do santuário, fica obrigado pelo que jurou!  Insensatos e cegos! Pois qual é maior: o ouro ou o santuário que santifica o ouro?  E dizeis: Quem jurar pelo altar, isso é nada; quem, porém, jurar pela oferta que está sobre o altar fica obrigado pelo que jurou.  Cegos! Pois qual é maior: a oferta ou o altar que santifica a oferta?  Portanto, quem jurar pelo altar jura por ele e por tudo o que sobre ele está.  Quem jurar pelo santuário jura por ele e por aquele que nele habita;  e quem jurar pelo céu jura pelo trono de Deus e por aquele que no trono está sentado.  Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé; devíeis, porém, fazer estas coisas, sem omitir aquelas!  Guias cegos, que coais o mosquito e engolis o camelo!  Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque limpais o exterior do copo e do prato, mas estes, por dentro, estão cheios de rapina e intemperança!  Fariseu cego, limpa primeiro o interior do copo, para que também o seu exterior fique limpo!  Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que, por fora, se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia! (Mateus 23.13-27)
     Eis a razão porque os fariseus odiaram Jesus, porque ele lhes disse a verdade. Então tentaram acusá-lo de falsa doutrina, de agitador, de perturbador da paz. Coisas que continuam fazendo até hoje. Os discípulos não estão acima de seu mestre. Importa que confessemos a verdade destemidamente.
     Demos, pois, o testemunho / de Jesus, o Redentor, / dominando assim o punho do feroz perseguidor. / Que se pregue alegremente / a Palavra de Jesus, pois o seu amor clemente / traz aos homens clara luz. ( HL 270.3)


13 - Diga-nos se tu és o Cristo, o Filho de Deus

     Jesus, porém, guardou silêncio. E o sumo sacerdote lhe disse: Eu te conjuro pelo Deus vivo que nos digas se tu és o Cristo, o Filho de Deus.  Respondeu-lhe Jesus: Tu o disseste; entretanto, eu vos declaro que, desde agora, vereis o Filho do Homem assentado à direita do Todo-Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu.  Então, o sumo sacerdote rasgou as suas vestes, dizendo: Blasfemou! Que necessidade mais temos de testemunhas? Eis que ouvistes agora a blasfêmia! (Mateus 26.63-65)

     O tribunal eclesiástico condena Jesus. Quanto mais procuravam motivos para condená-lo, tanto mais brilhava a verdade: Ele é o Filho de Deus. Esta verdade se tornou tão forte na consciência do sumo sacerdote que ele já não conseguia mais escondê-la. Por isso ele perguntou em voz bem alta: Eu te conjuro pelo Deus vivo que nos digas se tu és o Cristo, o Filho de Deus? Era este o medo que estava na alma de todos ali reunidos. Jesus, que até agora havia guardado silêncio, já não pôde mais calar. Há hora de silenciar e hora de falar. Jesus respondeu com clareza: Eu o sou! Eu sou o Cristo. Portanto, ele era o Ungido, o esperado desde Adão e Eva. Aquele que fora profetizado, a quem João Batista anunciou. Como, porém, os fariseus não acreditavam nem nos profetas, e tinham determinado em seus corações matar Jesus e não ouvi-lo, Jesus acrescentou: Entretanto, eu vos declaro que, desde agora, vereis o Filho do Homem assentado à direita do Todo-Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu. O tempo da humilhação de Jesus em breve chegaria ao fim. Mais um pouco. Logo mais, após o sepultamento iniciaria a exaltação de Jesus. Eles ouviriam a respeito da ressurreição, do dia de Pentecostes e do testemunho dos apóstolos. E todos eles se defrontariam com ele após a morte.
     Apavorados e assustados, por ouvirem a verdade com tão grande simplicidade e vigor, mas também alegres por lhes ter ocorrido esta pergunta, gritam: Blasfemou! Que necessidade mais temos de testemunhas? Eis que ouvistes agora a blasfêmia! E o  condenaram à morte.
    Lembremos, Jesus é nosso substituto. A acusação de blasfemador que ele sofreu, ele a sofreu em lugar de todos nós. Adão e Eva queriam ser igual a Deus, isto foi sua blasfêmia. Eis o pecado principal de todos nós. Todos nós somos réus de morte. Quantas blasfêmias clamam ainda hoje aos céus. Os pecados de toda a ordem, as superstições, as falsas doutrinas, etc.
     Somos gratos a Jesus por ter expiado esta nossa culpa e nos oferecer perdão, vida e eterna salvação. Redimidos por ele queremos servi-lo com coração sincero e aguardar a sua vinda em glória ou o momento em que ele nos chama para a glória.
     Condenado eu me sentia / e distante de tua paz, / mas gracioso me ofereces / o perdão que a vida traz. / Quanto amor! Oh! Quanto amor! / Grato sou meu Redentor. (HL 75.2)

14 - Profetiza-nos, ó Cristo!

     Então, uns cuspiram-lhe no rosto e lhe davam murros, e outros o esbofeteavam, dizendo: Profetiza-nos, ó Cristo, quem é que te bateu! (Mateus 26.67-68)

     Para o alívio de todos, soou, finalmente, pelo salão do Sinédrio a sentença: É réu de morte! Blasfemou, é réu de morte! Agora não podiam mais conter sua fúria. Começaram a zombar dele e feri-lo na alma e no corpo. Cuspiram-lhe no rosto. Davam-lhe bofetadas. Zombavam dele, dizendo: Profetiza, ó Cristo, quem é que te bateu? Parece que precisavam convencer sua própria consciência, pelo zombar e humilhá-lo, de que ele não era o Filho de Deus. Mas a consciência não cala. Ficou demasiadamente comprovado de que ele era o Filho de Deus.
     Jesus sofre calado. Já disse o profeta:
     O SENHOR Deus me abriu os ouvidos, e eu não fui rebelde, não me retraí.  Ofereci as costas aos que me feriam e as faces, aos que me arrancavam os cabelos; não escondi o rosto aos que me afrontavam e me cuspiam.  Porque o SENHOR Deus me ajudou, pelo que não me senti envergonhado; por isso, fiz o meu rosto como um seixo e sei que não serei envergonhado (Isaías 50.5-7).
     E salmista afirma: Mas eu sou verme e não homem; opróbrio dos homens e desprezado do povo.  Todos os que me vêem zombam de mim; afrouxam os lábios e meneiam a cabeça (Salmos 22.6-7). Jesus suportou voluntariamente nossas dores. O quanto ele teve que se humilhar para nos resgatar.
     Ao contemplar este quadro em que os homens honrados do Sinédrio, homens sábios, conhecedores da Escritura e venerados zombam de Jesus – vemos como que num espelho. Ali vemos os nossos próprios pensamentos. Ali vemos o que realmente se passa em nosso interior. Somos, já por nascimento, inimigos de Deus. Jesus afirmou: Porque do coração procedem maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos, blasfêmia (Mateus 15.19). E o apóstolo Paulo afirma: O pendor da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar (Romanos 8.7). A inclinação de nossa carne, de nossa natureza carnal, está sempre inclinada para o mal. Importa que façamos um sincero exame de nossa consciência. Por exemplo: Temos tempo para Deus, ler e ouvir a sua palavra? Tempo para a oração? Aceitamos a palavra com singeleza de coração ou a colocamos em dúvida? E quando Deus não atende nossas orações e nos dirige por caminhos difíceis, aceitamos humildemente os caminhos de Deus, como Jó que disse: O SENHOR o deu e o SENHOR o tomou; bendito seja o nome do SENHOR! (Jó 1.21 RA) Mesmo como cristãos temos ainda nossa natureza carnal e cabe-nos afogá-la, crucificá-la diariamente, por contrição e arrependimento. Esta luta é diária. Jesus nos comprou com o seu precioso sangue, para que vivamos não mais para nós mesmos, mas para aquele que por nosso morreu e ressuscitou (2 Co 5.15). Que Deus Espírito Santo nos ajude.
     Eu, eu e meu pecado / havemos motivado / a tua grande dor, / os murros violentos, / mil outros sofrimentos, / que te enchem a alma de pavor. (HL 94.4)
    

15 - Hoje, três vezes me negarás

     Então, voltando-se o Senhor, fixou os olhos em Pedro, e Pedro se lembrou da palavra do Senhor, como lhe dissera: Hoje, três vezes me negarás, antes de cantar o galo.  Então, Pedro, saindo dali, chorou amargamente (Lucas 22.61-62).

     Enquanto Jesus estava sendo interrogado no palácio do sumo sacerdote, sofrendo o escárnio e a zombaria, lá fora no pátio o apóstolo Pedro estava sendo arduamente atacado por Satanás, e caiu. A queda foi triste. Tão triste que todos os evangelistas a relatam minuciosamente. Eles o relatam não para difamar o apóstolo Pedro, mas para nossa mais severa advertência e consolo. Por isso é necessário que demos muita atenção a este acontecimento.
     Quando Jesus foi preso, todos os discípulos fugiram. Passado o primeiro susto, dois discípulos, João e Pedro, mudaram de idéia. Cada qual seguindo sozinho seu caminho. Eles foram ao palácio do sumo sacerdote para ver o que aconteceria a Jesus. João tinha amigos no palácio e conseguiu entrar fácil. Pouco depois veio Pedro, mas encontrou o portão do palácio fechado. Vendo-o João, foi falar com uma empregada que o deixou entrar. João pensou estar prestando um bom auxílio a Pedro. Também boas intenções, podem resultar, por vezes, em situações complicadas. No interior do palácio, João seguiu seu caminho. Pedro, sendo desconhecido neste lugar,dados.esconhecido neste lugar, preferiu ficar no pumilhado1616161616161616161616161616161616161616161616161616161616161616161616161616 preferiu ficar no pátio e assentou-se junto aos soldados.
     Faz pouco, Pedro havia sido repreendido pelo Mestre por lançar mão à espada. Agora, novamente, sem ordem do Mestre avança e segue um caminho por conta própria. Não lembrou a advertência de Jesus: Esta noite me negarás. Se temos a ordem de Jesus para irmos a lugares difíceis, não devemos temer. Assim os apóstolos testemunharam mais tarde diante de reis e imperadores. Mas Pedro não tinha ordem para seguir Jesus ao palácio do sumo sacerdote. Satanás aproveitou a oportunidade e tentou arruiná-lo.
    Pedro sentou-se na roda dos escarnecedores. Nisso passou ali uma empregada e, vendo-o, disse: Este também estava com Jesus. Podemos imaginar o susto que Pedro levou. Ele começou imediatamente a se defender, dizendo: Mulher, não sabes o que estas dizendo. Como é fácil cair. Uma pequena palavra pode arruinar tudo. Satanás usou uma de suas armas preferidas, a língua de uma mulher para tombar o corajoso apóstolo Pedro. Este também estava com ele. Poucas e simples palavras que encheram a alma de Pedro de pavor e medo.
     Pedro saiu dali. Depois voltou para o fogo, e para disfarçar conversou com os soldados. Tendo passado uma hora, um homem olhou para ele disse: Também este verdadeiramente estava com ele, porque também é Galileu. Pedro respondeu: Homem, não compreendo o que dizes. E logo, estando ele ainda a falar, cantou o galo. Então, voltando-se o Senhor, ficou os olhos em Pedro, e Pedro se lembrou da palavra do Senhor, como lhe dissera: Hoje três vezes me negarás, antes de cantar o galo. Então Pedro, saindo dali, chorou amargamente (Lc 22.60-62). As palavras de Jesus: Depois de te arrependeres, fortalece os irmãos (Lc 22.32), evitaram que ele desesperasse. As palavras de perdão de Jesus, às quais Pedro se apegou, o reergueram.
     A Escritura nos admoesta: Quem está de pé, veja que não caia (1 Co 10.12). Infelizmente muitos que não somente estavam de pé, mas que foram, por um tempo, cheios do Espírito Santo e abundantes na obra do Senhor, caíram. Por isso o salmista pede fervorosamente a Deus: Ensina-me a fazer a tua vontade, pois tu és o meu Deus; guie-me o teu bom Espírito por terreno plano (Salmos 143.10). E: Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito inabalável.  Não me repulses da tua presença, nem me retires o teu Santo Espírito.  Restitui-me a alegria da tua salvação e sustenta-me com um espírito voluntário (Salmos 51.10-12).
    Pedro não havia dado a devida atenção às palavra de Jesus e se colocou em tentação. Quantas vezes isto já aconteceu conosco. Mas Jesus orou por ele (Lc 22.32), como ainda ora por nós. E nós oramos, incluindo todos nossos irmãos: Não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal.
     Abismado em meu pecado, / clamarei a ti, Senhor. / Olha o pranto e o desencanto / deste pobre pecador / para amar-te e contemplar-te / com a corte celestial. (HL 345.1)


16 - Pequei, traindo sangue inocente

     Então, Judas, o que o traiu, vendo que Jesus fora condenado, tocado de remorso, devolveu as trinta moedas de prata aos principais sacerdotes e aos anciãos, dizendo:  Pequei, traindo sangue inocente. Eles, porém, responderam: Que nos importa? Isso é contigo.  Então, Judas, atirando para o santuário as moedas de prata, retirou-se e foi enforcar-se (Mateus 27.3-5).

    A consciência de Judas entra em colapso. Até há pouco, ele estava calmo e feliz. Tinha as trinta moedas de prata no bolso. Quanta felicidade. Porém, esta felicidade durou pouco. Vendo que Jesus fora condenado à morte, teve remorsos. Por que a condenação de Jesus à morte o perturbou? Sem dúvida, porque Satanás havia enganado a Judas. Em que sentido? Dizendo-lhe: Jesus é todo-poderoso. Mesmo que o prendam, na hora precisa, ele se libertará, como das vezes anteriores. (Lc 4.29,30; Jo 8.58; 10.38) Não vão conseguir matá-lo. Tu ficarás com o dinheiro, pedirás perdão a Jesus e tudo estará bem. Que engano, que cegueira. Agora viu que Jesus fora açoitado, como lhe cuspiram no rosto e lhe deram bofetadas, o condenaram à morte, e não acontecia nada. Jesus não se libertou. Nesta hora, Satanás tinha mais uma preocupação em relação à Judas: Não permitir que Judas lhe escapasse das mãos. Portanto conduzi-lo o quanto antes ao desespero e à morte. Deve ter-lhe pintado o pecado da traição com todas as cores negras. A consciência de Judas passou a acusá-lo e Satanás lhe fazia ver: Teu pecado é grande de mais para ser perdoado. Atormentado por sua consciência, Judas foi ao palácio do sumo sacerdote e exclamou: Pequei, traindo sangue inocente. Os fariseus lhe responderam: Que importa? Isto é contigo. Então Judas, atirando para o santuário as moedas de prata, retirou-se e foi enforcar-se. Pobre Judas.
     Alguém talvez poderia dizer: Mas o que Judas poderia fazer? Sua morte horrenda fora profetizada. Sim, Deus em sua onisciência a previu. A onisciência de Deus, no entanto, não foi a causa do pecado nem do suicídio de Judas. Judas pecou por sua própria vontade. Jesus morreu também pelo pecado de Judas e o advertiu o suficiente, mas Judas rejeitou todo o amor de Jesus e se precipitou à eterna condenação.  
    Pedro também traiu Jesus. Não havia, em si, diferença entre o pecado de Judas e de Pedro. O cantar do galo acordou a Pedro e o olhar complacente de Jesus confortou a Pedro. Ele chorou amargamente, em verdadeiro arrependimento e o evangelho o confortou, o levou a confiar no amor de Jesus, para que não desesperasse. Judas devolveu o dinheiro por remorsos, mas não havia nele verdadeiro arrependimento, num sentido de voltar a Deus e suplicar o perdão, confiante na graça de Cristo.
    Satanás continua a rodear todo cristão, como leão que ruge (1 Pedro 3.8). Muitas são nossas quedas. Importa viver diante da face de Deus em verdadeiro arrependimento e confiança na graça de Cristo.
     Sabemos quão difícil é confiar em Cristo, quando a consciência nos acusa de pecado. Não conseguimos orar. Parece que temos que esperar até sentimo-nos melhores. Nossa consciência não para de nos acusar. Nisso Satanás ganha forças. Importa ir logo a Cristo, suplicar o perdão, cantar hinos, recitar versículos bíblicos para silenciar a consciência. Podemos cantar: Vem a Cristo, vem agora, carregado, como estás. Dele só e sem demora, o perdão conseguirás. (HL 364.1) Mas quem rejeitar este amor divino pela incredulidade, voltando a amar o pecado, a este valerão as palavras de Jesus: Melhor lhe fora não haver nascido! (Mateus 26.24)
     Deus na cruz é meu amado. / tu, consciência, vais calar. / Pela Lei atormentado, / ouço Deus me consolar; / com seu sangue redentor / resgatou-me o Fiador. / Deus na cruz é meu amado, / pois na fé sou confirmado. (HL 82.4)


17 - Diante de Pilatos

      Depois, levaram Jesus da casa de Caifás para o pretório. Era cedo de manhã. Eles não entraram no pretório para não se contaminarem, mas poderem comer a Páscoa.  Então, Pilatos saiu para lhes falar e lhes disse: Que acusação trazeis contra este homem?  Responderam-lhe: Se este não fosse malfeitor, não to entregaríamos (João 18.28-30).

     Era cedo de manhã, quando os fariseus apressadamente levaram Jesus a Pôncio Pilatos, a fim de obterem dele a permissão para matarem Jesus. O assunto tinha pressa, pois queriam evitar a agitação do povo, o qual eles temiam.
     Chegados ao palácio, eles não entram, pois era o dia da preparação para o grande sábado da Páscoa deles. Eles não queriam se contaminar. Se entrassem na casa de um gentio, seriam considerados impuros. Cuidam do exterior, das leis cerimoniais, feitas em grande parte por homens e ignoram a verdadeira lei de Deus. Jesus lhe disse: Coam o mosquito, mas engolem o camelo (Mateus 23.24). Não é esta ainda hoje a prática de muitas religiões? Vemos isso especialmente nesse tempo quaresmal. Quantas leis cerimoniais são observadas, como por exemplo? Não comer carne na Sexta feira Santa. Ir, pelo menos nesse dia ao culto e comungar. Que adiante tudo isso, se não permitimos que a mensagem da cruz penetre em nosso coração para nos conduzir ao arrependimento e à verdadeira fé, da qual brota o amor a Deus e ao próximo. O que adianta se em nosso coração a ganância, a exploração, a avareza, o amor ao pecado, vícios, inimizades, intrigas familiares permanecem dominando. Pedimos perdão por um costume litúrgico, sem verdadeiro arrependimento no coração, nem fé na graça de Cristo e o sincero propósito de corrigir a vida. Sem suplicar de coração: Cria em mim, ó Deus, um puro coração e renova em mim espírito reto. Não me lances fora da tua presença e não retires de mim o teu Espírito Santo. Torna a dar-me a alegria da tua salvação. – não há arrependimento, nem fé e nem vida.
     Pilatos, ouvindo o barulho, saiu para ver o que era. Os fariseus lhe pediram autorização para matarem Jesus. Pilatos perguntou: Que acusação trazeis contra ele? - Acusação? Na pressa os fariseus não haviam pensado nisso e a acusação pela qual eles o condenaram: Blasfemou! não tinha valor diante do tribunal romano. Apressados responderam: Se ele não fosse malfeitor não o teríamos trazido. Pilatos respondeu: Então julgai-o vós mesmos. As leis romanas eram justas. Não se condena alguém sem ser julgado e constatado um motivo justo. Refazendo-se do susto, os fariseus e principais sacerdotes começaram a acusar a Jesus e agitar o povo que se aglomerou ali. Mudaram então a acusação: Ele agita o povo a não pagar imposto. Ele disse ser rei. - Quanta calúnia e falsas acusações. Tudo o que eles queriam e esperavam de um salvador, mas que Jesus não lhes deu, disso eles o causam agora. Eles esperavam do Salvador bênçãos materiais. Queriam que seu salvador os libertasse do jugo romano, e lhes proporcionasse dias felizes aqui na terra. Agora o acusam daquilo em que suas esperanças foram frustradas. Ainda hoje é assim. O povo em geral quer um salvador que lhes proporcione dias felizes e prósperos aqui na terra.
     Estas acusações continuam contra Jesus até hoje. Quantas vezes, no decorrer da história, cristãos foram acusados de serem perturbadores da paz, agitadores e malfeitores, quando na verdade pregam a paz e fazem o bem. Mas o que incomoda é a pregação da lei para arrependimento, o convite para a fé na graça de Cristo, a vida honesta em santificação.
     Deus na cruz é meu amado. / Ímpio, podes estranhar / que na fé eu tenho andado? / Hei de a Cristo abandonar? / Ele é minha força e paz, / o caminho que me apraz. / Deus na cruz é meu amado, / pois na fé sou confirmado. (HL 82.2)


18 - És tu o rei dos judeus?

      Tornou Pilatos a entrar no pretório, chamou Jesus e perguntou-lhe: És tu o rei dos judeus?  Respondeu Jesus: Vem de ti mesmo esta pergunta ou to disseram outros a meu respeito?  Replicou Pilatos: Porventura, sou judeu? A tua própria gente e os principais sacerdotes é que te entregaram a mim. Que fizeste?  Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim, para que não fosse eu entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui.  Então, lhe disse Pilatos: Logo, tu és rei? Respondeu Jesus: Tu dizes que sou rei. Eu para isso nasci e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz.  Perguntou-lhe Pilatos: Que é a verdade? Tendo dito isto, voltou aos judeus e lhes disse: Eu não acho nele crime algum (João 18.33-38).

     O amor de Jesus é indescritível. Vede com que amor Jesus procura salvar todas as pessoas com as quais ele é colocado em contato nesses dias da paixão. Revelou amor aos discípulos, especialmente a Pedro. Revelou amor a Judas, o traidor. Revelou amor ao servo Malco, do qual Pedro havia cortado a orelha. Revelou amor aos sacerdotes e ao Sinédrio. Agora era a vez de Pilatos que lhe perguntou: Você é o rei dos judeus? Jesus respondeu: Vem de ti mesmo esta pergunta? Isto é, você está interessado em me conhecer de fato?  Você sabe que não sou uma ameaça ao César de Roma, ao império romano. Você quer saber que tipo de rei eu sou? Você conhece a religião dos judeus, mas quanto à verdadeira esperança de Israel, você talvez esteja mal informado. Eu posso orientá-lo melhor quanto à isso. Esta pergunta deveria vir do fundo do teu coração. Jesus continua: O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim, para que não fosse eu entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui.  Então, lhe disse Pilatos: Logo, tu és rei? Respondeu Jesus: Tu dizes que sou rei. Eu para isso nasci e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz.  Perguntou-lhe Pilatos: Que é a verdade? Vejam quanto amor Jesus mostra a Pilatos. Procura despertá-lo para o conhecimento da verdade. Pilatos notou que o assunto está chegando perto de mais do seu coração e desviou. Não queria ser defrontado com a verdade. Reconheceu a inocência de Jesus e, como juiz da situação, procurou libertá-lo, mas rejeitou Jesus. Por causa da condenação de Jesus, Pilatos foi, mais tarde, chamado a Roma. Perdeu seu posto e se suicidou. Pobre Pilatos!     
     Muitos agem assim ainda hoje. Reconhecem de certa forma a inocência e a verdade de Jesus, mas prorrogam o ouvir, não deixando-se envolver pela verdade. Amam demais as coisas do mundo. O escritor aos Hebreus adverte: Hoje se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração como foi na provocação, no dia da tentação no deserto, (Hebreus 3.7,8) Bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a guardam (Lucas 11.28).
     Faze-mo reconhecer / muito arrependido. / Já não quero te ofender, / pois me tens remido. / Como poderia amar / este meu pecado / que te fez por mim penar / sobre a cruz pregado? (HL 85.4)


19 - Tu o dizes

 Jesus estava em pé ante o governador; e este o interrogou, dizendo: És tu o rei dos judeus? Respondeu-lhe Jesus: Tu o dizes (Mateus 27.11).

     Jesus é Rei e Senhor. É o único Senhor. Não parece. Há tantos senhores aqui em volta dele. O sumo sacerdote, os fariseus, Pilatos todos eles estavam diante da verdade. Conheciam a verdade, mas a rejeitaram. O apóstolo Paulo o diz com palavras bem fortes: Porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato.  Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos. (Romanos 1.21-22) A história da paixão de Cristo, em todas suas cenas, é um relato bem fiel do coração humano. Homens altamente religiosos, com o sumo sacerdote, os fariseus e os anciãos rejeitam Jesus. Toda a religião humana, que brota e é dirigida pela razão humana é inimiga de Deus. Sim, a mais alta religiosidade do homem é inimiga de Deus. O ser humano, que se deleita horas a fio diante de filmes ou revistas perniciosas, sente repugnância se deve gastar alguns minutos no templo de Deus ou na leitura da Bíblia.
     Tu és rei? Sim, Jesus é o Rei dos reis, o Senhor dos senhores. Ele se humilhou profundamente para vencer os inimigos da humanidade e redimi-la. Ele assumiu a forma a forma de servo. Não usou sempre e inteiramente sua divindade comunicada à natureza humana. Só assim foi possível, como nosso substituto, cumprir a lei, pagar por seu sofrer e morte de cruz a culpa da humanidade e reconciliá-la com Deus. (2 Coríntios 5.18,19) Ressuscitou ao terceiro dia e foi exaltado. Está à direita do Pai e governa, com seu poder, sobre céu e terra (Reino do poder), mas sua igreja, aqui na terra ainda está em humilhação, ele a governa especialmente com sua graça, seu perdão (Reino da graça), pois ainda não se revelou o que havemos de ser, como diz o apóstolo João: Amados, agora, somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que haveremos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é (1 João 3.2). Jesus governa em glória sobre todos os que já estão com ele nos céus (Reino da glória). Em breve voltará em glória para julgar vivos e mortos. Criar novo céu e nova terra, nãos quais habitará justiça. (2 Pedro 3.13)
   Jesus é Senhor e Rei como o confessamos no Credo Apostólico. Felizes todos os que pela fé na graça de Cristo, pertencem ao seu reino e lhe são fiéis até ao fim.
     Espero o grande dia - / final libertação! / Em paz, em alegria, / louvar-te os salvos vão. / A morte, já vencida / por Cristo, o Redentor, / conduzirá à vida / os servos do Senhor. (HL 290.7)


20 - Herodes, vendo a Jesus, sobremaneira se alegrou

      Ao saber que era da jurisdição de Herodes, estando este, naqueles dias, em Jerusalém, lho remeteu.  Herodes, vendo a Jesus, sobremaneira se alegrou, pois havia muito queria vê-lo, por ter ouvido falar a seu respeito; esperava também vê-lo fazer algum sinal.  E de muitos modos o interrogava; Jesus, porém, nada lhe respondia (Lucas 23.7-9).

     Pilatos estava convicto que Jesus era inocente. A todo o custo queria livrar-se dele. Os romanos tinham grande fama por sua jurisprudência. Suas leis tinham grande clareza, mas por mais perfeitas que eram, o ser humano sempre procura seus próprios interesses. Pilatos conhecia seu dever. Proteger os inocentes e punir os culpados. Jesus era inocente, mas Pilatos temia o povo. Ele não queria indispor-se com os judeus. Isto poderia por em risco seu posto. Por isso, ao ouvir que Jesus era da Galiléia o enviou imediatamente para Herodes, que estava de visita em Jerusalém.
     Herodes alegrou-se sobremaneira ao ver Jesus. Sua alegria não era a alegria de um pobre pecador arrependido que se alegra com Jesus por entrar em sua casa, como aconteceu a Zaqueu. Sua alegria era a expectativa para satisfazer sua curiosidade e ver talvez algum milagre. Que tristeza.
     Quatro gerações da família Herodes tiveram grande oportunidade diante de Deus. Herodes o Grande, fora aquele que queria matar Jesus ao saber dos Magos do Oriente que nascera o rei dos Judeus. Ele mandou matar os meninos de Belém. Seu filho, Herodes Antipas, 33 anos mais tarde, mandou decapitar João Batista (Marcos 6.14-29), e escarnece de Jesus. O filho deste, Herodes Antipas I, 14 anos mais tarde mandou decapitar o apóstolo Tiago (Atos 12.1-2). O filho deste, Antipas II, 16 anos mais tarde, foi aquele diante de quem Paulo foi julgado (Atos 25 e 26). Quatro gerações que estão diante de Cristo e de seus apóstolos e o rejeitaram.
     Jesus manteve silêncio e não respondeu uma só palavra a Herodes Antipas. O silêncio de Deus significa morte. É o pior castigo que Deus pode dar a uma pessoa ou lugar: negar-lhe sua palavra. Herodes lhe fez muitas perguntas. Mas Jesus permaneceu em silêncio. Quantos ainda hoje, ao se defrontarem com a palavra de Deus só a questionam, sem terem verdadeiro interesse em conhecê-la.
     O dia do juízo será terrível para Herodes e todos os que seguem seus passos. No dia do Juízo Final reconhecerão que Jesus é o Senhor e Juiz. Ai daqueles sobre os quais Jesus terá de pronunciar as palavras: Apartai-vos de mim, vós todos os que praticais iniqüidades (Lucas 13.27).
     Mas ainda é tempo da graça, no qual Jesus chama todos a si por sua Palavra e seus sacramentos.  Ó terra, terra, terra! Ouve a palavra do SENHOR! (Jeremias 22.29)
     Uma coisa é necessária, / esta ensina-me, ó Senhor. / Outra coisa é secundária, / nem mitiga a nossa dor. / A pobre alma aflita / em vão se atormenta, / quando em Jesus Cristo ela não se alimenta. / O que Cristo dá, só, nos pode suprir, / com isto, sim, tudo podemos fruir. (HL 240.1)


21 - Nada contra ele se verificou digno de morte

 Então, reunindo Pilatos os principais sacerdotes, as autoridades e o povo, disse-lhes: Apresentastes-me este homem como agitador do povo; mas, tendo-o interrogado na vossa presença, nada verifiquei contra ele dos crimes de que o acusais.  Nem tampouco Herodes, pois no-lo tornou a enviar. É, pois, claro que nada contra ele se verificou digno de morte.  Portanto, após castigá-lo, soltá-lo-ei (Lucas 23.13-16).

     No caminho da injustiça. Pilatos reconhecera desde o primeiro contato com Jesus que ele era inocente e que os fariseus o entregaram por inveja. Pilatos tentou por muitos caminhos soltar Jesus. Mas em vão. Diante da gritaria do povo e temendo por seu cargo, não teve coragem de seguir o caminho da justiça e do direito. Ele vai e fala mais uma vez aos sacerdotes e principais do povo: Apresentastes-me este homem como agitador do povo; mas, tendo-o interrogado na vossa presença, nada verifiquei contra ele dos crimes de que o acusais.  Nem tampouco Herodes, pois no-lo tornou a enviar. É, pois, claro que nada contra ele se verificou digno de morte.  Portanto, após castigá-lo, soltá-lo-ei.
     Impressionante! A cada passo, a inocência de Jesus brilha mais e mais. Exatamente isso os sacerdotes queriam evitar. Queriam eliminá-lo às escondidas. Mas Deus planejou diferente. Deus queria, para nosso consolo, que a completa inocência de Jesus fosse destacada e ressaltada de uma maneira bem acentuada, visível a todos. Tanto no tribunal eclesiástico diante de Caifás, como diante do tribunal civil, diante de Pôncio Pilatos.  É o que aconteceu. Jesus suportou tudo com paciência por estar carregando os pecados da humanidade, os teus e os meus.
    Após este aviso aos sacerdotes e principais líderes do povo, sobre a inocência de Jesus, qual deveria ser a sentença de Pilatos? Ele é inocente, vou soltá-lo e protegê-lo das mãos dos agressores. Mas Pilatos concluiu: Castigá-lo-ei. Açoitá-lo-ei. Que conclusão terrível. O que motivou Pilatos a açoitar a Jesus? Duas coisas. Seu temor diante do povo e seus próprios interesses políticos.
     Como somos semelhantes a Pilatos. Por medo, dos mais diversos, também nós procuramos caminhos escusos, pensando evitar problemas. Quer seja pela mentira, pela calúnia, pelo suborno, etc. Vemos isso constantemente no mundo, especialmente no mundo político. Interesses pessoais, vaidade, orgulho, cobiça corroem as leis e arruínam a justiça.
    Todas essas injustiças Jesus tomou sobre si e as sofreu. Ele sofreu calado. Redimidos pelo amor de Cristo, nós queremos agora, de coração voluntário e resoluto seguir a vontade de Deus e glorificar o seu nome. E quando caímos por fraqueza de nossa natureza carnal, nos arrepender, suplicar o perdão e consolados pela graça de Cristo, trilhar o caminho da justiça.
     Tanto desejar eu devo / tão somente a ti, Jesus. / És o meu inteiro enlevo, / minha vida e minha luz. / Que muitos reneguem e voltem ao mundo, / eu quero seguir-te em afeto profundo, / pois tens as palavras que vida nos dão, / espírito, gozo e feliz salvação. (HL 240.4)


22 - Não te envolvas com esse justo

      E, estando ele no tribunal, sua mulher mandou dizer-lhe: Não te envolvas com esse justo; porque hoje, em sonho, muito sofri por seu respeito (Mateus 27.19).

     Claúdia Prócula, mulher de Pilatos, sem dúvida ouviu o bramido das vozes do povo. Sentiu que seu marido corria perigo de entrar por caminhos errados e achou por bem mandar-lhe um viso. Talvez por um pequeno bilhete: Não te envolvas com esse justo; porque hoje, em sonho, muito sofri por seu respeito.
     Sonhos são, na maioria das vezes, reflexos das preocupações que ocupam nossa mente, bem como os temores pelo futuro. Por isso, não damos valor a eles. Sonhos são como a espuma de uma fervura. Mas, por vezes, Deus tem usado sonhos para falar a pessoas e dar avisos. Na Escritura vemos como Deus falou a várias pessoas por sonhos, a seus servos fiéis, e mesmo a incrédulos como Labão, Faraó, Nabucodonosor. (Gênesis 31.24; 37.5; Gn 41.1; Dn 2.1) Mas que sonho era este da mulher de Pilatos. Não sabemos. Há uma lenda a este respeito disso, que diz o seguinte: “Ela viu em sonho casas e matas serem consumidas por chamas. O clamor do povo diante das chamas era enorme. Então apareceu um cordeiro que subiu ao monte. Uma lança foi cravada no lado direito do cordeiro, e dali jorrou água e sangue que apagou as chamas. O cordeiro assumiu a forma de homem. Figura semelhante à pessoa a qual Pilatos estava julgando.” Isso, na verdade, é uma lenda que surgiu muito depois dos acontecimentos. Lenda é lenda. O sonho de Claudia, no entanto, foi um aviso sério para Pilatos. A coragem da mulher de Pilatos, falar a favor de Jesus é de admirar, enquanto as mulheres de Israel calaram. Enquanto os discípulos fugiram, os sacerdotes e o povo clamam contra Jesus, esta mulher, a primeira dama do Estado, dá um testemunho a respeito da inocência de Jesus. Que este exemplo desperte as mulheres cristãs ao testemunho dedicado e fervoroso a respeito de Jesus.
     Não devemos agora pensar que todo sonho é de Deus, ou estudar Manuais de como interpretar sonhos. O profeta adverte contra os sonhos dos falsos profetas (Jeremias 23.27). Porque assim diz o SENHOR dos Exércitos, o Deus de Israel: Não vos enganem os vossos profetas que estão no meio de vós, nem os vossos adivinhos, nem deis ouvidos aos vossos sonhadores, que sempre sonham segundo o vosso desejo;  porque falsamente vos profetizam eles em meu nome; eu não os enviei, diz o SENHOR (Jeremias 29.8-9). Até quando sucederá isso no coração dos profetas que proclamam mentiras, que proclamam só o engano do próprio coração? Os quais cuidam em fazer que o meu povo se esqueça do meu nome pelo seus sonhos que cada um conta ao seu companheiro, assim como seus pais se esqueceram do meu nome por causa de Baal. (Jeremias 23.27).  Sejamos cautelosos e examinemos as Escrituras. Nela encontramos a verdade e direção para nossa vida.
     Ó Deus, tu queiras conservar / o Verbo claro e puro, / e sempre os teus fiéis guardar, / agora e no futuro. / Destrói a oposição hostil; / protege-nos de seu ardil ; em toda a nossa vida. (HL 241.6)


23 - Barrabás

      Naquela ocasião, tinham eles um preso muito conhecido, chamado Barrabás.  Estando, pois, o povo reunido, perguntou-lhes Pilatos: A quem quereis que eu vos solte, a Barrabás ou a Jesus, chamado Cristo?  Porque sabia que, por inveja, o tinham entregado...  Mas os principais sacerdotes e os anciãos persuadiram o povo a que pedisse Barrabás e fizesse morrer Jesus (Mateus 27.16-20).

     Barrabás ou Jesus? Diz um ditado: Voz do povo, voz de Deus. Raras vezes ou nunca, isto é certo. Desta vez, a voz do povo, por mais injusta, era a voz de Deus. Pois Deus fez aquele que não conheceu pecado, pecado por nós (2 Coríntios 5.21).
    Pilatos luta para soltar a Jesus. Conferenciou com os sacerdotes e anciãos, mas em vão. Não conseguiu nada. Nisto aparece uma delegação do povo, pedindo que fizesse conforme o costume e lhes soltasse um dos presos. Para que o povo se lembrasse de seus anos de cativeiro no Egito. Deus havia ordenado ao povo de Israel que tratasse bem o estrangeiro. (Deuteronômio 10.19) Dali evoluiu o costume de soltar um preso, por ocasião da Páscoa judaica. Os romanos, para ganhar o favor do povo, consentiram neste costume.
    Na cadeia estava, recentemente preso, um assassino e agitador muito perigoso, chamado Jesus Barrabás, ou só Barrabás. “Bar”, em hebraico, significa filho, “Aba”, significa pai.  Era um título honorífico: Filho do Pai. Talvez Barrabás fosse filho de um cidadão honrado, de um mestre ou nobre. Mas que se desviou do caminho do bem, enveredando pelo caminho do crime. Agora estava preso.
     Pilatos colocou Jesus e Barrabás diante do povo, pedindo que o povo decidisse a quem deveria soltar? Que injustiça, colocar um inocente, a quem cabia liberdade e a proteção por parte do governo, ao lado de um criminoso, que merecia a condenação, a morte.
     Agora cabia ao povo tomar a decisão. O povo, que dias atrás, havia aclamado a Jesus como Rei, cantando: Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas maiores alturas! (Mateus 21.9), e ao mesmo tempo não deu ouvidos a sua mensagem, para arrependimento e fé, agora deveriam decidir. Pilatos deu-lhes tempo para a decisão. Não poderia haver dúvidas. Barrabás eram um bandido temido em toda a Jerusalém e Judéia. Jesus era um homem de bem. Pilatos estava informado a respeito de Jesus e dos últimos acontecimentos, como da ressurreição de Lázaro. Notícia que se divulgou em toda a Jerusalém. Mas os fariseus e anciãos aproveitaram o pequeno tempo para instigar o povo a pedirem Barrabás. De repente a voz do povo se levantou, para o espanto de Pilatos. O povo gritou: Barrabás. Solte-nos Barrabás.
     Espantado Pilatos perguntou ao povo; Que farei com Jesus? E a resposta soou imediatamente: Crucifica-o! Crucifica-o! O coração humano é inimigo de Deus.
    Ali está não só o que o juiz Pilatos fez, mas o que Deus fez em nosso favor. O justo, Filho de Deus, foi condenado e crucificado em nosso lugar e favor, para que nós, miseráveis pecadores, fossemos absolvidos e libertados, pois, Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões (2 Co 5.19).
     Em meu Jesus confio, / porquanto me remiu; / por sua luz me guio; / as trevas destruiu. / Seu sangue tão precioso / de todo me lavou. / Meu Salvador gracioso / a vida ame legou. (HL 374.1)     


24 - Solta-nos Barrabás

     Toda a multidão, porém, gritava: Fora com este! Solta-nos Barrabás!...
Desejando Pilatos soltar a Jesus, insistiu ainda. Eles, porém, mais gritavam: Crucifica-o! Crucifica-o! (Lucas 23.18,20)

     Ouvindo Pilatos o clamor do povo, ficou perplexo. Ele gritou ao povo: Que farei, então, com Jesus? Que mal fez ele? Nada achei contra ele para condená-lo à morte! A todas essas perguntas o povo respondia com um grosseiro e violento: Crucifica-o! Crucifica-o! A consciência de Pilatos ficou ainda mais tumultuada. Ele mandou açoitar a Jesus. Os guardas o levaram para dentro do palácio, despojando-lhe as vestes o açoitaram. O açoite romano era terrível. Tiras de couro com agulhas de chumbo nas pontas, a fim de rasgar a carne até aos ossos. Tecendo-lhe uma coroa de espinhos, colocaram-na em sua cabeça e lhe deram nas mãos um caniço. Então escarneciam dele,  ajoelhando-se diante dele, saudando-o, dizendo: Salve, rei dos judeus, e davam-lhe bofetadas.
   Os soldados, apesar de terem presenciado o julgamento, e visto a inocência de Jesus, e ouvidas as palavras que ele era Rei e Filho de Deus, pois em suas zombarias o trataram assim, não temeram em derramar sobre ele o escárnio. Oh! Homem, de onde tu caíste?De predileto filho de Deus, para seres o mais vil das criaturas. Para salvar essa criaturas caídas, míseros pecadores, o Filho de Deus teve que sair do seu trono celestial, vir à terra, tornar-se nosso irmão na carne e expor-se à zombaria de sua criatura. Pelo salmista, Jesus diz: Mas eu sou verme e não homem; opróbrio dos homens e desprezado do povo. (Salmos 22.6) Assim maltratado, Pilatos o apresentou mais uma vez, tentando
mover o povo à compaixão, para que concordassem em soltá-lo. Mas o povo vendo Jesus tão maltratado gritou com mais força: Crucifica-o! Crucifica-o! Alguém na multidão gritou: Temos uma lei, e, de conformidade com a lei, ele deve morrer, porque a si mesmo se fez Filho de Deus (João 19.7). Pilatos, ouvindo tal declaração, ainda mais atemorizado ficou (João 19.8). Ele ficou atemorizado até a alma. Deus cravou fundo na consciência de Pilatos esta verdade de que Jesus era o Filho de Deus. Pilatos,  tentou tirar esse espinho. Ele interrogou Jesus novamente. Jesus guardou silencia. Enfurecido, Pilatos lhe diz: Não me respondes? Não sabes que tenho autoridade para te soltar e autoridade para te crucificar?  Respondeu Jesus: Nenhuma autoridade terias sobre mim, se de cima não te fosse dada; por isso, quem me entregou a ti maior pecado tem (João 19.10-11). A partir deste momento, Jesus guardou silêncio. A angústia de Pilatos aumentou, mas ele não deu ouvidos a Deus nem à voz de sua consciência. Na hora sexta (9 horas da manhã), Pilatos foi para o pavimento do Palácio. Pediu água Lavou suas mãos diante do povo e lhes disse: Sou inocente do sangue deste justo. (Mateus 27.24). Com isto proferiu sua própria sentença. Então disse ao povo: Eis aqui o vosso rei.  Eles, porém, clamavam: Fora! Fora! Crucifica-o! Disse-lhes Pilatos: Hei de crucificar o vosso rei? Responderam os principais sacerdotes: Não temos rei, senão César!  Então, Pilatos o entregou para ser crucificado (João 19.14-16).
      Quantos procedem hoje da mesma forma. Eu sei. Eu queria fazer. Mas os outros me pressionaram, me empurraram, etc. E não chegam ao verdadeiro arrependimento e a fé em Cristo. Que Deus nos guarde de tal e nos mantenha em verdadeiro arrependimento e fé na graça de Cristo. 
     Porque nos teve amor profundo, / da perdição Deus nos salvou; / por isso o Filho veio ao mundo / e para os céus depois tornou; / portanto insiste no bater / à nossa porta e entrar querer. (HL 366.3)

Pôncio Pilatos

     Quem era Pôncio Pilatos? Ele era filho do rei germânico Zirus de Mainz, que teve um caso com a filha de um moleiro, que residia na encosta da floresta. Deste encontro nasceu Pilatos.
     O rapaz cresceu. Ele cobiçou o trono e assassinou o filho do rei, o verdadeiro herdeiro do trono. Quando os romanos conquistaram a Germânia, o falso herdeiro do trono foi levado como refém para Roma. Ali ele cometeu mais alguns assassinatos e conseguiu certo prestígio. Ele foi, então, enviado para Pontius, onde cumpriu com mão de ferro as ordens de Roma, eliminando as tribos rebeldes. Com isso granjeou confiança do César, recebendo o cognome: Pontius. Foi então mandado como governador para a Judéia, que até aqui tinha sido governado por Valérius Gratus. Informações sobre ele temos de Josephus e Eusébio.
    Na Judéia cometeu diversos erros. Os Césares romanos colocavam a efígie de seus bustos debaixo das insígnias romanas, no estandarte. Isto para os judeus era um sacrilégio. Valérius havia respeitado os costumes religiosos dos judeus. Pilatos mandou colocar, à noite, o estandarte romano com a efígie de Cesar no Templo. Os judeus protestaram. Centenas de judeus foram até Cesaréia, pedir que Pilatos retirasse esta efígie de Jerusalém, em respeito à fé de seus pais. Eles se deitaram por cinco dias e cinco noites diante do palácio. Pilatos mandou cercá-los por seus soldados e ameaçou matá-los. Eles não recuaram. Impressionado com tal coragem, mandou retirar a efígie de César.
    Após a morte de Jesus, ele teve outra rusga com os samaritanos, também por causa de costumes religiosos. Pilatos não os acatou. Eles pediram: Não inicie uma guerra, não use de violência, respeite a tradição de nossos pais. Pilatos não lhes deu ouvidos e mandou seus soldados espalhar a multidão a cacetadas. Houve mortes e muitos feridos. Os samaritanos mandaram uma carta ao procurador da Síria, o qual informou a César a respeito. César mandou Pilatos vir a Roma para se justificar dos problemas, tanto da morte de Jesus como do levante e das atrocidades cometidas contra os samaritanos. Pilatos foi. Como a viagem a Roma era demorada, nesse tempo o César Tibérios veio a falecer e Cajus, que já não era simpático a Pilatos, assumiu o trono. Pilatos caiu em desgraça diante de César e foi condenado. Sendo lançado numa prisão, onde se suicidou. Triste fim de Pilatos. 


25 - Entregou Jesus à vontade deles

     Soltou aquele que estava encarcerado por causa da sedição e do homicídio, a quem eles pediam; e, quanto a Jesus, entregou-o à vontade deles (Lucas 23.25).

     Jesus foi entregue aos soldados e ao povo. Os fariseus jubilaram, o povo delirou sedento de sensações, gritavam freneticamente: Crucifica-o, crucifica-o! 
     Após algum tempo via-se pelas estreitas ruas de Jerusalém três condenados carregando suas pesadas cruzes de madeira, conduzidos por soldados romanos. Seguia-o numerosa multidão de povo, e também mulheres que batiam no peito e lamentavam.  Porém Jesus, voltando-se para elas, disse: Filhas de Jerusalém, não choreis por mim; chorai, antes, por vós mesmas e por vossos filhos! (Lucas 23.27-28) A coragem dessas mulheres é de admirar. Elas não temeram confessar, em meio à multidão, sua simpatia por Jesus. Suas lágrimas eram um protesto contra a injustiça que estava sendo cometida.
     De repente, Jesus parou. Olhou para as mulheres e lhes disse: Filhas de Jerusalém, não choreis por mim; chorai, antes, por vós mesmas e por vossos filhos! Eu carrego a cruz voluntariamente em obediência ao Pai, para a salvação de muitos. Chorai, antes, por vós mesmas e por vossos filhos! Reconhecei a causa do meu sofrimento. Esta causa não é simplesmente o ódio dos fariseus, a injustiça de Pilatos, mas são os pecados da humanidade que eu carrego. Importa que cada um reconheça seus próprios pecados, como cantamos no hino: “Eu, eu e meu pecado havemos motivado a tua grande dor, os murros violentos, mil outros sofrimentos, que te enchem a alma de pavor”. (HL 94.4) Como Jesus o disse pelo profeta Isaías: Me deste trabalho com os teus pecados. (Is 43.34)
     Quantos contemplam, ainda hoje, a história da paixão, por filmes e vídeos, e ao verem as cenas mais cruentas se comovem às lágrimas, e dizem: Que ingratidão por parte dos judeus! Que crueldade por parte dos romanos, mas não reconhecem a verdadeira causa de todo o sofrimento de Jesus, nossos pecados, nem a bênção destes sofrimentos, “por vós”, para nos reconciliar com Deus Pai.
    Ao contemplarmos a história da paixão vemos nosso coração humano. Pois tudo o que se passa ali é um espelha do nosso coração corrompido, que ama o pecado e é inimigo de Deus, que dá mais ouvidos ao diabo do que a Deus.
    Chorai, antes, por vós mesmas e por vossos filhos! Caso não vos arrependerdes, virá sobre vós o que os judeus pediram: Caia sobre nós o seu sangue, e sobre nossos filhos! (Mt 27.25) Este castigo estava prestes a cair sobre eles, especialmente sobre Jerusalém. Jesus conhece o coração do Pai e sabe que castigo virá. Então verão que coisa horrível é cair nas mãos do Deus vivo (Hebreus 10.31). Todo aquele que não se arrepender de seus pecados e confiar em Cristo como seu Salvador, será ceifado pela ira do Cordeiro e lançado ao inferno. Por isso: Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração (Hebreus 4.7).
     Aos que choram seus pecados, / dá consolo em tem perdão; / pelo Espírito guiado, / vivam sempre em retidão. (HL 357.2)


26 - Se em lenho verde fazem isto

     Porque, se em lenho verde fazem isto, que será no lenho seco? (Lucas 23.31)

     Esta palavra Jesus proferiu às mulheres, que choravam por ele.  O que Jesus queria dizer com esta advertência? Lenho seco, quando cai no fogo queima logo e é consumido rapidamente. Lenho verde quando cai no fogo, custa a queimar e demora mais. O lenho verde é Jesus. Ele nunca pecou. Está intato. Lenho seco, corroído pelo pecado somos todos nós, são todos os seres humanos, réus da ira divina, do fogo do inferno. Ora, se Deus Pai está derramando um juízo tão severo sobre seu próprio Filho que não tem pecado nenhum, mas carrega os pecados alheios, o que será do lenho seco, dos pecadores que por sua incredulidade rejeita o amor de Deus, quando eles caírem sob o juízo de Deus. Diz o escritor aos hebreus: Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo (Hebreus 10.31).
    Lenho seco. A esse respeito o profeta Isaías escreve: Mas as vossas iniqüidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que vos não ouça (Isaías 59.2). O apóstolo Paulo afirma: Estando nós mortos em nossos delitos (Efésios 2.5).
     Chorai por vós. Olhando para os sofrimentos de Cristo, devemos reconhecer nossa culpa e quão grande é a ira de Deus sobre o pecador. Bem-aventurados os que pela iluminação do Espírito Santo chegam ao arrependimento e à fé na graça de Cristo.
     E sobre vossos filhos. Jesus sabe que a grande maioria em Jerusalém, mesmo após a Páscoa e Pentecostes, rejeitará a Jesus e sofrerão o castigo divino. No ano 70, os romanos cercaram Jerusalém por três anos e então conquistaram a cidade e a queimaram a fogo. O horror deste cerco de três anos, a entrada dos romanos em Jerusalém, os saques, as mortes, os incêndios foram descritos pelo historiados Flávio Josefo (Flávio Josefo, História dos Hebreus. Casa Publicadora das Assembléias de Deus, Rio de Janeiro, RJ. 1999). 
     Jubilosos podemos dizer: Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor (Romanos 7.25). Pelo batismo fomos enxertados na árvore da vida, e enquanto na fé estamos sob a graça de Cristo. Recebemos perdão dos pecados, vida e eterna salvação. Como filhos de Deus, produzimos os frutos da justiça. Mas se desleixarmos a palavra, vindo a cair da fé, nós perderemos a vida e voltaremos à morte e escravidão de Satanás. Que Deus nos guarde disso.
     Sinceramente me arrependo / de minha grande transgressão. / À tua graça é que em rendo / em verdadeira confissão. / Tem compaixão, tem compaixão / de mim na minha perdição. (HL 356.2)

27 - O cireneu, chamado Simão

     Ao saírem, encontraram um cireneu, chamado Simão, a quem obrigaram a carregar-lhe a cruz (Mateus 27.32).

     O cortejo chegou ao ponto mais fundo do vale. Agora começaria a lenta subida ao monte Gólgota. Jesus caiu exausto sob o peso da cruz. Não é de admirar. Por tudo o que sofreu nas últimas horas, desde quinta-feira à noite, quando foi preso. Suas forças humanas se esgotaram.
    Os soldados viram que não adiantava chicotear. Olharam em derredor para ver quem poderia ajudar. Não fizeram isto por compaixão com Jesus ou para lhe aliviar o peso da cruz, mas simplesmente, porque não queriam atrasar a crucificação, ou talvez por medo de que ele viesse a morrer antes. Mas, em derredor deles não se achava ninguém que pudesse carregar a cruz. Lembramos a ordem de Deus: Se vires prostrado debaixo da sua carga o jumento daquele que te aborrece, não o abandonarás, mas ajudá-lo-ás a erguê-lo (Êxodo 23.5). Mesmo do jumento de um inimigo deveríamos ter compaixão. Aqui está o Filho de Deus e ninguém para lhe ajudar a carregar a cruz. Onde estavam os discípulos, especialmente Pedro que estava pronto a morrer com Jesus? Estamos nós hoje prontos a nos empenhar no trabalho de levar o evangelho a todas as nações? Ou também nos esquivamos para ficar diante da televisão, em nossos momentos de lazer e recreações?
     Os soldados não lhe ajudaram. Então um dos soldados viu um homem que veio do campo e olhou de curioso. Eles o agarraram e o obrigaram a carregar a cruz. Era Simão, de uma cidade ao norte da África, chamada Cirene. Provavelmente um judeu que veio para a festa da páscoa e se hospedou numa cidade circunvizinhança. Quando o chamaram, ele não quis, mas eles o obrigaram a isso. Realmente era algo muito vergonhoso carregar a cruz de um condenado. Além disso, isso o tornava impuro para participar das festividades da páscoa. Talvez fosse um motivo porque lançaram mão de Simão que parecia ser um estrangeiro.
    Forçaram a Simão a carregar a cruz. Na noite passada, no jardim do Getsêmani, um anjo veio confortá-lo; aqui Simão precisa ajudar a carregar a cruz. Inesperada e fulminantemente Simão viu-se sob a cruz. Era acaso? Por que ele escolheu esse caminho? Por que os soldados tomaram a ele? As pessoas dizem: Isto é acaso. Deus não vê isso assim. O profeta Jeremias afirma: Eu sei, ó SENHOR, que não cabe ao homem determinar o seu caminho, nem ao que caminha o dirigir os seus passos (Jeremias 10.23). E o salmista afirma: Ele, que forma (governa, dirige) o coração de todos eles, que contempla todas as suas obras (Salmos 33.15).
      Esta hora que parecia para Simão horrível, tornou-se uma hora de grande bênção. Nesta hora Deus lhe abriu o céu para ele e para seus familiares. Não que o carregar da cruz o tivesse purificado, mas o colocou em contato com Jesus. Provavelmente ao chegar ao Gólgota, Simão não saiu logo dali, mas observou atentamente os acontecimentos. Ouviu sobre Jesus, ouviu as palavras e a oração de Jesus. Estas palavras o levaram ao verdadeiro conhecimento de quem era Jesus, e à fé em Cristo.
     No dia de Pentecostes encontramos pessoas de Cirene em Jerusalém. Atos dos Apóstolos menciona seus filhos: Rufo e Alexandre. (Atos 19.33; Romanos 16.13) Em Cirene foi fundada uma das primeiras comunidades cristãs. Este encontro transformou-se num momento de grande bênção para Simão, sua família e sua cidade. O encontro com Jesus seja sob que condições, traz bênção para as pessoas.
     Eu vejo aquela cruz / na qual o meu Jesus / por mim foi pendurado, / levando o meu pecado. / Sua angustiosa morte / mudaram minha sorte. (HL 80.1)


28 - Tome a sua cruz e siga-me

     Jesus disse a seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me (Mateus 16.24).

     O cortejo seguiu lentamente morro acima. Havia três condenados que portavam suas cruzes.
     Comecemos pelo primeiro, Jesus. Ele carregou sua cruz por uma boa parte do trajeto. Exausto e esgotados pelos sofrimentos, caiu. Os soldados romanos tomaram a Simão o Cireneu, e o obrigaram a carregar a cruz de Jesus. Mas Jesus continuou a carregar a cruz principal, os pecados de toda a humanidade. Nisso ninguém lhe poderia ajudar. Ele carregou sozinho esse peso até a morte na cruz.
     Após ele, vinham Simão, carregando a cruz de Jesus. Esta cruz foi-lhe imposta a força, e veio a ser lhe uma bênção. Assim Jesus, em seu grande amor, impõe por vezes cruzes aos seus fiéis, que no momento não compreendemos e nos pesam, mas que nos são uma bênção.
     Que cruzes são estas? São diversos. Por vezes o ódio e desprezo do mundo por causa do nome de Jesus. Por vezes, prejuízos materiais por causa de nosso comportamento cristão, por não compartilharmos as injustiças, fraudes e enganos do mundo. Outras vezes são enfermidades, a fim de nos afastar do amor ao mundo e das coisas que há no mundo. Enfermidades que Jesus santificou para nós (Isaias 53.4).
    Nossa carne se opõe à cruz. Simão não a quis carregar. Ao apóstolo Pedro Jesus diz: Eles te conduzirão para onde não queres ir (João 21.18). Esta cruz que Jesus impõe, no entanto, nos é uma bênção. O apóstolo Paulo escreve: E não somente isto, mas também nos gloriamos nas próprias tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança; e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança.  Ora, a esperança não confunde, porque o amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo, que nos foi outorgado (Romanos 5.3-5). Nestes momentos de cruz, Jesus não nos deixa sozinhos, ele diz: Não temas eu estou contigo. Por isso o apóstolo Paulo afirma: Tudo posso naquele que me fortalece (Filipenses 4.13). E ao apóstolo Paulo, Jesus disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo (2 Coríntios 12.9).
    Enquanto estivermos aqui na terra, sempre teremos uma cruz a carregar, ora mais pesada, ora mais leve, porque a igreja está sob a cruz. A verdadeira libertação só virá na Jerusalém celestial. Lá nos serão enxugadas todas as lágrimas (Apocalipse 21.4).
    Atrás de Jesus seguiam dois malfeitores, carregando suas cruzes. Recebiam o castigo que seus atos mereceram. O apóstolo Pedro diz: Não sofra, porém, nenhum de vós como assassino, ou ladrão, ou malfeitor, ou como quem se intromete em negócios de outrem (1 Pedro 4.15). Há muitos sofrimentos que não são cruzes, são sofrimentos que causamos por nossos pecados. Quer por vícios que arruínam a saúde, quer por má educação de nossos filhos que nos causam sofrimentos, quer porque não fomos honestos, defraudamos e colhemos as conseqüências. Esses não têm motivos para se queixarem da cruz. Estes são sofrimentos devem nos levar ao arrependimento. E quando reconhecemos nossas culpas e recorremos a Jesus, como o malfeitor na cruz, ouviremos de Jesus também as palavras confortadoras: Perdoados são os teus pecados. E Jesus nos dará forças para suportar as aflições. Mas os que não se arrependem, a cruz lhes é um castigo e prenúncio dos grandes sofrimentos infernais.
     Deus na cruz é meu amado, / tudo posso suportar - / nu, faminto e flagelado, / nada me há de separar / de Jesus, nem vil metal, / nem o príncipe infernal. / Deus na cruz é meu amado, / pois na fé sou confirmado. (HL 82.5) 


29 - Gólgota

     E, chegando a um lugar chamado Gólgota, que significa Lugar da Caveira, deram-lhe a beber vinho com fel; mas ele, provando-o, não o quis beber.  Depois de o crucificarem, repartiram entre si as suas vestes, tirando a sorte (Mateus 27.33-35).

     Chegaram ao Gólgota, que significa lugar da caveira. Era um lugar que ficava a 230 metros da porta chamada Damasco, onde estava a gruta de Jeremias. É o único lugar na redondeza que ainda hoje tem esse nome. Suas rochas, de 10 metros de altura, têm grande semelhança com uma caveira. A tradição, no entanto, coloca Gólgota no lugar onde hoje se acha o Santo Sepulcro, fora do antigo muro de Jerusalém, mas dentro do muro atual. Afirmam que o lugar se chamava assim por que havia ali muitas caveiras. Isso vai, no entanto, contra o costume judaico que entravam seus mortos. Era lhes proibido deixar um cadáver humano desenterrado. Sabemos que Gólgota ficava fora do muro. E não deve ser esquecido que o terceiro muro provavelmente já tinha sido construído no tempo de Jesus. Bem, o importante não é o lugar, mas contemplar o que aconteceu ali. Para nós, por isso, Gólgota está em todo o lugar onde podemos meditar sobre os sofrimentos de Jesus e abraçá-lo em fé.
     Ali, no Gólgota aconteceu o maior milagre que esta terra já viu. Aconteceu o que é  loucura para a razão, que se escandaliza nesse acontecimento. Ali, a Trindade revelou seu imenso amor à humanidade e especialmente a ti e a mim. Ali o próprio Filho de Deus, Jesus Cristo, deu sua vida por nós. Ali Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo (2 Coríntios 519).
   Tendo chegado ao monte Calvário, despiram Jesus. Ofereceram-lhe vinagre com fel, para amainar as horríveis dores da crucificação, mas Jesus o recusou. Era costume dos romanos punirem seus escravos rebeldes, estrangeiros e grandes malfeitores, com a crucificação. O processo da crucificação variava. Na maioria das vezes os infelizes eram pregados na cruz que em seguida a cruz era erguida. Por vezes, cada pé era pregado separado, outras vezes os dois pés eram atravessados por um prego grande. Outros eram só amarrados à cruz. As agonias eram indescritíveis. Expostos ao sol, às nuvens de moscas, os condenados ficavam sofrendo ali dores e sede, por vezes até quatro a seis dias, conforme descrição de historiadores da época.
     Impressionante! O Senhor dos senhores, o Senhor do mundo, o Senhor da glória crucificado por suas criaturas e pelo povo que Deus formou para ser o seu povo. O apóstolo Paulo afirma: Sabedoria essa que nenhum dos poderosos deste século conheceu; porque, se a tivessem conhecido, jamais teriam crucificado o Senhor da glória (1 Coríntios 2.8).
     A crucificação de Jesus não foi somente conseqüência e expressão de ódio dos fariseus. Deus o havia planejado desde a eternidade. Ele anunciou a Adão e Eva: Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar (Gênesis 3.15). A haste com a serpente, que Moisés levantou no deserto, por ordem de Deus, era uma figura da cruz de Cristo ( João 3.14). No Salmo 22, o rei Davi fala da morte de Cristo: Secou-se o meu vigor, como um caco de barro, e a língua se me apega ao céu da boca; assim, me deitas no pó da morte (Salmos 22.15). Jesus fala pelo profeta Isaías e diz: Fui contado com os transgressore. (Isaías 53.12). E pelo profeta Zacarias Jesus diz: Olharão para mim, a quem traspassaram (Zacarias 12.10). Tudo se cumpriu perfeitamente.
     Mas, ao contemplarmos os acontecimentos na cruz, precisamos perguntar-nos sempre de novo: Por que tudo isso? E a única resposta é: Por minha causa. O apóstolo Paulo afirma: Todos quantos, pois, são das obras da lei estão debaixo de maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no Livro da lei, para praticá-las (Gálatas 3.10). E o apóstolo Pedro afirma: Carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados, para que nós, mortos para os pecados, vivamos para a justiça; por suas chagas, fostes sarados (1 Pedro 2.24).
     Moisés afirma: Será, porém, que, se não deres ouvidos à voz do SENHOR, teu Deus, não cuidando em cumprir todos os seus mandamentos e os seus estatutos que, hoje, te ordeno, então, virão todas estas maldições sobre ti e te alcançarão: Maldito serás tu na cidade e maldito serás no campo.  Maldito o teu cesto e a tua amassadeira.  Maldito o fruto do teu ventre, e o fruto da tua terra, e as crias das tuas vacas e das tuas ovelhas.  Maldito serás ao entrares e maldito, ao saíres (Deuteronômio 28.15-19). Toda essa maldição Jesus tomou sobre si, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Maravilhosa salvação. Pobres e ricos, jovens e velhos, reis e mendigos, ao pé da cruz encontram perdão, vida e eterna salvação.
     Quero, ó Cristo, meditar / no teu sofrimento; / do teu trono vem guiar / o meu pensamento. / Possa eu ver, ó meu Jesus, / quão atroz tormento / exigiu na infame cruz / nosso salvamento. (HL 85.1)


30 - JESUS NAZARENO, O REI DOS JUDEUS

     Pilatos escreveu também um título e o colocou no cimo da cruz; o que estava escrito era: JESUS NAZARENO, O REI DOS JUDEUS.  Muitos judeus leram este título, porque o lugar em que Jesus fora crucificado era perto da cidade; e estava escrito em hebraico, latim e grego.  Os principais sacerdotes diziam a Pilatos: Não escrevas: Rei dos judeus, e sim que ele disse: Sou o rei dos judeus.  Respondeu Pilatos: O que escrevi escrevi (João 19.19-22).

     O ato da crucificação terminou. No monte Gólgota, que fica perto de Jerusalém, na estrada que conduz para Cesaréia e Galiléia, estavam três homens agonizando na cruz, e uma multidão aglomerada ao pé da cruz. A atenção de quase todos estava voltada para a cruz central, na qual estava fixado o letreiro: Jesus Nazareno, rei dos judeus.
     Pilatos ordenou que se escrevesse esta tabuleta para zombar dos fariseus, que exigiram a condenação de Jesus, sob a alegação: Ele se fez rei. Ao mesmo tempo era costume assinalar por uma tabuleta o motivo da condenação. 
     Jesus Nazareno, rei dos judeus. Jesus, realmente, era Rei. Ele o havia declarado a Pilatos. Eu para isso nasci e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz (João 18.37). O profeta Jeremias profetizou a respeito dizendo: Eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que levantarei a Davi um Renovo justo; e, rei que é, reinará, e agirá sabiamente, e executará o juízo e a justiça na terra (Jeremias 23.5). E o anjo anunciou a Maria: Ele reinará para sempre sobre a casa de Jacó, e o seu reinado não terá fim (Lucas 1.33). Quando os Magos chegaram a Jerusalém, eles perguntaram: Onde está o recém-nascido Rei dos judeus? Porque vimos a sua estrela no Oriente e viemos para adorá-lo (Mateus 2.2). Quando Natanael encontrou Jesus, ele exclamou: Mestre, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel! (João 1.49)
     Este rei Jesus veio ao mundo não para estabelecer aqui um reino material, mas para libertar a humanidade da culpa do pecado, do poder da morte e da escravidão de Satanás, para reconciliar a humanidade com Deus Pai e conduzi-la ao lar celestial. Quão triste, porém. Veio para o que era seu, e os seus não o receberam (João 1.11). O povo de Israel queria um rei que o libertasse do jugo romano e lhe desse dias felizes e de glória mundana. Vendo que Jesus não veio para isso, eles o rejeitaram e disseram a Pilatos: Não queremos que este reine sobre nós (Lucas 19.14). Ainda hoje muitos pensam como os judeus. Querem um rei que lhes proporcione saúde e felicidade material.
     O anjo disse a José: Ela dará à luz um filho e lhe porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos pecados deles (Mateus 1.21). Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido (Lucas 19.10). Ele recebeu também o apelido de Nazareno, porque se criou na cidade de Nazaré, como lemos: E foi habitar numa cidade chamada Nazaré, para que se cumprisse o que fora dito por intermédio dos profetas: Ele será chamado Nazareno (Mateus 2.23 RA; Isaías 53.2,3). Assim o vemos pregado na cruz, sem formosura, nem aparência, sem majestade, sem glória. No entanto, ele é o Rei dos reis, o Senhor dos senhores, que se humilhou tão profundamente para reconciliar a humanidade com Deus e libertá-la de seus inimigos: pecado, morte e Satanás.
     No terceiro dia, ele ressuscitou. Triunfou sobre a morte e disse aos seus: Eu vivo, vós também vivereis (João 14.19). E lemos na Escritura: Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por estrado dos teus pés (Lucas 20.42,43). E os anjos nos céus cantam: Digno é o Cordeiro que foi morto de receber o poder, e riqueza, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e louvor (Apocalipse 5.12). E o próprio Jesus afirma: Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra (Mt 28.18).
     Ele é especialmente o teu Senhor. Já o reconheceste como tal? Ainda é tempo da graça. Ainda Jesus convida, dizendo: Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei (Mateus 11.28). A ele queremos adorar e proclamar.
     Exaltemos o Cordeiro, / que nos tem imenso amor; / imolado no madeiro, / resgatou-nos o Senhor. – A Jesus rendamos glória, / honra como a mais ninguém; / proclamemos a vitória / de Jesus, sem fim! Amém. (HL 87. 4,5)
    

31 - Os que iam passando blasfemavam dele

     Os que iam passando blasfemavam dele, meneando a cabeça e dizendo:  Ó tu que destróis o santuário e em três dias o reedificas! Salva-te a ti mesmo, se és Filho de Deus, e desce da cruz!  De igual modo, os principais sacerdotes, com os escribas e anciãos, escarnecendo, diziam:  Salvou os outros, a si mesmo não pode salvar-se. É rei de Israel! Desça da cruz, e creremos nele.  Confiou em Deus; pois venha livrá-lo agora, se, de fato, lhe quer bem; porque disse: Sou Filho de Deus.  E os mesmos impropérios lhe diziam também os ladrões que haviam sido crucificados com ele (Mateus 27.39-44).

     Os crucificados estão dependurados nas suas cruzes. Os inimigos jubilam. Finalmente alcançaram seu intento. Irrompem em zombarias. Interessante é observar que tipo de zombaria. Salvou os outros, salve-se a si mesmo. Eles lembram bem os muitos milagres de Jesus. Outra zombaria: Confiou em Deus! Diz-se Filho de Deus, que Deus venha salvá-lo agora. Imaginam. Eles lembram bem os sermões de Jesus. Com isso expressam o temor de seus corações. Temia que isso fosse verdade. E agora, crucificado, parece haver neles um alívio na consciência. Lembram talvez a hora em que queria apedrejá-lo e Jesus tornou-se invisível e se retirou. Temia, agora, que na última hora pudesse dar tudo errado. Mas agora ele estava na cruz. Venceram. O medo de seus corações se transformou em jubilosa zombaria.
     Ainda hoje, os inimigos ao pé da cruz são em número maior do que os fiéis, que o reconhecem como Filho de Deus e o adoram.
     Ainda hoje a cruz é escândalo para os judeus e loucura para os gentios (incrédulos) (1 Coríntios 1.23). A razão não pode pensar diferente. Um homem sangrando na cruz, não pode ser Deus. Que pai judiaria assim o seu próprio filho? Como Deus que é amor, poderia martirizar assim seu próprio e unigênito Filho? De fato, todo o plano da salvação nos parece loucura e nos escandaliza. A razão não o pode compreender.
    Somente a quem o Espírito Santo abrir os olhos, iluminar e chamar, este verá, como o malfeitor na cruz, aqui está o Filho de Deus, sofrendo em lugar da humanidade, para reconciliar o mundo com Deus. Aqui Deus fez aquele que não conheceu pecado, pecado por nós, para que fossemos feitos filhos de Deus. Incompreensível, maravilhoso. E quem o crê tem o que a promessa de Deus lhe diz e sela: perdão dos pecados, vida e eterna salvação.
     Penhor tão precioso / me vem da tua cruz! / Por este dom gracioso / te louvo, meu Jesus. / Concede fiel me apegue / a ti, no meu final, / e nunca te renegue, / Amigo sem igual. (HL 88.6)


32 - Pai, perdoa-lhes

1ª Palavra de Jesus na cruz.
     Contudo, Jesus dizia: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.
Então, repartindo as vestes dele, lançaram sortes (Lucas 23.34).

     O tumulto em torno da cruz era grande. A zombaria, o escárnio continuava. Enquanto isso, Jesus permanecia em silêncio. Este silêncio era anormal. O historiador da época, Flávio Josefo, descreve a crucificação de muitos e diz que eles gritavam, berravam horas a fio de dor. Desesperados amaldiçoavam seus inimigos e deuses. Jesus guarda silêncio. E quando pela primeira vez abre sua boca na cruz, profere uma oração. Penso que, quando Jesus começou a falar, os inimigos ao pé da cruz silenciaram para ouvir o que ele diria. Jesus orou: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.
     Pai! – Assim Jesus invocou a Deus desde o princípio. No rio Jordão, por ocasião do batismo, Deus se manifestou e disse do céu: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo (Mateus 3.17). Jesus afirmou: Quem me vê a mim vê o Pai (João 14.9). Isto é consolador, saber que aqui está o Filho de Deus sofrendo por nós, para nos reconciliar com Deus Pai.
     Pai, perdoa-lhes. No Jardim Getsêmani, Jesus orou por si, agora suplica ao Pai em favor de seus inimigos. Jesus conhece o coração do Pai. Ele vê, o que os inimigos não viam, a ira de Deus que está prestes a desabar sobre eles. E Jesus, com os braços abertos, entre céu e terra, clama ao Pai: Pai, perdoa-lhes. Não os punes em tua ira. Cada pecado é uma bofetada no rosto de Deus. Nenhum pecado permanece impune. Freqüentemente Deus tem punido os pecados no ato. Quando o bando de Coré se revoltou contra Moisés, Deus fez a terra se abrir e engolir os rebeldes (Números 16). Sodoma e Gomorra foram castigados com fogo do céu. Sem dúvida, agora Deus não silenciará diante das atrocidades que as criaturas estavam praticando contra seu Filho unigênito. Mas Jesus se opõe à ira de Deus e clama por perdão. Não coloca nenhuma condição nesta sua oração como no Getsêmani: Se for da tua vontade. Não! Pai, perdoa-lhes. Para que isso fosse possível, ele estava sofrendo na cruz. Sim, seu sangue nos purifica de todos os pecados (1 Jo 1.7), ainda que sejam como a escarlate (Is 1.18).
    Pai,... não sabem o que fazem. – O que eles não sabem? Eles não sabiam que Jesus é o Filho de Deus, o Senhor da glória. Eles não sabiam que Deus estava executando aqui o seu plano da salvação. Eles não sabiam que eram instrumentos de Satanás. O povo cegado estava agindo na cegueira. Os próprios apóstolos não compreenderam o que estava acontecendo e vacilaram na fé. O apóstolo Pedro lhes diz no dia de Pentecostes: Eu sei que o fizestes por ignorância, como também as vossas autoridades (Atos 3.17). O apóstolo Paulo, que perseguiu a Igreja cristã, confessa mais tarde: O fiz na ignorância, na incredulidade (1 Timóteo 1.13). Observemos bem. Ele chama a inimizade contra Deus de incredulidade. Aqui Jesus interpreta, até onde possível, da melhor maneira, chamando também a inimizade de: Não sabem o que fazem. Quão bondoso é nosso Salvador. Isto nos consola. Também nós, quando somos enganados e puxamos pelo pecado – agimos como que cegados, por ignorância e incredulidade.
     Mas lembremos, não sabiam, porque não queriam saber. Estavam cegados pelo ódio a Jesus, pela astúcia de Satanás. Eles tinham as profecias lidas no templo, viram os milagres de Jesus que eram “sinais” do cumprimento das profecias, tinham os ensinos de Jesus. Eles não tinham desculpas. Ignorância não inocenta ninguém. Eles eram culpados.
     Quantos andam ainda hoje na ignorância? Mesmo assim, quantas igrejas por toda a parte. O evangelho anunciado pelas ondas do rádio, pela televisão, por revistas, folhetos e jornais. A Bíblia à venda. Não! Não terão desculpas.
     Por isso Jesus ora: Pai, perdoa-lhes! O pecado é grande. A ira estava prestes a desabar sobre eles. Perdoa-lhes! Isto é, não os castigos imediatamente. Concede-lhes mais um tempo da graça, para que possam presenciar a ressurreição, ouvir a mensagem no dia de Pentecostes, para chegarem ao conhecimento da verdade, arrepender se, chegarem à fé para serem salvos.
    Pai, perdoa-lhes! Esta oração, Jesus não a fez somente em favor de todos seus inimigos, soldados romanos, os fariseus e o povo em geral, mas também por nós. Quantas vezes temos pecado, merecendo o castigo imediato de Deus, mas Deus nos foi gracioso. Ele nos concedeu tempo para arrependimento e nos perdoou? Recebemos muito amor, por isso queremos amar nossos inimigos. Conta-se que o rei Luiz XII da França fez um sinal da cruz diante dos nomes de seus inimigos políticos para lembrar que deve amá-los. Assim Jesus diz a todos nós: Sede misericordiosos como também é misericordioso vosso Pai (Lucas 6.36).
     O cordeirinho é o bom Senhor, / amigo de minha alma; / é meu benigno Salvador, / que toda a dor acalma. / Eis, quem o Pai quis escolher / a fim de a morte desfazer, / provinda do pecado. / Oh! vai, meu Filho, vai salvar / os filhos que ia condenar: / Tu és o meu amado. (HL 89.2)


33 - Um dos malfeitores crucificados blasfemava contra ele

2ª Palavra Jesus na cruz.
     Um dos malfeitores crucificados blasfemava contra ele, dizendo: Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós também.  Respondendo-lhe, porém, o outro, repreendeu-o, dizendo: Nem ao menos temes a Deus, estando sob igual sentença?  Nós, na verdade, com justiça, porque recebemos o castigo que os nossos atos merecem; mas este nenhum mal fez.  E acrescentou: Jesus, lembra-te de mim quando vieres no teu reino.  Jesus lhe respondeu: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso (Lucas 23.39-43).

     Como vimos, o grupo dos zombadores era grande, até hoje o número é grande. Impressionante, no início os dois malfeitores crucificados com Cristo zombavam dele. Lemos em Mateus: Os mesmos impropérios lhe diziam também os ladrões que haviam sido crucificados com ele (Mateus 27.44). Eles diziam: Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós também. De repente silêncio. Jesus proferiu suas primeiras palavras na cruz: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. Isto fez com que um dos malfeitores silenciou, o outro continuou zombando. Então o seu companheiro lhe disse: Nem ao menos temes a Deus, estando sob igual sentença? Nós, na verdade, com justiça, porque recebemos o castigo que os nossos atos merecem; mas este nenhum mal fez. Que confissão! Temer a Deus. Eles conheciam a palavra de Deus. Sabiam: Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo (Hebreus 10.31).
     Eles eram judeus e havia aprendido como criança as profecias e os salmos. Desviaram-se de Deus na juventude, enveredaram pelo caminho do crime. Agora estavam na cruz. De repente as palavras de Jesus e sua oração começaram a fazer efeito num dos malfeitores. Tudo o que ele ouviu de Jesus e ouviu a respeito dele, como por exemplo: Filhas de Jerusalém, não chorais por mim; chorai antes por vós mesmas e por vossos filhos... Porque, se em lenho verde fazem isto, que será no lenho seco? (Lucas 23.28,31) E o letreiro que Pilatos mandou colocar: Este é o Rei dos judeus. (Lucas 23.38) Ele sem dúvida começou a lembrar-se das profecias, o Espírito Santo trabalhou em seu coração e o iluminou.
     Ele se arrependeu de seus pecados e disse a Jesus: Lembra-te de mim quando vieres no teu reino. Impressionante! Ele reconheceu nesse homem sofredor ao seu lado o Messias prometido, o Filho de Deus, o Salvador da humanidade. E mais. Ele teve a coagem para pedir que seu nome sujo e imundo fosse lembrado no céu. De onde lhe veio esta coragem? Das promessas e especialmente da oração que ele ouviu de Jesus: Pai, perdoa-lhes! Ao mesmo tempo, a oração deste malfeitor expressa profunda humildade e firme confiança: Lembra-te. Ele sabe quem for lembrado por Jesus no céu será salvo. E Jesus lhe responde: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso. Isto significa: Perdoados são os teus pecados. Pois onde há remissão dos pecados, há vida e eterna salvação. A paz de Cristo que o mundo não pode dar, inundou sua alma. Esta paz deu-lhe também forças para suportar os sofrimentos finais. E ele sofreu bastante. No final, os soldados romanos ainda lhe quebraram as pernas. Que sofrimento, que dor. Mas tudo isso ele suportou na força das palavras: Hoje estarás comigo no paraíso.
     Hoje temos muito mais palavras do que este malfeitor na cruz. Temos toda a Bíblia, profecias, salmos, o Novo Testamento. Quanto consolo.
     Ainda hoje Jesus chama e consola por sua Palavra. O mundo ri e zomba, mas bem-aventurado o que crê. E enquanto estamos aqui na terra, queremos testemunhar a nossos parentes, amigos e colegas. Chamá-los ao arrependimento e à fé em Cristo.
     Consola-me na morte, / lembrando a tua dor; / és meu escudo forte, / glorioso Vencedor. / Estando a contemplar-te, / confiante vou dizer, / feliz, ao abraçar-te: / Assim é bom morrer! (HL 88.8)


34 - Vendo Jesus sua mãe

3ª Palavra de Jesus na cruz.
    Vendo Jesus sua mãe e junto a ela o discípulo amado, disse: Mulher, eis aí teu filho.  Depois, disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. Dessa hora em diante, o discípulo a tomou para casa (João 19.26-27).

     Ao pé da cruz está um pequeno grupo de fiéis. Algumas mulheres e o discípulo amado de Jesus. As mulheres são: Maria, a mãe de Jesus, sua irmã e Maria mãe de Cléopas, Maria Madalena e o apóstolo João. Quanta tristeza, angústia, dúvidas em suas almas. Não compreendem os caminhos de Deus e o porquê dos sofrimentos de Cristo. Sua fé era como um pavio que fumega.
     Vendo Jesus sua mãe e o discípulo amado, disse-lhes: Mulher, eis aí teu filho.  Depois, disse ao discípulo: Eis aí tua mãe.
     Mulher! disse Jesus. É a segunda vez que ele usa essa expressão em relação à sua mãe. A primeira vez foi por ocasião do primeiro milagre, em Caná da Galiléia (João 2.4). Seria para ocultar a identidade de Maria? Não. Ela nada tinha a temer. Ao Jesus chamar sua mãe, a humilde serva do Senhor, simplesmente, de mulher, ele estava indicando que aqui, com sua morte, termina sua missão de mãe. Em breve, após sua ressurreição, terminará a humilhação de Jesus, passará para o estado da exaltação. Neste estado, Maria deveria olhar para ele como seu Salvador, pois também ela depende da graça de Cristo. Isto ela sabia. Mas ao romper o laço de mãe e filho, Jesus não deixa de cumprir o quarto mandamento. Mesmo em meio aos seus sofrimentos, não se esqueceu de dar à sua mãe o devido amparo. Visto que nada lhe poderia dar, pois até suas vestes os soldados repartiram entre si, ele a entrega aos cuidados do seu discípulo amado, João, ao qual diz: Eis aí tua mãe. Sabemos que João compreendeu as palavras e cuidou dela até ao fim, como ele mesmo afirma em seu evangelho: Dessa hora em diante o discípulo a tomou para casa (João 19.27). Importa tomar estas palavras também literalmente. João tomou Maria imediatamente e a levou para sua casa, de modo que ela não estava mais ali durante as horas da escuridão e também não viu a morte de Jesus.  
     O pai, José, pelo que parece, já havia falecido. E quanto aos outros irmãos de Jesus - alguns interpretam os textos como primos – sabemos que só após a ressurreição de Jesus, vieram realmente a crer nele.
    Com isto Jesus nos dá exemplo de como devemos cuidar de nossos pais. Pois diz a Escritura: Ora, se alguém não tem cuidado dos seus e especialmente dos da própria casa, tem negado a fé e é pior do que o descrente (1 Timóteo 5.8). Sendo nós, a comunhão dos santos, a grande família de Deus, queremos cuidar uns dos outros em amor. No juízo final, ouviremos de Jesus as palavras: Estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes ver-me.  Então, perguntarão os justos: Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer? Ou com sede e te demos de beber?  E quando te vimos forasteiro e te hospedamos? Ou nu e te vestimos?  E quando te vimos enfermo ou preso e te fomos visitar?  O Rei, respondendo, lhes dirá: Em verdade vos afirmo que, sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes (Mateus 25.36-40).
     Por mim morrendo no madeiro, / o Salvador me resgatou / do horrendo e eterno cativeiro, / a vida eterna me doou. / Meu Deus, eu morrerei contente / e espero a tua glória ver, / quando eu entrar no céu luzente / e como Jesus ali viver. (HL 470.4)


35 - Eli, Eli, lamá sabactâni?

4ª Palavra de Jesus na cruz.
     Desde a hora sexta até à hora nona, houve trevas sobre toda a terra.  Por volta da hora nona, clamou Jesus em alta voz, dizendo: Eli, Eli, lamá sabactâni? O que quer dizer: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?  E alguns dos que ali estavam, ouvindo isto, diziam: Ele chama por Elias (Mateus 27.45-47).

    Era meio dia. No monte Gólgota um céu límpido. O sol ardia impiedosamente sobre os crucificados. As três primeiras horas passaram. A cena no Gólgota não sofreu alterações. A zombaria continuava. Curiosos vinham e saíam. Ao pé da cruz as mulheres, menos Maria, continuavam em sua tristeza.
     De repente, em pleno meio dia, o sol se escureceu. Não eram nuvens que encobriram o sol. Não era um eclipse solar, mas o sol perdeu seu brilho. Densas trevas cobrir a terra, não somente naquela região de Jerusalém. O evangelista Marcos acentua: Houve trevas sobre toda a terra (Marcos 15.33). Os anais do império romano confirmam o acontecimento. No Egito, quando Dionísio o areopagita viu o sol escurecer, exclamou: “Deus está sofrendo, ou tem piedade de alguém que muito sofre”. Deve ter sido assustador: Sol, lua, estrelas pararam de brilhar em reverência ao seu Criador, em reverência ao autor e fonte de toda a luz e vida. Nos campos os animais mugiam, os pássaros se recolheram às árvores. Nos corações humanos palpitava medo e pavor. Muitos que se encontravam ao pé da cruz, fugiram para Jerusalém.
     A escuridão durou três horas. O que Jesus sofreu nestas horas nenhum olho humano viu. Também a Escritura não o descreve. Quando o sol voltou a brilhar, Jesus exclamou em alta voz, as palavras em hebraico: Eli, Eli, lama sabactâni? Que quer dizer: Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste. Que palavras? Não era queixa, nem irritação. Era uma confissão. Estas palavras revelam o que Jesus sofreu nessas horas. O abandono de Deus. Jesus suportou em seu corpo e sua alma a maldição divina. O apóstolo afirma: Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar (porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro (Gálatas 3.13). Satanás tentou, com todo seu poder, destruir o plano da salvação. Em vão.
     Lutero, após meditar três dias sobre estas palavras: Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste, exclamou: Deus por Deus desamparado, que o compreenderá? Grande é este mistério. Jesus é Deus. Ele não deixou de ser Deus em sua humilhação. A Trindade não foi desfeita. Mesmo assim, Jesus sentiu em seu corpo e sua alma, o abandono de Deus. Nossa razão não o pode compreender. A Bíblia nos diz: O SENHOR fez cair sobre ele a iniqüidade de nós todos (Isaías 53.6). Ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados (Isaías 53.5).
     Jesus sofreu o abandono de Deus por nós, para nos reconciliou com Deus. Agora, ninguém pode dizer: Deus me abandonou. Deus ama a todos e quer que todos cheguem ao pleno conhecimento da verdade, se arrependam, creiam em Cristo e voltem à comunhão com Deus. Mas, aquele que rejeitar o amor de Deus em Cristo e permanece incrédulo, esse permanece escravo de Satanás e será condenado ao sofrimento eterno. Que Deus nos livre disso. Ainda é tempo da graça. Ainda Deus chama e estende sua mão. Apega-se à graça de Cristo. Crê no Senhor Jesus e serás salvo.
     Vem a Cristo, vem agora, / carregado, como estás. / Dele só e sem demora / o perdão conseguirás. – Crê no Salvador clemente, / que na cruz por ti morreu. / Nunca nega a quem for crente / a mansão feliz no céu. (HL 364.1 e 2)


36 - Tenho sede!

5ª Palavra de Jesus na cruz.
Depois, vendo Jesus que tudo já estava consumado, para se cumprir a Escritura, disse: Tenho sede!  Estava ali um vaso cheio de vinagre. Embeberam de vinagre uma esponja e, fixando-a num caniço de hissopo, lha chegaram à boca (João 19.28-29).

     Sede é um dos piores sofrimentos humanos. Só quem já passou por isso, conhece o que é sede. Muitas vezes ouvimos de enfermos, que estão à porta da morte, o pedido: Dê-me um pouco de água, molhe meus lábios um pouco. Também esse sofrimento nosso salvador padeceu por nós. Sua sede era grande. Desde a quinta-feira à noite até agora, sexta-feira às três horas da tarde, não havia provado nem comida, nem bebida. Seu alimento foi o amargo sofrer e a zombaria da multidão. O Salmo 22 descreveu seu sofrimento assim: Derramei-me como água, e todos os meus ossos se desconjuntaram; meu coração fez-se como cera, derreteu-se dentro de mim.  Secou-se o meu vigor, como um caco de barro, e a língua se me apega ao céu da boca; assim, me deitas no pó da morte (Salmos 22.14-15).
      Tenho sede! Jesus é verdadeiro homem e como tal sentiu sede. Ele havia sofrido as dores infernais e agora sente sede. Quem não lembra imediatamente o pedido do rico no inferno: Pai Abraão... manda a Lázaro que molhe em água a ponta do dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama (Lucas 16.24).
     Tenho sede! Imediatamente um soldado correu e trouxe fel e vinho. E lhe alcançou esse líquido uma esponja. Os soldados, que normalmente não se importavam com os pedidos e os clamores dos crucificados, dessa vez atenderam. Tudo para que se cumprisse a Escritura (Salmo 68.12), até os mínimos detalhes.
     Tenho sede! São as palavras daquele que havia dito: Quem tem sede vem a mim e beba (João 7.37). Ele sofre esta sede para poder saciar a sede humana por perdão e paz e para  poder dar água para nunca mais terem sede (Jo 4.14).
    Quão sedenta é a humanidade? Procuram matar a sede em coisas mil, no saber, no trabalho, nos prazeres, em vícios, e voltam desiludidos. Só Cristo pode matar a sede da humanidade. Só ele pode matar a sede do coração humano. Por isso o salmista suspira: Como suspira a corça pelas correntes das águas, assim, por ti, ó Deus, suspira a minha alma (Salmos 42.1). A alma humana, separada de Deus pelo pecado, só encontra paz com Deus por meio de Jesus Cristo.
     E após termos bebido desse maravilhoso perdão que traz a paz à nossa alma, sem dúvida não ficaremos com esta água da vida para nós. Antes vamos dizer aos outros dessa fonte maravilhosa.
     A ti, Jesus querido, / eu venho agradecido / o meu louvor trazer; / que toda a minha vida / te seja oferecida; / segui-te quero com prazer. (HL 94.7)


37 - Está consumado!

6ª Palavra de Jesus na cruz.
     Quando, pois, Jesus tomou o vinagre, disse: Está consumado! E, inclinando a cabeça, rendeu o espírito (João 19.30).

    Quando jovem Davi enfrentou a Golias somente com sua funda, houve um suspiro nas fileiras dos soldados de Israel (1 Samuel 17). Este suspiro se transformou em júbilo quando o gigante Golias tombou ao chão.
     Igual suspiro e brado de vitória circunda nossos corações ao ouvirmos da boca de nosso substituto, nosso Salvador, as palavras: Está consumado!  Ele não disse o que estava consumado. No momento não adiantaria. Os incrédulos não o aceitam, os fiéis ainda não compreenderiam.
     Com que humildade nosso Salvador anunciou sua vitória. Ele não disse: Eu concluí a grande obra. Ele diz simplesmente: Está consumado! Estava consumada a grande obra da salvação da humanidade; obra planejada por Deus desde e eternidade. Minuciosamente anunciada através de milênios por muitos profetas. Esperado pacientemente por muitos fiéis. Agora, a grande obra estava terminada.
     Estava consumada aquela obra que só o Filho de Deus poderia realizar. Ninguém pode salvar-se a si mesmo. Mesmo se alguém desse todos seus bens aos pobres e deixasse queimar seu corpo (1 Coríntios 13). Tudo seria em vão. O salmista diz: Ao irmão, verdadeiramente, ninguém o pode remir, nem pagar por ele a Deus o seu resgate (Salmos 49.7).
     O apóstolo Paulo esclarece e resume esta obra assim: Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação.  De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus (2 Coríntios 5.19-20). É a palavra mais importante pronunciada na terra. É a pregação do evangelho. O Cordeiro que foi morto e é digno de receber força e glória (Apocalipse 7.10,12).
     Está consumado! Pecado, morte e Satanás foram vencidos. É um profundo consolo para todos os pecadores que arrependidos de seus pecados se volta para Cristo. Nele eles têm perdão, vida e eterna salvação.
    Está consumado! O caminho aos céus está aberto. Deus mesmo o abriu e convida todas as pessoas, dizendo: Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei (Mateus 11.28). Agora, por amor a Cristo, Deus perdoa os pecados, aceita as pessoas de volta em sua comunhão como filhos e herdeiros da vida eterna. O apóstolo Paulo afirma: Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei (Romanos 3.28). E: Pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie (Efésios 2.8-9). Tudo isso Deus nos oferece em sua Palavra e por seus sacramentos. Bem-aventurado aquele que crê.
     Ao mesmo tempo, essas palavras são uma séria advertência: 1. A todos os pecadores para que reconheceram sua culpa e o quanto a reconciliação custou a Deus. 2. Que a justiça própria não salva ninguém. 3. Que somente em Cristo há perdão, vida e eterna salvação. 4. Consolo e força para todos os pecadores. A obra está completa, nada precisa ser acrescentada, somos salvos unicamente pela graça de Cristo, por meio da fé.
     Agora temos salvação / por graça e por bondade. / As obras não nos salvarão, / são vãs na adversidade. / Na fé confiamos em Jesus, / que tudo fez por nós na cruz, / sofrendo em humildade. (HL 373.1)   


38 - Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito!

7ª Palavra de Jesus na cruz.
     Então, Jesus clamou em alta voz: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito! E, dito isto, expirou (Lucas 23.46).

      Estas palavras revelam a glória de Cristo. Sua primeira palavra na cruz foi: Pai...! Sua última palavra é novamente: Pai...! Após tanto sofrimento, ele ainda consegue orar e invocar seu Pai.
    Jesus tinha dito: Ninguém a tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou. Tenho autoridade para a entregar e também para reavê-la. Este mandato recebi de meu Pai (João 10.18). Sim, ele tem poder de entregar sua vida e reavê-la. Ele não faleceu por exaustão de suas forças físicas, apesar dos muitos sofrimentos. Ele era Deus. Ele entregou sua alma por livre vontade nas mãos do Pai. E é preciso lembrar que sua divindade permaneceu unida tanto à sua alma como ao seu corpo, e ele tinha o poder de unir os dois novamente, quando o quisesse. Ele não exclamou essas palavras vendo a morte se aproximar como fazem os cristãos, como Elias o fez ao exclamar: Basta; toma agora, ó SENHOR, a minha alma, pois não sou melhor do que meus pais (1 Reis 19.4).
    Ele o exclamou para mostrar seu poder aos inimigos e consolar os fiéis. Sim, a todos os que nele crêem e têm sua vida oculta em Cristo (Colossenses 3.3).
    Agora não precisamos temer a morte. Ela foi vencida. Cristo a transformou em porta para o céu. O que ele disse ao malfeitor do seu lado vale para todos os fiéis: Hoje estarás comigo no paraíso.
     O grande imperador, Carlos Magno, antes de falecer tomou em suas mãos uma cruz, e a apertou contra seu rosto e peito, então disse: “Pai, nas tuas mãos me entrego”. Após algumas horas ele veio a falecer. O mártir, João Hus, fiel servo de Cristo, que foi acusado pela Igreja Católica como herege e queimado, pouco antes de expirar disse: “Tenho a ordem de entregar minha alma em tuas mãos, meu Salvador Jesus, e assim o faço”, então faleceu. Assim muitos outros mártires procederam e morreram bem-aventurados. Martinho Lutero, pouco antes de falecer orou: “Amado Pai celestial, visto ter que deixar este corpo, sendo arrancado desta vida, sei que estarei para toda a eternidade em tuas mãos, das quais ninguém me poderá arrancar”.
     Assim muitos outros piedosos entregaram sua alma às mãos de Jesus, confiantes em sua graça. Lembramos as palavras de Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mi. (João 14.6). E: Todo aquele que nega o Filho, esse não tem o Pai; aquele que confessa o Filho tem igualmente o Pai (1 João 2.23). Nesta fé queremos partir também.
     Em Cristo irei adormecer / e em suas chagas me esconder; / da culpa me livrou Jesus, / vertendo o sangue sobre a cruz; / confiando nele irei aos céus, / o reino eterno de meu Deus. (HL 522.1)


39 - Verdadeiramente, este homem era justo.

Vendo o centurião o que tinha acontecido, deu glória a Deus, dizendo: Verdadeiramente, este homem era justo.  E todas as multidões reunidas para este espetáculo, vendo o que havia acontecido, retiraram-se a lamentar, batendo nos peito. (Lucas 23.47-48).

     Eram aproximadamente três horas da tarde, quando Jesus entregou o seu espírito e faleceu. Ao falecer aconteceram coisas estupendas. A terra tremeu. Sepulcros se abriram e os mortos saíram e foram vistos em Jerusalém (Mateus 27.51-53). O véu do tempo se rasgou em duas partes de alto abaixo. Uma convulsão da natureza frente ao grande pecado da humanidade. A criatura matou seu Criador. Pecadores perdidos mataram seu Salvador. Ao mesmo tempo cumpriu-se o que Jesus havia disse: E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo (João 12.32).
     Ele salvou toda a humanidade, mas nem todos se deixam atrair a ele. Muitos fariseus continuavam zombando, alguns, mais tarde, se converteram. Ao pé da cruz aconteceram coisas impressionantes. O centurião romano, que comandou toda a crucificação, de repente bate em seu peito e exclama: Verdadeiramente, este homem era justo. O evangelista Mateus dá mais alguns detalhes e escreve: O centurião e os que com ele guardavam a Jesus, vendo o terremoto e tudo o que se passava, ficaram possuídos de grande temor e disseram: Verdadeiramente este era Filho de Deus (Mateus 27.54). Que confissão. Tudo o que presenciou e ouviu ao pé da cruz, teve um forte impacto em sua alma? Ele sabia: Sob meu comando, o Filho de Deus foi morto. Como vou poder comparecer diante de Deus Pai? Mas lemos: Vendo o centurião o que tinha acontecido, deu glória a Deus. Como alguém, com tamanha culpa na consciência, pôde dar glórias a Deus? Não deveria ele ter desesperado diante desse reconhecimento? Eis que ele reconheceu não somente o fato da morte de Cristo, mas também o proveito disso para ele e a humanidade. Jesus morreu para salvar a humanidade, para reconciliá-la com Deus Pai. O centurião, portanto, não só estremeceu diante do fato, mas também creu em Cristo como seu Salvador e isso o levou a dar glórias a Deus.
       O apóstolo escreve: Certamente, a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, poder de Deus (1 Coríntios 1.18). Assim o é até hoje. Pela palavra da cruz o Espírito Santo ilumina, chama e congrega, mas quem obstinada e insistentemente lhe resiste, se perde.
     Devo agradecer-te tanto, / ó Jesus, tamanha dor; / chagas, agonia, pranto, / penas e mortal horror. / Vivo e morro consolado, / por teu sangue perdoado: Grato sou por tanto amor, / meu bendito Redentor! (HL 93.5)


40 - Apressando a morte

     Então, os judeus, para que no sábado não ficassem os corpos na cruz, visto como era a preparação, pois era grande o dia daquele sábado, rogaram a Pilatos que se lhes quebrassem as pernas, e fossem tirados. Os soldados foram e quebraram as pernas ao primeiro e ao outro que com ele tinham sido crucificados; chegando-se, porém, a Jesus, como vissem que já estava morto, não lhe quebraram as pernas. Mas um dos soldados lhe abriu o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água. Aquele que isto viu testificou, sendo verdadeiro o seu testemunho; e ele sabe que diz a verdade, para que também vós creiais. E isto aconteceu para se cumprir a Escritura: Nenhum dos seus ossos será quebrado. E outra vez diz a Escritura: Eles verão aquele a quem traspassara  (João 19.31-37).

     Já era passado das três horas da tarde, talvez até quatro horas da tarde. Em breve, às 18 horas, iniciaria o sábado e desta vez o grande sábado da festa da Páscoa dos judeus. Moisés deu uma lei, que nenhum condenado deveria permanecer no madeiro no sábado (Deuteronômio 21.22ss.). Lembrados disso, os anciãos do povo e sacerdotes enviaram uma delegação a Pilatos, pedindo que a morte dos condenados fosse apressada, para que seus corpos pudessem ser sepultados antes do por do sol. Pilatos logo concordou e enviou alguns soldados para executarem a ordem. Os mesmo foram e quebraram as pernas dos dois malfeitores. Eles tinham seu prazer em judiar os condenados; como hoje ainda muitos se recreiam em filmes de guerra e de crueldades. Uma dor terrível, mas abreviava os sofrimentos. Alguns soldados davam, por fim, uma bordoada no peito para terminar a vida.
     Chegados a Jesus, viram, para sua surpresa, que ele já estava morto. Para se certificar de sua morte, um dos soldados cravou sua lança no lado do peito de Jesus. Dali saiu água e sangue. A decomposição do sangue era prova incontestável de sua morte.
     Jesus tinha exclamado: Está consumado! Então não deveria sofrer novas afrontas. O ferimento da lança, no entanto, serviu para se cumprir a Escritura (Salmo 34.20,21; Êxodo 12.46; Levítico 9.12) Vemos nisso a poderosa mão de Deus. Ele governa sobre tudo, também sobre seus inimigos, para dizer: Até aqui e não mais adiante. Jesus tinha dito a seus discípulos: Eis que subimos para Jerusalém, e vai cumprir-se ali tudo quanto está escrito por intermédio dos profetas, no tocante ao Filho do Homem (Lucas 18.31 RA). E como predisse, assim aconteceu. Por isso o apóstolo João pôde escrever: Nenhum dos seus ossos será quebrado. E outra vez diz a Escritura: Eles verão aquele a quem traspassaram (v. 36, 37; Zacarias 12.10; Apocalipse 1.7)
     Do seu lado brotou água e sangue. Prova de sua morte. Por outro, o testemunho do grande sacrifício. Por isso o apóstolo João pôde escrever: O sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado (1 João 1.7). Água e sangue representam também os dois grandes sacramentos: batismo e a santa ceia. Por isso o apóstolo João escreve: E três são os que testificam na terra: o Espírito, a água e o sangue, e os três são unânimes num só propósito (1 Jo 5.8).
     Ordena aos anjos, ó Senhor, / que levem, quando eu morto for, / minha alma ao paraíso. / Na tumba aguarda o corpo meu / a tua vinda lá do céu / no dia do juízo. / Desperta-me da morte então, / que os olhos meus se alegrarão / ao ver-te, ó Filho de Deus Pai, / ó Redentor, que ao céu me atrai. / Ó Salvador, / vem me atender, vem me atender; eu sempre te hei de bendizer. (HL 435.3)


41 - Ali, pois,... depositaram o corpo de Jesus

     Depois disto, José de Arimatéia, que era discípulo de Jesus, ainda que ocultamente pelo receio que tinha dos judeus, rogou a Pilatos lhe permitisse tirar o corpo de Jesus. Pilatos lho permitiu. Então, foi José de Arimatéia e retirou o corpo de Jesus.  E também Nicodemos, aquele que anteriormente viera ter com Jesus à noite, foi, levando cerca de cem libras de um composto de mirra e aloés.  Tomaram, pois, o corpo de Jesus e o envolveram em lençóis com os aromas, como é de uso entre os judeus na preparação para o sepulcro.  No lugar onde Jesus fora crucificado, havia um jardim, e neste, um sepulcro novo, no qual ninguém tinha sido ainda posto.  Ali, pois, por causa da preparação dos judeus e por estar perto o túmulo, depositaram o corpo de Jesus (João 19.38-42).

     Tendo Jesus falecido e os soldados atestado sua morte, José de Arimatéia foi a Pilatos e pediu autorização para tirar o corpo de Jesus da cruz, a fim de o sepultar com dignidade. Os romanos permitiam que familiares ou amigos pudessem sepultar com dignidade, mesmos malfeitores. Se não houvesse interessado, iriam para uma vala comum. Por isso, José de Arimatéia recebeu de Pilatos a licença para tanto.
     O sepultamento tem um alto significado tanto para Jesus como para todos nós. O corpo de Jesus foi depositar numa sepultura nova, de José de Arimatéia. O ser deitado na sepultura foi o último degrau na humilhação de Jesus. O Filho de Deus, o Verbo, o Criador e Mantenedor de todas as coisas, a luz do mundo, sepultado numa gruta escura, lavrado numa rocha. Esta humilhação é indescritível para o Príncipe e autor da vida (João 5.26). Ele, que já na vida não tinha onde reclinar sua cabeça (Mateus 8.20), também na morte não tem um lugar que pudesse denominar de seu. Ele se fez pobre para nos enriquecer (2 Coríntios 8.9).
     Ao contemplarmos sua morte, precisamos fazê-lo à luz da Escritura, e notaremos o conforto e a esperança que dela nos brotam.
     Nós nos alegramos que José de Arimatéia, um homem rico e honrado, membro do Sinédrio, que esperava o reino de Deus. Ele concedeu sua sepultura a Jesus, para o descaso e não se importou com o que diriam seus colegas, que sentenciaram a Jesus. Não se importou se isto lhe trará desprezo e zombarias. Ele confessou sua fé. Diz o evangelista Marcos: Ele se encheu de coragem (Marcos 15.43) para pedir o corpo a Pilatos. Conseguida a ordem, volta ao Gólgota para retirar o corpo. Ali se encontrou com Nicodemos (João 3), seu colega no Sinédrio, que veio para ajudar. Ele trouxe também mirra e aloés (João 19.39). Eles enrolaram o copo num lençol branco de linha e o depositaram no túmulo, lavrado numa rocha, no qual ainda ninguém tinha sido sepultado. Estavam ali também Maria Madalena a e Maria mãe de José (Marcos 15.47). O profeta Isaías declarou: Designaram-lhe a sepultura com os perversos, mas com o rico esteve na sua morte, posto que nunca fez injustiça, nem dolo algum se achou em sua boca (Isaías 53.9). Assim se cumpriu a Escritura (1 Coríntios 15.4).
     Rolaram uma grande pedra para fechar a sepultura. Não havia flores, nem cantos, nem uma prédica. Nos corações das pouco as pessoas ali presentes, no entanto, havia profundo amor, tristeza, bem como gratidão por tudo o que Jesus fez. Mesmo que tudo isso ainda estava envolto em muitas perguntas e incertezas, mas a centelha da fé, como uma pequena brasa acessa, estava em seus corações.
     Precisamos lembrar ainda o significado do seu sepultamento para nós. Talvez José de Arimatéia e Nicodemos gostariam ter sepultado Jesus em outro lugar, em Betânia, Belém, ou até em Nazaré. A brevidade do tempo, no entanto, não o permitiu, pois em mais ou menos duas horas iniciava o grande sábado e tudo deveria estar pronto. Assim Deus o quis, que o lugar de onde brotaria a vida, por sua ressurreição, devesse estar bem perto do lugar de sua paixão e morte.
    E mais um detalhe. Deus queria que ele fosse sepultado num jardim. Jardins tiveram destaque na obra da salvação. No jardim do Édem, Adão e Eva caíram em pecado e lá Deus lhes prometera salvação. No jardim do Getsêmani Jesus iniciou sua amarga caminhada para a cruz. Agora é sepultado num jardim, para ali ressuscitar e triunfar sobre todos seus inimigos.
    Mas aqui está também uma advertência. Jesus não nos libertou somente da dívida, mas do poder do pecado e da escravidão de Satanás. Por isso o apóstolo Paulo escreve: Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida (Romanos 6.4). Fomos sepultados com Cristo. Recebemos esta bênção pelo batismo e a retemos enquanto estivermos na fé. Isto nos leva a uma luta diária de nosso novo homem (a fé) contra as inclinações de nossa carne pecaminosa, o velho homem. Confessamos “que o velho homem em nós, por contrição e arrependimento diários, deve ser afogado e morrer com todos os pecados e maus desejos, e, por sua vez, sair e ressurgir diariamente novo homem, que vive em justiça e pureza diante de Deus eternamente” (Cat. Menor Batismo, 4ª parte).
     Deus na cruz é meu amado. / Quando enfim a morte vem / e eu em pó for transformado, / chama, ó Cristo, a mim também / para a glória me levar, / junto a ti no terno lar. / Deus na cruz é meu amado, / pois na fé sou confirmado. (HL 82.6)

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42 – Encarando os sofrimentos corretamente

     Pois o amor de Cristo nos constrange, julgando nós isto: um morreu por todos; logo, todos morreram.  E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou (2 Coríntios 5.14-15).

     Estamos na Semana Santa. Muitas pessoas contemplar a cruz de Cristo e meditam sobre os acontecimentos da paixão de Cristo. Nossa razão levanta perguntas e questiona os acontecimentos. O apóstolo Paulo afirma: Pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios (1 Co 1.23). Impressionante, os judeus, homens religiosos, conhecedores do Antigo Testamento e das profecias, contestaram as palavras de Jesus e se escandalizaram com a obra da salvação que Deus preparou em Cristo para a humanidade. Os gentios, por sua vez, julgam a mensagem do evangelho, que proclama a salvação de Deus por meio de Jesus, loucura.
     Assim ainda hoje, muitos olham para a história da paixão, simplesmente, com sua razão e exclamam: Que crueldade! Que injustiça! Outros julgam e tentam por seus jejuns, penitências, o carregar de cruzes, ou até deixando-se amarrar ou pregar numa cruz, onde ficam por horas, julgando poderem conquistar o favor de Deus.
     Importante, no entanto, é suplicar a Deus Espírito Santo para que o mesmo nos guie, pela meditação na palavra de Deus, à correta compreensão do que aconteceu ali na cruz. E, assim, em arrependimento e fé termos o proveito deste incompreensível mistério do amor de Deus em Cristo, no qual temos verdadeira paz e a esperança da vida eterna.

Santidade, Justiça e Amor  
     Ouvimos e gostamos de ouvir, que Deus é amor! Não podemos, no entanto, esquecer que Deus também é santo e justo. Uma coisa não anula a outra. Como santo e justo Deus afirma: Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no Livro da lei, para praticá-las (Gálatas 3.10). Deus não pode ter comunhão com o pecador. Ele afirmou: Homem nenhum verá a minha face e viverá (Êxodo 33.20).
     Agora precisamos olhar para nós. Quem somos diante da face de Deus? Por mais sábios e honrados que sejamos, quando nos defrontamos com o santo e justo Deus e sua lei nos iluminar, temos que reconhecer e confessar: Somos míseros pecadores, réus da eterna condenação. Deus diz: Não há justo, nem um sequer (Romanos 3.10). Mesmo como cristão somos ainda pecadores. Nossas melhoras obras estão manchadas de pecados. O apóstolo Paulo afirma: Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo (Romanos 7.18). Isto significa que sobre nós paira o juízo e a maldição de Deus. Não temos forças para nos purificar e reconciliar com Deus. Deus disse pelo salmista: Ao irmão, verdadeiramente, ninguém o pode remir, nem pagar por ele a Deus o seu resgate (Salmos 49.7).

A salvação em Cristo
    Que solução o amor de Deus encontrou para salvar a humanidade? Em seu grande amor, Deus resolveu, já na eternidade, salvar a humanidade. Como? A lei tinha que ser cumprida, nossa culpa tinha que ser paga e nossos inimigos: pecado, morte e Satanás tinham que ser vencidos. Eis que o próprio Filho de Deus, Jesus Cristo, se dispôs a fazê-lo. Deus o anunciou, a pós a queda, a Adão e Eva e ao longo de quatro mil anos pela boca de muitos profetas. Até que: Vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei (Gálatas 4.4). O apóstolo Paulo escreve: Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação (2 Coríntios 5.19). Na cruz o Filho de Deus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem morreu pela humanidade. Se ali, tivesse morrido simplesmente um homem, não teríamos perdão e paz com Deus. Mas ali morreu o Filho de Deus. Ele reconciliou toda a humanidade com Deus. Ninguém pode dizer: Mas para mim não há salvação, ou meus pecados são grandes demais para serem perdoados. Em Cristo há salvação e vida eterna para todos. Pois Deus amou o mundo de tal maneira, que deu seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna (João 3.16). Por isso a cristandade confessa com Lutero na explicação do Credo Apostólico: Creio que Jesus Cristo, verdadeiro Deus, gerado do Pai desde a eternidade, e também verdadeiro homem, nascido da virgem Maria, é meu Senhor. Pois me remiu a mim, homem perdido e condenado, me resgatou, e salvou de todos os pecados, da morte e do poder do diabo; não com ouro ou prata, mas com seu santo e precioso sangue e sua inocente paixão e porte,m para que eu lhe pertença e viva submisso a ele, em seu reino e o sirva em eterna justiça, inocência e bem-aventurança, assim como ele ressuscitou da morte, vive e reina eternamente. Isto é certamente verdade.

Arrependimento e fé
     Assim, ao nos colocarmos em espírito ao pé da cruz, reconhecemos, em primeiro lugar, a ira de Deus que pesa sobre os pecadores. Por isso Jesus disse às mulheres: Filhas de Jerusalém, não choreis por mim; chorai, antes, por vós mesmas e por vossos filhos!... Porque, se em lenho verde fazem isto, que será no lenho seco? (Lucas 23.31) Lenho seco somos nós pecadores que merecemos ser lançados no fogo eterno. Lenho verde é Jesus que não tem pecado, que carregou pecados alheios. Se a ira de Deus não poupou seu próprio filho (Rm 8.23), o que será de nós? Bem diz o poeta sacro: Eu, eu e meu pecado / havemos motivado / a tua grande dor, / os murros violentos, / mil outros sofrimentos, / que te enchem a alma de pavor. – Meu Fiador celeste, / na cruz teu sangue deste / por minha transgressão. / Por mim és desprezado, / de espinhos coroado, / paciente foste na aflição (HL 94.3,4).
     Jesus, como substituto de toda a humanidade cumpriu perfeitamente a lei de Deus em meu e teu lugar. Por seu sofrer, ele pagou a nossa dívida junto ao Pai celestial. Por sua ressurreição, ele triunfou sobre nossos inimigos, pecado, morte e Satanás. E mandou anunciar isto à humanidade. (Ele) nos confiou a palavra da reconciliação. De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus (2 Coríntios 5.19, 20)
     Em profundo arrependimento (tristeza por termos causado tanto sofrimento ao Filho de Deus, Jesus Cristo), e confiantes em seu perdão, suplicamos: Tem compaixão de mim! Ao mesmo tempo jubilamos, cantando: Grato sou por tanto amor, meu bendito Salvador. (HL 93).

Filhos de Deus pela fé
     Jesus não nos conquistou simplesmente o perdão, ele nos reconciliou com Deus Pai e nos adquiriu o status de filhos e herdeiros do céu. Ele nos deu vida nova. Pois onde há perdão dos pecados, há também vida e eterna salvação.
     Isto nos é dado por ocasião do batismo. O apóstolo afirma: O qual foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou por causa da nossa justificação (Romanos 4.25). Pela fé nos apegamos à graça de Cristo dada a nós por sua Palavra e seus sacramentos. Porque pela graça sois salvos, mediante a fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie (Efésios 2.8,9).

A nova vida em Cristo
     Somos, pela fé na graça de Cristo e enquanto na fé,  novas criaturas. Pelo batismo fomos colocados em sua morte e participamos de sua ressurreição. Recebemos vida nova. Temos esta vida nova em vasos de barro, em nossa natureza carnal, de onde brotam, diária e abundantemente, maus desejos e pensamentos. Vivemos num mundo em trevas que procura seduzir-nos de volta à antiga escravidão do pecado. Importa lutarmos diariamente contra as inclinações de nossa natureza carnal e as tentações do mundo, e andar em novidade de vida. O Apóstolo afirma: Ou, porventura, ignorais que todos nós que fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte?  Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida.  Porque, se fomos unidos com ele na semelhança da sua morte, certamente, o seremos também na semelhança da sua ressurreição, sabendo isto: que foi crucificado com ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos o pecado como escravos; porquanto quem morreu está justificado do pecado.  Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos, sabedores de que, havendo Cristo ressuscitado dentre os mortos, já não morre; a morte já não tem domínio sobre ele.  Pois, quanto a ter morrido, de uma vez para sempre morreu para o pecado; mas, quanto a viver, vive para Deus.  Assim também vós, considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus.  Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, de maneira que obedeçais às suas paixões; nem ofereçais cada um os membros do seu corpo ao pecado, como instrumentos de iniqüidade; mas oferecei-vos a Deus, como ressurretos dentre os mortos, e os vossos membros, a Deus, como instrumentos de justiça.  Porque o pecado não terá domínio sobre vós; pois não estais debaixo da lei, e sim da graça (Romanos 6.3-14).
     Que a Semana Santa, pelo meditar na palavra de Deus, contemplando a paixão de Cristo, nos conduza a verdadeiro arrependimento, nos fortaleça na fé na graça de Cristo e nos reerga para uma vida no Espírito. Amém

                                                                    São  Leopoldo, revisado, 04/02/2015
                                                                               Horst R. Kuchenbecker




[1] Citações bíblicas da Almeida Revista e Atualizada (RA) da Sociedade Bíblica do Brasil. 2008.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Natal  2013
É Natal! A grande festa da alegria por Deus ter enviado seu Filho unigênito, nosso único e suficiente Salvador. Podemos cantar: Deus tem amado o mundo inteiro, Deus tem amado, também a mim.
    Nos campos de Belém da Judéia anjos aparecem repentinamente, no escuro da noite aos pastores e lhes proclamam a mensagem: Não temais; eis aqui vos trago boa-nova de grande alegria, que o será para todo o povo: é que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor.  E isto vos servirá de sinal: encontrareis uma criança envolta em faixas e deitada em manjedoura. (Lucas 2.10-12 RA) Que mensagem!
Não temais! O mundo, em todos os seus cantos, quer em choupanas quer em palácios, está cheio de medo e pavor. Sim, toda a criação a um só tempo teme e suporta angústias até agora. (Rm 8.22) Quando Jesus falou dos tempos finais, seus discípulos perguntaram: Que sinal haverá de quando estas coisas estiverem para se cumprir? (Lc 21.7) Jesus respondeu: Haverá sinais no sol, na luz e nas estrelas, sobre a terra angústia... Haverá homens que desmaiarão de terror e pela expectativa das coisas que sobrevirão ao mundo; pois os poderes dos céus serão abalados. (Lucas 21.26 RA) A este mundo cheio de terror, angústias e pavor, os anjos anunciaram e sua mensagem nos vale ainda hoje: Não temais!

Eis aqui vos trago boa-nova!O mundo (também nós como cristãos, estamos sempre inclinados a resvalar e pensar como o mundo) anseia por “boas novas”. As pessoas as buscam na Internet, na TV, no rádio em jornais, mas não a encontram. Em seu amor Deus continua a anunciar e oferecê-la por Palavra e Sacramentos. Mas, o ser humano considera a Palavra de Deus “loucura”. (1 Co 1.23) Jesus disse: Bem-aventurado é aquele que não achar em mim motivo de tropeço. (Lc 7.23 RA)

É que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor!Um Salvador. O mundo procura salvadores. Firmas diante da falência procuram salvadores; bancos arruinados procuram salvadores. Políticos procuram salvadores em ideologias e líderes. Até religiões e religiosos procuram por salvadores com orações poderosas. Que salvadores estão procurando? Salvadores que lhes proporcionem esperanças materiais, saúde, prazeres, dias felizes. Tudo isso os cega diante do Salvador que Deus enviou o qual disse: O meu reino não é deste mundo. (Jo 18.36) A minha paz vos dou, não vo-la dou como a dá o mundo. (Jo 14.27) Arrependei-vos e crede no evangelho (Mc 1.15), a boa nova do perdão, da reconciliação com Deus, da esperança da vida eterna.   

Boa nova...  que o será para todo o povo. Para todos, crianças, jovens, homens e mulheres e idosos; pessoas no vigor da vida, pessoas enfermas e as que estão diante da morte; patrões e empregados, senhores e escravos, para todos. Jesus Cristo, o Filho de Deus que veio ao mundo é nosso único e suficiente Salvador, que nos reconciliou com Deus Pai, que venceu nossos inimigos: pecado, morte e Satanás, que trouxe perdão, vida e salvação e oferece a salvação em sua Palavra, o Evangelho. E todo aquele que crê, tem o que as palavras lhe dizem e oferecem: perdão, vida e eterna salvação.

E isto vos servirá de sinal. – Encontrareis uma criança envolta em faixas (panos) e deitada em manjedoura (coheira). Que sinal! O Salvador, o Filho de Deus, uma criança de pais pobres, deitado numa cocheira. Será possível! Inacreditável.
 Encontrareis... deitado em manjedoura, numa estrebaria. Ali todos podem encontrá-lo. Não há muros, nem portas trancadas, nem guardas. Aberto para todos, ricos ou pobres, adultos e crianças. O apóstolo Paulo afirma: Vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar os que estavam sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos... e sendo filhos, também herdeiros por Deus. (Gl 4.4-7)
     Para o homem natural, a história do Natal é loucura e escândalo, mas para nós que cremos é poder de Deus para a salvação; visto que a justiça de Deus se revela no evangelho de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé. (Rm 1.17,17) Jesus disse: Bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a guardam. (Lc 11.28)
    É necessário que em cada Natal – sim, cada dia – o Espírito Santo nos chame pelo evangelho, ilumine com seus dons, santifique e conserve na verdadeira fé. (3° Artigo do Credo Apostólico) Também neste Natal queremos nos ajoelhar diante de Jesus e entoar com os anjos: Glórias a Deus nas maiores alturas, e paz na terra aos homens a quem ele quer bem. (Lc 2.14) Abençoado Natal.       
     Ursula e Horst Kuchenbecker                









V - A todos os homens. -  Jesus salvou a quem? A todos. Não há ninguém que possa dizer: A mim Jesus não salvou! Talvez você dirá: Mas eu não sinto nada. É verdade! A graça não apareceu em nossos corações. Ela está fora de nós. Ela se manifestou na manjedoura em Belém. Mas não precisamos procurá-la muito. Deus no-la oferece em sua Palavra, a Bíblia. Nesta boa notícia do perdão podemos confiar plenamente. Jesus vem a nós por meio de sua palavra. E assim, a fé vem pela pregação e a pregação pela palavra de Cristo. (Romanos 10.17) Para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. (João 3.16)
     Tendo ouvido a boa notícia, os pastores foram apressadamente para ver a salvação que Deus  preparou, adoraram e voltaram louvando a Deus. Hoje nossa manjedoura é a palavra de Deus. Confiantes nela, adoramos a Jesus, nosso Salvador, louvamos sua graça e a proclamamos ao mundo. Dizemos com o poeta sacro: Cante o povo resgatado/ glória a Deus, Senhor da paz,/ pois, em Cristo revelado,/ vida e luz ao mundo traz./ Nasce, a fim de renascermos,/ vive, para revivermos,/ Rei, Profeta e Salvador!/ Louvem todos o Senhor! - Toda a terra e os altos céus/ cantem sempre glória a Deus. (Hinário Luterano 25.3)                           Horst R. Kuchenbecker









Desejamos um feliz Natal
e abençoado Ano 2014


CINCO  MINUTOS  COM  JESUS
Rádio ABC 900 – Novo Hamburgo
Domingos, das 7h às 8h
Rádio Feitoria FM 87.9 Diariamente, às 11h55








Convite
Se você deseja saber mais sobre o maravilhoso amor de Deus em Cristo, você é bem-vindo com seus familiares aos nossos cultos:

Comunidade Ev. Lut. “Martinho Lutero”
Rua Guido José Daudt, 193  Feitoria
Sábados: 1° e 3°, às 19h
  Domingos: 2° e 4°, às 9h  

Comunidade Ev. Lut. “Cristo Redentor”
Rua Santa Rosa esp. Viamão
Vila Santa Tereza
Sábados: 2° e 4°, às 19h
  Domingos: 1° e 3°, às 9h

Tel.: 3588-6506





















GLÓRIAS  A  DEUS 
NAS  MAIORES  ALTURAS



            Natal, festa de alegria, de paz e de amor. Qual a razão para tanta alegria? A razão é o menino Jesus, nascido em Belém da Judéia! Por que o nascimento do menino Jesus, há quase 2000 anos atrás, é motivo para tanto júbilo? Aparentemente, o nascimento do menino Jesus, numa humilde estrebaria em Belém da Judéia , não tinha nada de extraordinário. Mas nos campos de Belém, anjos apareceram aos pastores e anunciaram: Não temais: eis aqui vos trago boa nova de grande alegria, que o será para todo o povo: é que hoje vos nasceu na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo o Senhor. E isto vos servirá de sinal: encontrareis uma criança envolta em faixas e deitada em manjedoura, e subitamente apareceu com o anjo uma multidão da milícia celestial louvando a Deus e dizendo: Glórias a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem. (Lucas 2.10-14) A esse respeito, o apóstolo Paulo escreve em sua carta a Tito: Portanto, a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens. (Tito 2.11) Eis o grande mistério do amor de Deus que anjos louvam, que nenhuma língua é capaz de expressar o suficiente, que foge à nossa compreensão, que só podemos receber pela fé. Esta é a mensagem consoladora que faz jovens e idosos, sábios e analfabetos, pessoas no auge de sua vida e aqueles que estão diante da morte, jubilar e entoar com os anjos o Glórias a Deus nas maiores alturas, pelo perdão, pela paz e pela esperança da vida eterna. Vamos contemplar esta maravilhosa mensagem um pouco mais de perto.

I - A graça de Deus se manifestou - O que Deus manifestou? Sua justiça? Não! Sua justiça ele manifestou no monte Sinai. Ali Deus entregou ao povo de Israel sua santa lei, os Dez Mandamentos. (Êxodo 20.18,19) O texto também não diz: Deus manifestou simplesmente seu amor. Isto seria uma mensagem muito bonita, porém, o simples amor de Deus, não nos ajudaria, visto que a justiça de Deus requer a punição do pecador. Por isso, apóstolo Paulo afirma: A graça de Deus se manifestou.

II - Como esta graça se manifestou? - Ela se manifestou em Cristo Jesus. Quem é Jesus Cristo? Muitos falam de Jesus Cristo como de um homem que nos deu grande exemplo de vida, de humildade, de paciência e de luta. É verdade. Mas não é somente isto. Jesus é mais do que um simples homem. Ele é o verdadeiro filho de Deus, gerado do Pai desde a eternidade, e também verdadeiro homem, nascido da virgem Maria, na humilde estrebaria de Belém. Em segundo lugar, ele não veio simplesmente para nos dar um exemplo de vida, mas para salvar o que estava perdido, a humanidade. 

III - A graça de Deus se manifestou salvadora. - Jesus veio para salvar a humanidade. Deus Pai, por mais amor que nos tenha, é um Deus justo e não pode anular a sua lei. A lei exige, ameaça e condena. Diante disso, Deus, em amor, enviou seu Filho que se tornou nosso irmão na carne e, como substituto de toda a humanidade, foi colocado sob a lei. O apóstolo Paulo escreve: Vindo, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar os que estavam sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos. (Gálatas 4.4) Jesus afirmou a Nicodemos: Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele. Quem nele crê não é julgado. (João 3.17,18) E o apóstolo Paulo escreve: Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação. (2 Coríntios 5.19-21) E aos efésios o apóstolo Paulo escreveu: Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie. (Ef 2.8-10) Daí a grande alegria de Natal. Hoje vos nasceu o Salvador!

IV – Jesus nos salvou de que? - Que salvação é esta, perguntam muitos. O mundo vai de mal a pior. Onde está a paz na terra, da qual os anjos falaram? De que Cristo nos salvou?
    Cristo não veio para reformar o mundo, nem promover uma revolução social, curar todos os enfermos e proporcionar aos homens mais felicidade na terra. Pelo contrário, ele disse a seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. (Mateus 16.24) Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem e vos perseguirem e, mentindo, disserem todo mal contra vós. Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que vieram antes de vós. (Mateus 5.11,12) E o apóstolo Paulo consola as congregações, mostrando que, através de muitas tribulações, nos importa entrar no reino de Deus. (Atos 14.22)
     Então, de que Jesus nos salvou? Ele nos salvou do pecado, da morte e do poder de Satanás. Do pecado, isto é: Cristo me livrou da dívida, do castigo e do domínio do pecado. Carregou ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro os nossos pecados, para que nós, mortos aos pecados, vivamos para a justiça; por suas chagas fostes sarados. (Gálatas 3.13) Da morte, isto é: Não preciso temer a morte temporal, porque a morte eterna não tem mais poder sobre mim. Nosso Salvador Cristo Jesus não só destruiu a morte, como trouxe à luz a vida e a imortalidade. (2 Timóteo 1.10). Do poder de Satanás, isto é: Cristo venceu o diabo, de modo que este não me pode acusar mais e eu agora posso resistir vitoriosamente à suas tentações. Para isto se manifestou o Filho de Deus, para destruir as obras do diabo. (1 João 3.8)














COROA  DE  ADVENTO



       Os quatro domingos antes de Natal, a cristandade chama de Advento. Esse período é tempo de júbilo e de alegria para a cristandade. A razão do júbilo é Cristo. Pois  advento significa vinda, chegada. Os quatro domingos de Advento  lembram os quatro mil anos nos quais o povo de Deus esperou pelo nascimento do Salvador Jesus. A primeira promessa da vinda de um salvador foi dada por Deus a Adão e Eva, logo após a queda destes em pecado. (Gn 3.15) A promessa foi repetida muitas vezes e de diversas formas aos patriarcas e profetas (Hb 1.1-3). Desde Adão e Eva, muitos fiéis esperaram ansiosamente pelo cumprimento desta promessa de Deus, até que finalmente, o tempo se cumpriu (Gl 4.4), e o Salvador Jesus nasceu em Belém da Judéia (Lc 2.4-7).
     Hoje, olhamos para trás e observamos como o povo de Deus do passado, aguardou a vinda de Jesus. Eles meditavam nas misteriosas profecias, buscando nelas consolo, orientação e forças para a caminhada esperançosa. Deles queremos aprender a confiar na palavra de Deus, a lutar e esperar, pois também nós  vivemos ainda em tempo de espera. (Rm 11-14) Esperamos a segunda vinda de Cristo. Em breve Jesus virá,  não mais humilde, mas em grande glória, com todos os santos anjos, para julgar vivos e mortos (At l1.11;17.31). Então criará novo céu e nova terra (Ap 21.1), para habitar com os fiéis eternamente.
     No tempo de advento, muitas  igrejas estão enfeitadas com coroas de advento. Este símbolo ainda não tem muita história na igreja cristã. Ele se firmou como símbolo de Advento na Europa, após a primeira guerra mundial. Sua simbologia é muito significativa. Vejamos.
     
A COROA

     A coroa  simboliza vitória e poder. Coroas são usadas para festejar vitórias. Soldados e atletas vencedores são homenageados com coroas. Os cristãos passaram a usar coroas também em seus atos fúnebres, para declarar: Nossos irmãos falecidos na fé na graça de Cristo são vencedores. Eles estão agora com Cristo, como qual voltarão no dia do Juízo Final. Assim os fiéis expressaram sua esperança e certeza da ressurreição e a volta de Cristo em glória..
     A coroa de Advento quer anunciar a vitória de Cristo sobre: pecado, morte e Satanás. Seus ramos verdes falam da nova esperança, da vida e da alegria que enche os corações dos fiéis.
     A fita vermelha, que circunda a coraoa de Advento, simboliza o sangue de Cristo que nos purifica de todos os pecados (1 Jo 1.7). Esta fita envolve a coroa, assim como o sangue de Cristo envolve toda a vida cristã e dá certeza do perdão, concede paz e firma na esperança da vida eterna. 
     A coroa de advento tem um formato de círculo. Ela forma um anel. Um anel que  lembra a aliança de amor. A aliança, na qual entramos pelo batismo, que envolve os que nela participam, pela fé na graça de Cristo. A coroa de Advento fala do amor de Deus em Cristo, da nova aliança de amor com aqueles que nele crêem. Este amor penetra os corações e nos faz renascer. Pela fé em Cristo, somos novas criaturas. Isto se revela  no dia a dia e perpassa a vida familiar, profissional, social, nossas alegrias e tristezas, a tal ponto que também a coroa de espinhos, que Jesus carregou e pela qual santificou os nossos sofrimentos, adquire gosto de vitória. Sabemos "que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que temem e amam a Deus" (Rm 8.28).

AS  VELAS

     A coroa de Advento é enfeitada com quatro velas vermelhas, e algumas coroas têm ainda, no centro, uma vela branca. As quatro velas  lembram os quatro mil anos em que o povo de Deus esperou pelo nascimento do Salvador Jesus. Cada vela simboliza um conteúdo bem específico. Jesus é a luz do mundo. Ele veio para libertar. Ele veio para estabelecer a paz entre Deus e a humanidade. Ele voltará em glória para julgar vivos o mortos. Isto nos enche de alegria e esperança.

1a. VELA

     A primeira vela é acesa no primeiro domingo de Advento e nos anuncia que Jesus é o verdadeiro Filho de Deus, a luz do mundo, nosso Salvador, conforme a promessa dada a Adão e Eva: Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar. (Gn 3.15) O que dizem estas palavras? Adão e Eva pecaram. O pecado os separou de Deus e os tornou réus da eterna condenação. Eram, agora, escravos do pecado, da morte e de Satanás. Tudo estava perdido. Não podiam libertar-se. Trêmulos estavam diante de Deus, esperando dele a sentença condenatória. Mas quando Deus começou a falar, que surpresa. Deus se colocou ao lado deles e disse: Vou salvar a vocês. A guerra que vocês perderam eu vou continuar em vosso lugar e vou vos salvar pelo descendente da mulher que é Jesus, o próprio Filho de Deus. Jesus esmagará a cabeça da serpente, que é Satanás, e trará à humanidade plena e completa salvação. E todo aquele que confiar nesta promessa, nesta salvação que Deus prometeu, será salvo. Que maravilha. Ao longo da história, Deus foi explicando esta salvação e iluminando esta tão preciosa promessa com detalhes. Confira  em sua Bíblia algumas das promessas:   Gn 9.13,27; Gn 12.1-3; Gn 49.10; Dt 18.15; 2 Sm 7.11-16; Is 4.2-4; Mq 4.1-4; Jr 30.21,22; Zc 9.9; Jr 23.5,6; Ez 34.23,24; Jr 28.16; Zc 6.l2,13).
     Finalmente, vindo a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a leio, para resgatar os que estvam debaixo da lei, a fim de que recebéssemos a adoção de filhos. (Gl 4.4)  O Verbo (Jesus) se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade,  e vimos sua glória, glória como do unigênito de Pai. (Jo 1.14) Quando Jesus veio, em profunda pobreza e humildade, a grande maioria, infelizmente,  não o reconheceu. Não o reconheceram, porque não deram a devida atenção às profecias. Sonhavam com um libertador dos sofrimentos terrenos. Quando após três anos de ministério, e especialmente, por causa da ressurreição de Lázaro, o povo humilde de Jerusalém  recebeu a Jesus cantando: Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas maiores alturas! (Mt 21.9), isto foi uma provocação aos líderes da igraja daquele tempo . Os sdacerdotes e fariseus, trataram  de iliminar a Jesus. O próprio povo, vendo-se frustrados em suas esperanças materiais, eles levantaram seus punhos contra Jesus e gritaram: Crucifica-o, crucifica-o! Não queremos que este reine sobre nós! (Mc 15.13; Lc 19.14). O evangelista João, escreve no seu evangelho: Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam. (Jo 1.11) Hoje,  não somos  melhores do que o povo no tempo de Jesus. Mesmo tendo diante de nós as profecias cumpridas,  questionamos a palavra de Deus e duvidamos do amor de Deus para com a humanidade. Quantas vezes  nos afastamos dos  caminhos de Deus e não queremos que Jesus governe sobre nós? Precisamos reconhecer nossa incredulidade e nos arrepender. Suplicar a Jesus por perdão, apegar-nos e confiar em sua promessa de perdão. E então, como filhos de Deus pela fé na graça de Cristo, renunciar ao diabo e ser fiel a Cristo na fé, nas palavras e nas obras até ao fim.  
     Que consolo! Jesus veio salvar a humanidade e livrá-la do pecado, da morte e do poder de Satanás. E todos os que confiam em sua palavra têm o que as palavras lhe oferecem, dão e selam: perdão dos pecados, vida e eterna salvação. O que crê, recebe a adoção de filho de Deus e herdeiro da vida eterna. Ao acendermos a vela  de Advento em nossos lares ou no altar de nossa Igreja e ao contemplarmos a vela acesa, queremos renunciar o diabo, entregar-nos a Deus e pedir que ele nos firme nesta fé, para lhe sermos fiéis até ao fim.  



2a. VELA

     A segunda vela é acesa no segundo domingo de Advento. Ela nos lembra a grande libertação que Jesus  trouxe. Jesus veio para  libertar. Ele disse aos judeus: Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos; e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará. (Jo 8.32). Os judeus responderam a Jesus, como muitos hoje: Jamais fomos escravos de alguém (Jo 8.33), e não se aperceberam o quanto eles eram escravos do pecado, da morte e de Satanás;  sendo incapazes de libertarem-se por próprias forças, e de que precisavam de um salvador. Verdadeiramente sereis livres, disse Jesus. Esta libertação é a libertação de nossos verdadeiros inimigos. O inimigo número um está dentro de nós, e é o pecado original, a nossa natureza egoísta e corrompida pelo pecado, inclinada para todo o mal e sujeita à condenação. (Ef 2.3). Cristo nos libertou da dívida, do castigo e do domínio do pecado.
     O inimigo número dois é a morte. A morte não é algo natural, mas um intromissor. Deus disse: O salário do pecado é a morte. (Rm 6.23) Jesus venceu a morte. Ele disse: Eu sou ressurreição e a vida. Quem crer em mim, ainda que morra, viverá. (Jo 11.25) Cristo nos libertou do poder da morte. Não preciso mais temer a morte corporal, porque a morte eterna não tem mais poder sobre nós.
     O terceiro inimigo é  Satanás. Cristo veio para destruir as obras do maligno. (1 Jo 3.8). Jesus venceu o diabo e nos trouxe  perfeita libertação. Cristo nos libertou do poder de Satanás. Ele não pode mais nos acusar diante do trono de Deus e nos podemos resistir-lhe vitoriosamente. Esta vitória de Cristo, esta libertação nos é oferecida pela palavra de Deus e os sacramentos, batismo e Santa Ceia. Por estes meios, o Espírito Santo abre nossos olhos para a realidade e nos conduz ao arrependimento. Por estes meios, ele nos leva ao reconhecimento de que Jesus é o verdadeiro filho de Deus, nosso irmão na carne, que nos salvou e nos leva a confiar na graça de Cristo. Por esta fé, a salvação de Cristo se torna nossa, somos libertados e feitos filhos de Deus, membros do seu reino e herdeiros do céu. Esta libertação, ninguém nos pode tirar. Podem nos colocar em cadeias, ou  martirizar, podem matar o corpo, mas não podem matar a alma. (Mt 10.28). Se o Filhos vos libertar, verdadeiramente sereis livres. (Jo 8.36). Que maravilhosa libertação. "Grato sou por tanto amor, meus bendito Salvador."



3a VELA

     A terceira vela é acesa no terceiro domingo de Advento e quer nos lembrar de que Jesus veio como príncipe da paz.  - O culto está por começar. As pessoas estão chegando. Aproximo-me do altar para acender a terceira vela. Lembro o Príncipe da Paz. Viro-me e olho para a congregação. Vejo pessoas entrando. Penso nelas. Diversas recordações me vem à mente. Quanta indisposição, ressentimentos, antipatias ainda existem mesmo numa congregação cristã. Nem preciso pensar neles. Olho para o meu próprio coração. Lá dentro não é diferente. Quanta luta. Como é difícil conservar a paz na família, nas reuniões, na congregação e com os vizinhos. Quantas guerras estão em andamento numa cidade, num país e no mundo? Estamos num mundo mergulhado em trevas, egoísmos e ódios. Enquanto o mundo enaltece o ser humano, suas qualidades seu amor, sua busca e seus esforços pela paz, o próprio apóstolo Paulo exclama, à luz da palavra de Deus e em profundo arrependimento: Porque eu sei que em mim isto é, na minha carne não habita bem nenhum ... Desventurado homem que sou! quem me livrará do corpo desta morte? graças a Deus, por Jesus Cristo. (Rm 7.19,24,25) Sim, graças a Deus por Jesus Cristo, o Príncipe da Paz (Is 9.6). Ele nos reconciliou com Deus (2 Co 5.19). Nele temos perdão dos pecados, e pelo perdão, paz com Deus. Jesus disse: Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize. (Jo 14.27) Por esta paz temos a vida e eterna salvação (Jo 3.16). Este perdão de Jesus nos move a amarmos o nosso próximo e até os nossos inimigos e a nos esforçar pela paz .(Lc 6.27; 2 Jo 5)

4a. VELA

     A quarta vela é acesa no quarto domingo de Natal e nos anuncia a grande alegria natalina, de que Jesus é Rei dos reis. Feliz quem tiver parte, pela fé, no reino eterno de Jesus. 
     Na primeira vinda, Jesus veio humilde. Eis aí te vem o teu Rei humilde. (Mt 21.5). Ele se humilhou profundamente. Sendo verdadeiro Filho de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus: antes a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homem; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz. (Fp 2.7,8).Assim nos trouxe  maravilhosa salvação que nos enche de alegria e júbilo. Como os anjos o anunciaram no dia de Natal: Eis que vos trago boa nova de grande alegria, que o será para todo o povo: é que hoje vos nasceu na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo o Senhor. (Lc 2.10,11). Então os anjos cantaram e nos ainda hoje cantamos cheios de alegria com eles: Glórias a Deus nas maiores alturas, e paz na terra aos homens, a quem ele quer bem. (Lc 2.14).
    Em breve Jesus voltará. Não mais em humilhação, mas em grande glória e majestade, com todos os seus santos anjos (Jo 14.18), para julgar vivos e mortos. E não como muitos imaginam e ensinam, para levantar aqui na terra um reino glorioso de mil anos. Jesus disse: Quando virdes estas cousas a suceder, exultai e erguei as vossas cabeças; porque a vossa redenção se aproxima. (Lc 21.15-18).Aguardamos com grande alegria a segunda vinda de Cristo em glória. Então passaremos do crer para o ver. O apóstolo João escreveu: Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque havemos de vê-lo como ele é. (1 Jo 3.2).

A VELA BRANCA – NATAL

     Após o quarto domingo de Advento, vem o dia 25 de dezembro, Natal. A vela branca é acesa. Ela simboliza o nascimento de Jesus. Veio o príncipe da Paz. O profeta Isaías profetizou 750 antes a respeito do Natal: Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da paz; para que aumente o seu governo e venha paz sem fim sobre o trono de Davi; e venha paz sem fim sobre a casa de Davi e sobre o seu reino, para o estabelecer e o firmar mediante o juízo e a justiça desde agora e para sempre. O zelo do Senhor dos Exércitos fará isto. (Is 9.6,7) O mesmo profeta ainda escreveu: Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e lhe chamará Emanuel. (Is 7.l4; Mt 1.13). Por isso os anjos anunciaram aos pastores nos campos de Belém: Não temais: eis aqui vos trago boa nova de grande alegria, que o será para todo o povo: é que hoje vos nasceu na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo o Senhor. E isto vos servirá de sinal: encontrareis uma criança envolta em faixas e deitada em manjedoura. E subitamente apareceu com o anjo uma multidão da milícia celestial louvando a Deus e dizendo: Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra aos homens, a quem ele quer bem. (Lc 2.10-14) No dia do Natal se manifestou a benignidade do Senhor e o seu amor para com todos os homens. (Tt 3.4) E que imenso amor. Jesus, o filho de Deus, gerado do Pai desde a eternidade e também verdadeiro homem nascido da virgem Maria, veio ao mundo. Ele veio de uma maneira bem estranha. Podemos dizer: ao contrário do que se poderia imaginar e esperar. Quem jamais procuraria o Salvador Jesus numa pobre estrebaria. Quem poderia imaginar que ele salvaria a humanidade por sua profunda paixão e morte de cruz?  Mas foi assim que ele veio e salvou a humanidade do pecado, da morte e do poder de Satanás. Por isso o próprio Jesus disse a Nicodemos: Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.(Jo 3.16)
     Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele. Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus. O julgamento é este: Que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más. (Jo 3.17-19)  Por isso escreve o apóstolo Paulo: Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie. Pois somos feituras dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas. (Ef 2.9-10) Por isso o mesmo apóstolos nos conclama: Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez digo, alegrai-vos. Seja a vossa moderação conhecida de todos os homens. Perto está o Senhor. Não andeis ansiosos de cousa alguma; em tudo, porém, sejam conhecidas diante de Deus as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graças. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e as vossas mentes em Cristo Jesus. (Fp 4.4-7)


CONCLUSÃO
     Eis a mensagem da coroa de Advento: Cristo é Rei dos reis. Ele venceu nossos inimigos: pecado, morte e Satanás. E todo o que confia na palavra de Deus tem o que esta palavra lhe oferece, dá e sela, perdão dos pecados, vida e eterna salvação. Em breve Jesus voltará para julgar vivos e mortos e receber os seus fiéis no reino da glória, no novo céu e na nova terra.  Que esta mensagem se grave fundo em nossa alma para bênção, para crescimento na fé, bem como para a prática de toda a boa obras, para sermos cheios de frutos da justiça (Fp 1.3-11); e nos firme na esperança da vinda de Cristo para o grande e derradeiro dia, de sua vinda em glória. Por isso a Bíblia termina com a mensagem de Advento: Certamente venho sem demora. E a igreja toda responde: Amém. Vem, Senhor Jesus. (Ap 22.2O)
                                                                             Horst Kuchenbecker
                                                                                    Advento 2013  

      

sábado, 12 de janeiro de 2013


Ef 1.2-14 – Predestinação
     Estimados irmãos e irmãs em Cristo! Quero convidar vocês a meditar sobre tema pouco falado num sermão, a doutrina da Predestinação.  Um tema que nossos pais escolheram, mui acertadamente para o início de ano, quando se especula muito sobre o futuro.
     Alguns afirmam: A vida é dirigida por um destino cego, de nada adiantam preocupações. O que tem de acontecer, acontecerá.  Outros afirmam o contrário e dizem:  O homem é senhor do seu destino e responsável por ele.  Cada um precisa lutar. E de fato a Bíblia afirma:
- Aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo. (Hebreus 9.27 RA)
     Isto nos leva à angustiante pergunta: Como vou subsistir diante do trono de Deus no dia do julgamento. E eis que nos deparamos com a da doutrina da Predestinação. É uma doutrina difícil. Não é fácil resumi-la num sermão. Vejamos o nosso texto:

Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos... escolheu nele antes da fundação do mundo, ... e em amor  nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade. (Efésios 1.2-5 RA)

     Estas palavras já deram muito o que pensar. O pastor e teólogo Calvino, chegou à conclusão de que Deus escolheu, já na eternidade, alguns (mesmo sendo milhares) para serem salvos e os outros ele condenou ao inferno. Que doutrina terrível. Graças a Deus, este não é o ensino da Bíblia.
     Outros afirmam que Deus previu (por sua onisciência) já na eternidade quem iria aceitar seu evangelho e crer, a estes ele predestinou para a eternidade. Neste caso, seríamos salvos pela graça e por nossas decisões e obras. Também este não é o ensino bíblico.
     Para ver o que a Bíblia ensina sobre a doutrina da Predestinação, este grande mistério, precisamos deixar a Bíblia falar sem intrometer nossa razão. Vejamos

A criação do homem ou do ser humano.
     Deus criou Adão e Eva conforme a sua imagem. À base da Bíblia, nosso Catecismo Menor define a Imagem Divina assim: - A imagem divina consiste em bem-aventurado conhecimento de Deus e em perfeita justiça e santidade. (Cat. Menor, perg.124) Deus  abençoou Adão e Eva e lhes disse:
- Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra. (Gênesis 128 RA) Deus lhes confiou a terra, a qual eles deveriam administrar. E ainda lhes disse:
- De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás. (Gênesis 2.16-17 RA)
 Portanto, os homens foram criados com o Livre Arbítrio. Eles eram santos e poderia decidir entre bem e mal. Infelizmente, tentados por Satanás, decidiram-se, de livre e espontânea vontade, para o mal.
      Esta queda foi terrível. Como vou descrevê-la? Como o cair num precipício. As conseqüências foram terríveis. Adão e Eva foram expulsos da presença de Deus. A queda em pecado os corrompeu totalmente. Estavam, agora, espiritualmente cegos, mortos, escravos de Satanás, sentenciados ao inferno e não poderiam libertar-se por suas próprias forças. Perderam o Livre Arbítrio, isto é, mesmo sendo ainda inteligentes, podendo decidir muitas coisas, mas em coisas espirituais são cegos, mortos, escravos de Satanás e inimigos de Deus. Seus filhos nascem com o Pecado Original, que à base da Bíblia, nosso Catecismo define assim: É o pecado que herdamos de Adão, isto é, a completa corrupção de toda a natureza humana, agora privada da justiça original, inclinada para todo o mal e sujeita à condenação. (Cat. Menor perg. 100)
     Não é isto, porém, o que ouvimos em nosso derredor. Lá ouvimos expressões como: a) No fundo, no fundo a pessoa é boa. b) Alguns ramos da cristandade não aceitam o fato da Completa Corrupção. Eles dizem: O pecado corrompeu, mas não totalmente. O ser humano ainda tem a capacidade de decidir entre o bem e o mal, decidir-se por Deus. c) Outros dizem, Deus convence a pessoa pela lei do seu pecado e, então, a convida a  aceitar o evangelho, pois Jesus disse: Quem crer será salvo (Mc 16.16), logo a pessoa pode crer por próprias forças. Neste caso, a fé é obra humana, o que a Bíblia nega. Ninguém pode dizer: Senhor Jesus!, senão pelo Espírito Santo. (1 Coríntios 12.3 RA)
À base da Bíblia nosso pais afirmam: Creio que por minha própria razão ou forma não posso crer em Jesus Cristo, eu Senhor, nem vir a ele. (Explicação do Terceiro Artigo do Credo Apostólico)

A Salvação
     O que Deus fez diante dessa tragédia? Em seu grande e incompreensível amor, já desde a eternidade, Deus resolveu salvar a humanidade. Deus é santo e justo, ele não pode, simplesmente, anular a lei, nem retirar o castigo. O que fazer? Seu Filho, Jesus Cristo, se dispôs a salvar a humanidade. Cantamos no hino: Um Cordeirinho quer levar a culpa dos culpados e com paciência carregar dos homens os pecados... eis, quem o Pai quis escolher a fim de a morte desfazer, provinda do pecado. Oh! Vai, meu Filho, vai salvar os filhos que ia condenar: Tu és o meu Amado. (HL 89.1,2)
     Jesus, como substituto de toda a humanidade: Cumpriu perfeitamente a lei de Deus, por seu sofrer e morrer pagou toda a culpa da humanidade e venceu nossos inimigos: Pecado, morte e Satanás. O evangelista João transcreve as palavras de Jesus:
 - Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. (João 3.16 RA) E o apóstolo Paulo confirma:
 - Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação. (2 Coríntios 5.19 RA)

Esta é a base da doutrina da Predestinação
    À base do que ouvimos, nós temos que afirmar:
a)      Em Cristo, Deus amou e ama todas as pessoas. Cristo reconciliou
a humanidade com Deus Pai. Nenhuma pessoa pode dizer: A mim Deus não amou o não ama. Ou, o meu pecado é grande demais para poder ser perdoado. Não, Deus amou o mundo e Jesus reconciliou toda a humanidade com Deus Pai.
b)      Como esta salvação chega até nós? Pelo meios da graça, Palavra e Sacramentos. Jesus ordenou:
- Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século. (Mateus 28.19-20 RA
-  Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado. (Marcos 16.16 RA)
     Aqui surge, no entanto, um dos maiores problemas nesta doutrina da Predestinação. Deus ordenou batizar e anunciar a sua palavra, mas isto ajuda? Não ouvimos no início que somos espiritualmente cegos, mortos e inimigos de Deus? Não podemos crer por própria força? De que nos adiantam os meios da graça? Temos que afirmar ainda o seguinte:
c)      Deus deseja sinceramente a salvação de todos para isso envia seu
Espírito Santo que atua poderosamente pelos meios da graça.   Ouçam o que Deus disse:
-  Porque não tenho prazer na morte de ninguém, diz o SENHOR Deus. Portanto, convertei-vos e vivei. (Ezequiel 1832 RA) E:
- O qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade. (1 Timóteo 2.4 RA)
 - E a vós outros, que estáveis mortos pelas vossas transgressões e pela incircuncisão da vossa carne, vos deu vida juntamente com ele, perdoando todos os nossos delitos; (Colossenses 2.13 RA)
- Preservando a palavra da vida, para que, no Dia de Cristo, eu me glorie de que não  (Filipenses 2.16 RA)
     Pelos meios da graça o Espírito Santo atua poderosamente chamando, iluminando, gerando a fé, conservando e fortalecendo a fé. Ele nos amarrou aos meios da graça, pelos quais o Espírito Santo opera em todos que não lhe resistem obstinada e persistentemente.
- Pois a fé vem pelo ouvir e o ouvir da palavra de Cristo. (Rm 10.17)
     As palavras: Andai no Espírito e jamais satisfareis à concupiscência da carne. (Gálatas 5.16 RA) Enchei-vos do Espírito, (Efésios 5.18 RA) estas palavras têm o mesmo significa que:
- Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração. (Colossenses 3.16 RA)
 -  Pois fostes regenerados não de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente. (1 Pedro 1.23 RA)
     Pois pela Palavra e sacramentos o Espírito Santo vem coração gera a nova vida (novo homem) e mantém esta vida espiritual.
d)     Colocado isso, temos que afirmar: Se alguém é salvo, é salvo
unicamente pela fé na graça de Cristo; se alguém se perde, perde-se unicamente por sua própria culpa e incredulidade, como Jesus nos mostra pelas admoestação: Jesus chorou sobre Jerusalém e disse:
- Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes! (Mateus 23.37 RA)
 - Homens de dura cerviz e incircuncisos de coração e de ouvidos, vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim como fizeram vossos pais, também vós o fazeis. (Atos 7.51 RA)

A doutrina da Predestinação
     Diante disto temos que afirmar sobre a doutrina da Predestinação o seguinte:
a)      A razão da salvação de alguém e sua predestinação, não foi a
presciência de Deus, nem a decisão da pessoa, mas única o amor de Deus em Cristo. E em amor nos predestinou.
b)      Se alguém se perde, perde-se por sua própria culpa e a pessoa não
pode acusar a Deus por sua condenação.
     Diante desta afirmação surge a pergunta: Por que uns se salvam e outros não. Isto é um mistério. Não podemos argumentar aqui com nossa razão, que conclui: Ora se escolheu alguém é lógico que não escolheu os outros; ou se predestinou alguns para o céu, é lógico que predestinou os outros ao inferno. Mas a Bíblia não diz isto. A vida, seja do corpo ou da alma, é um presente de Deus, mas temos o triste poder de tirá-la, tanto a vida do corpo como da alma.

Consolo 
      Deus de fato nos escolheu antes da fundação do mundo. Esta verdade (Doutrina da Predestinação) Deus nos revelou para consolo. Pois cientes de nossa fraqueza e de nossos muitos pecados, uma das preocupações que mais assola os fiéis é: Será que permanecerei fiel até o fim. Para nos consolar nesta angústia, Deus nos afirma: Vos escolhi antes da fundação do mundo.
     Como posso saber que Deus me escolheu antes da fundação do
mundo? Como saber? O apóstolo Paulo louva a diz e diz:
- Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo.(v.2)
- O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus. (Romanos 8.16 RA) Isto pela fé, que a é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem. (Hebreus 11.1 RA)
- Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; (Romanos 8.26 RA)
- E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou. (Romanos 8.30 RA)
       Veja o quanto Deus Espírito Santo já trabalhou em ti. Ele te salvou e levou à fé, quer como criança pelo batismo ou levado à fé como adulto. Ele te conservou na fé até aqui. Ele te deu os meios da graça pelo qual o Espírito Santo atua. E te diz pela doutrina da Predestinação: De minha parte não deixarei faltar nada. De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei. (Hebreus 13.5 RA)

Conclusão 
     A doutrina da Predestinação para a salvação é uma doutrina de profundo consolo para os cristãos. Por isso o apóstolo afirma: - Vamos ler agora o texto mais uma vez, para compreensão melhor -

Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo, assim como nos escolheu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor  nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade,  para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado,  no qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça,  que Deus derramou abundantemente sobre nós em toda a sabedoria e prudência,  desvendando-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito que propusera em Cristo... depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa; o qual é o penhor da nossa herança, ao resgate da sua propriedade, em louvor da sua glória. (Efésios 1.3-14 RA)

      Por isso, irmãos, procurai, com diligência cada vez maior, confirmar a vossa vocação e eleição; porquanto, procedendo assim, não tropeçareis em tempo algum. (2 Pedro 1.10 RA) Esta admoestação o apóstolo Pedro fez, para que não pensemos: Bem, fui eleito. Agora não preciso me preocupar. Um pecado a mais ou a menos, pouco faz. Estou salvo. Isto é uma tentação diabólica. Fomos feitos filhos de Deus para sermos propriedade de Deus, em louvor da sua glória. Amém.

  (Enviado aos pastores 04/01/13. Feitoria, Na Vila Tereza, no Breno B. Canoas. )                              
                                                                           São Leopoldo 02/01/201    
                                                                            Horst R. Kuchenbecker