terça-feira, 14 de abril de 2015

A Ascensão de Jesus Cristo ao Céu
e o significado para nós seus seguidores
Subiste às altura, levaste cativo o cativeiro,
Recebeste homens por dádivas. (Salmo 68.18)


A  ASCENSÃO  DE  CRISTO

     Então, os levou para Betânia e, erguendo as mãos, os abençoou.   Aconteceu que, enquanto os abençoava, ia-se retirando deles, sendo elevado para o céu. Então, eles, adorando-o, voltaram para Jerusalém, tomados de grande júbilo; e estavam sempre no templo, louvando a Deus. (Lucas 24.50-53)

     Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século. (Mateus 28.18-20)

     Ditas estas palavras, foi Jesus elevado às alturas, à vista deles, e uma nuvem o encobriu dos seus olhos. E, estando eles com os olhos fitos no céu, enquanto Jesus subia, eis que dois varões vestidos de branco se puseram ao lado deles e lhes disseram: Varões galileus, por que estais olhando para as alturas? Esse Jesus que dentre vós foi assunto ao céu virá do modo como o vistes subir. (Atos 1.9-11)

Introdução
     A festa da Ascensão de Jesus Cristo, 40 dias após a Páscoa, é a grande festa da coroação de Cristo como Rei dos reis e Senhor dos senhores. É o dia de sua posse como Rei do universo. Portanto um dia de júbilo para toda a cristandade.
     Na vida de Cristo existem quatro grandes eventos que são observados pela Igreja Cristã: Natal, Sexta-feira Santa, Páscoa e Ascensão.
     Natal, nascimento de Jesus Cristo. A festa recebe grande atenção por parte das congregações cristãs e também por parte da sociedade em geral. Muitos, mesmo não dando atenção à sua mensagem ou mesmo não a aceitando, celebram Natal como uma festa da família e ocasião para troca de presentes.
     Sexta-feira Santa, crucificação e morte de Jesus Cristo, é celebrada de várias formas: O Ofício das Trevas, silêncio por 12 horas, cultos especiais, procissões com o Cristo crucificado e auto flagelo; além das tradições populares tais como o não comer carne de animais e/ou fazer deste dia uma festa do peixe e do vinho.
     Páscoa, ressurreição de Jesus Cristo. É a grande festa de alegria, da absolvição, da esperança da ressurreição e da vida eterna, celebrada com cultos de louvor e júbilo; para sociedade, porém, a festa do chocolate, com uma série de lendas em torno de coelhinhos e ovos.
      Ascensão, subida de Jesus ao céu.  É a festa na qual celebramos a triunfante subida de Jesus aos céus, para assentar-se à direita do Pai. Esta festa, infelizmente, está caindo no esquecimento. Poucas são as comunidades que celebram culto na quinta-feira da Ascensão. E mesmo que o domingo após a Ascensão ofereça boa oportunidade para se falar a respeito, esta oportunidade nem sempre é aproveitada.   
     Compreendemos ainda este importante passo na exaltação de Jesus e o que isto significa para nós, seus seguidores? Vamos refletir sobre esta verdade que confessamos no Credo Apostólico: “Creio que Jesus Cristo, verdadeiro Deus ... e verdadeiro homem ... desceu ao inferno, no terceiro dia ressuscitou dos mortos, subiu ao céu, e está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso, donde há de vir a julgar os vivos e os mortos.”

1. Importância e significado
     A ascensão de Cristo é o término de sua missão vicária e de sua presença visível na terra. De certa forma, a Sexta-feira Santa é o dia das trevas. Se Sexta-feira Santa fosse a palavra final, estaríamos perdidos e nos restaria a confissão de desespero dos discípulos de Emaús: “Ora, nós esperávamos que fosse ele quem havia de redimir a Israel” (Lucas 24.21), seria o triunfo da lei, da condenação, de Satanás e do Inferno. Mas com a Páscoa tudo mudou. Cristo triunfou sobre os poderes das trevas, sobre o pecado, a morte e Satanás. Jesus pôde saudar seus discípulos com as palavras: “Paz seja convosco! E, dizendo isto, lhes mostrou as mãos e o lado. Alegraram-se, portanto, os discípulos ao verem o Senhor” (João 20.19-20). O apóstolo Paulo jubila ao escrever: “Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão? O aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei. Graças a Deus, que nos dá a vitória por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Coríntios 15.55-57). Agora, a cristandade pode confessar alegre e vitoriosamente: “Creio na ressurreição da carne e na vida eterna.” Pois a ascensão de Cristo é a aprovação e confirmação divina de toda a obra redentora de Cristo, sim sua coroação como Rei dos reis e Senhor dos senhores, como Redentor e Juiz de vivos e de mortos. Não deveria a cristandade celebrar esta festa com cultos de júbilo e de louvor?

2. A celebração da festa nos primeiros séculos
     Nos primeiros séculos, a cristandade celebrou a gloriosa e vitoriosa ascensão de Cristo com muito júbilo. Jesus viveu 33 anos aqui na terra, então retornou triunfante ao céu para tomar posse do seu reino e foi recebido com júbilo pelos anjos.
     Historiadores relatam sobre os festejos no tempo de Agostinho (AD 354-430). Um relato de AD 385 afirma que o dia da Ascensão era celebrado em Jerusalém com uma peregrinação para o monte das Oliveiras e culto campal. Consta que a Imperatriz Helena, nascida na Inglaterra, mãe do Imperador Constantino I e esposa de Constâncio (248 - 328 AD), por volta de 327 peregrinou para à Terra Santa e fez erguer ali a capela da Natividade e da Ascensão. O historiador inglês, Bede, do século VIII, relata que a celebração da Ascensão de Cristo igualava-se aos festejos da Páscoa e muitas comunidades tinham o hábito de celebrarem a “Quinta-feira Santa da Ascensão” com um culto campal.

3. A Ascensão nas profecias do Antigo Testamento
     A ascensão de Cristo foi predita no Antigo Testamento. Os textos próprios são: “Subiu Deus por entre aclamações, o SENHOR, ao som de trombeta” (Salmos 47.5). “Subiste às alturas, levaste cativo o cativeiro; recebeste homens por dádivas, até mesmo rebeldes, para que o SENHOR Deus habite no meio deles” (Salmos 68.18; Ef 4.8-10). No Salmo 110 lemos: “Disse o SENHOR ao meu senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos debaixo dos teus pés” (Salmos 110.1). O Salmo 22 fala do sofrimento de Cristo e aponta para sua vitória. “Confiou no SENHOR! Livre-o ele; salve-o, pois nele tem prazer ... Pois do SENHOR é o reino, é ele quem governa as nações” (Salmos 22.8,28). O profeta Isaías também fala do Servo sofredor e de sua vitória final: “Ele verá o fruto do penoso trabalho de sua alma e ficará satisfeito ... Por isso, eu lhe darei muitos como a sua parte, e com os poderosos repartirá ele o despojo” (Isaías 53.11-12).

4. Referências do Novo Testamento.
     No Novo Testamento temos muitas referências à ascensão de Cristo. Os quatro evangelhos falam da ascensão, porque Jesus se referiu a ela muitas vezes. Os discípulos não viram o ato da ressurreição de Jesus, mas viram o ressuscitado e tiveram contato com ele. Em Jerusalém, Jesus se manifestou às mulheres quando elas estavam voltando da sepultura, depois a Maria Madalena, a Pedro, aos discípulos de Emaús. Na noite da Páscoa, Jesus apareceu aos discípulos e uma semana depois mais uma vez a todos eles, especialmente a Tomé. Depois foram para a Galileia, conforme Jesus lhes ordenara. Ali Jesus se manifestou a eles diversas vezes, durante um período de 40 dias. Na ascensão viram o ato e o efeito, que experimentamos até hoje.
     Mateus resume as últimas instruções de Jesus dadas a seus discípulos no monte da Galileia, onde Jesus apareceu a mais de 500 pessoas de uma só vez. Lemos: “Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século” (Mateus 28.18-20). Algumas observações: Jesus, como Deus e homem, recebeu todo o poder; especialmente o mais sublime de todos os poderes, o poder de perdoar pecados. Agora  ele governa com poder sobre o universo, com graça a sua igreja e com glória os que estão nos céus. Como Rei e Salvador, ele ordenou a seus discípulos que fossem fazer discípulos de todas as nações. Mostrou-lhes também como deveriam fazê-lo: batizando e ensinando. Por estes meios o Espírito atua nos corações para iluminar, chamar, santificar, fortalecer e congregar. O batizar e ensinar “os”, não se refere aos discípulos, mas aos “indivíduos” das nações, que deveriam ser evangelizados. Maiores detalhes sobre como batizar e ensinar encontramos em Atos e nas cartas dos apóstolos. Se devemos fazer discípulos de todas as nações, então devemos fazer discípulos também das crianças, que nascem em pecado, elas precisam do perdão, sendo o batismo o único meio dado por Jesus, para gerar nas crianças a fé cristã. Adultos devem ser instruídos primeiro e então batizados, como o vemos no dia de Pentecostes (At 2.37-41). “Guardar todas as coisas”, não é um simples obedecer. A palavra “guardar” significa mais, significa guardar no coração, isto é, confiar na palavra, a saber, crer de coração (Lc 2.19; Lc 11.18). Pelo ensino da palavra o Espírito Santo gera a fé e a fortalece. “E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo” (Romanos 10.17).
     Marcos é bastante sucinto no seu relato. Ele fornece um resumo dos principais acontecimentos após a ressurreição de Cristo. Os discípulos não creram no testemunho das mulheres. Então Jesus lhes apareceu pessoalmente e comeu com eles (Jo 20). Agora eram testemunhas oculares da ressurreição de Jesus. Marcos descreve o que aconteceu após crerem. “De fato, o Senhor Jesus, depois de lhes ter falado, foi recebido no céu e assentou-se à destra de Deus. E eles, tendo partido, pregaram em toda parte, cooperando com eles o Senhor e confirmando a palavra por meio de sinais, que se seguiam” (Marcos 16.19-20). O elemento importante em Marcos é a afirmação: “Assentou-se à direita de Deus.”
     Lucas, de profissão médico, fornece dois relatos sobre a ascensão de Cristo. O primeiro relato, no final de seu evangelho e o outro, no início de Atos do Apóstolos. Ele descreve a ascensão com muitos detalhes.
     A primeira referência de Lucas com respeito à ascensão de Jesus é a seguinte: “E aconteceu que, ao se completarem os dias em que devia ele ser assunto ao céu, manifestou, no semblante, a intrépida resolução de ir para Jerusalém” (Lucas 9.51). Jesus havia falado a seus discípulos sobre o seu sofrimento e sua glória futura no céu. Por isso disse também aos discípulos de Emaús: “Ó néscios e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram!   Porventura, não convinha que o Cristo padecesse e entrasse na sua glória?” (Lucas 24.25-26).
     O fato da ascensão, Lucas descreve assim: “Então, os levou para Betânia e, erguendo as mãos, os abençoou. Aconteceu que, enquanto os abençoava, ia-se retirando deles, sendo elevado para o céu” (Lucas 24.50-51).
     O Livro de Atos, no qual Lucas relata sobre a expansão do reino de Deus, ele inicia assim: “Escrevi o primeiro livro, ó Teófilo, relatando todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar até ao dia em que, depois de haver dado mandamentos por intermédio do Espírito Santo aos apóstolos que escolhera, foi elevado às alturas ... Ditas estas palavras, foi Jesus elevado às alturas, à vista deles, e uma nuvem o encobriu dos seus olhos. E, estando eles com os olhos fitos no céu, enquanto Jesus subia, eis que dois varões vestidos de branco se puseram ao lado deles e lhes disseram: Varões galileus, por que estais olhando para as alturas? Esse Jesus que dentre vós foi assunto ao céu virá do modo como o vistes subir” (Atos 1.1,2,9-11). O elemento novo aqui é a afirmação sobre a volta de Jesus em glória.
      João, o evangelista. No evangelho de João encontramos 50% das declarações de Jesus sobre sua ascensão. Vamos acompanhar algumas das citações: “Ora, ninguém subiu ao céu, senão aquele que de lá desceu, a saber, o Filho do Homem que está no céu” (João 3.13). No sermão da multiplicação dos pães em Cafarnaum, após ter alimentado a multidão, Jesus disse a seus discípulos: “Ainda por um pouco de tempo estou convosco e depois irei para junto daquele que me enviou. Haveis de procurar-me e não me achareis; também aonde eu estou, vós não podeis ir” (João 7.33-34). Isto Jesus falou a respeito de sua ascensão.
      As afirmações mais impressionantes sobre a ascensão encontramos nas palavras que Jesus falou em seus últimos cinco dias de vida, a partir do domingo, que conhecemos como o domingo de Ramos. Estas palavras encontramos registradas a partir do capítulo 12 de João. Vejamos. Após seu sermão no templo, ouviu-se uma voz do céu que disse: “Eu já o glorifiquei e ainda o glorificarei” (João 12.28). Jesus disse: “E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo” (João 12.32). Antes de lavar os pés dos discípulos, Jesus disse: “Ora, antes da Festa da Páscoa, sabendo Jesus que era chegada a sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim” (João 13.1). Tendo Judas saído do cenáculo, onde celebravam a santa ceia, Jesus disse: “Agora, foi glorificado o Filho do Homem, e Deus foi glorificado nele; se Deus foi glorificado nele, também Deus o glorificará nele mesmo; e glorificá-lo-á imediatamente” (João 13.31-32). O “glorificar” significa que a graça, o amor de Deus aos pecadores, esta obra da salvação começa a ser executada e manifestada. Esta é a glória de Deus. Este amor exaltamos e glorificamos. No seu sermão de despedida em João 14 a 17, existem 9 referências com respeito à sua saída da terra. Jesus prometeu a seus discípulos: “Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora, eu vo-lo teria dito. Pois vou preparar-vos lugar” (João 14.2). “Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço e outras maiores fará, porque eu vou para junto do Pai. E tudo quanto pedirdes em meu nome, isso farei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho” (João 14.12-13 RA). “Ouvistes que eu vos disse: vou e volto para junto de vós. Se me amásseis, alegrar-vos-íeis de que eu vá para o Pai, pois o Pai é maior do que eu. Disse-vos agora, antes que aconteça, para que, quando acontecer, vós creiais” (João 14.28-29). “Mas, agora, vou para junto daquele que me enviou, e nenhum de vós me pergunta: Para onde vais?” (João 16.5). “Mas eu vos digo a verdade: convém-vos que eu vá, porque, se eu não for, o Consolador não virá para vós outros; se, porém, eu for, eu vo-lo enviarei” (João 16.7 RA). “Tudo quanto o Pai tem é meu; por isso é que vos disse que há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar. Um pouco, e não mais me vereis; outra vez um pouco, e ver-me-eis. Então, alguns dos seus discípulos disseram uns aos outros: Que vem a ser isto que nos diz: Um pouco, e não mais me vereis, e outra vez um pouco, e ver-me-eis; e: Vou para o Pai?” (João 16.15-17). “Vim do Pai e entrei no mundo; todavia, deixo o mundo e vou para o Pai” (João 16.28). Em sua oração sumo sacerdotal, Jesus repete que irá para o Pai (Jo 17.11,13).
      Referências após sua ressurreição encontramos no capítulo 20, Jesus disse a Maria Madalena: “Não me detenhas; porque ainda não subi para meu Pai, mas vai ter com os meus irmãos e dize-lhes: Subo para meu Pai e vosso Pai, para meu Deus e vosso Deus” (João 20.17). Agora começa um novo relacionamento entre mim e vocês. Não mais no ver e tocar, mas um relacionamento de fé, no crer.
      Referências das cartas dos apóstolos. Temos muitas referências nas cartas dos apóstolos. Vejamos algumas palavras das cartas de Paulo e de Pedro. O apóstolo Paulo, em sua carta aos efésios, escreve sobre a ascensão de Cristo e seu resultado, como segue: “E qual a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos, segundo a eficácia da força do seu poder; o qual exerceu ele em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos e fazendo-o sentar à sua direita nos lugares celestiais, acima de todo principado, e potestade, e poder, e domínio, e de todo nome que se possa referir, não só no presente século, mas também no vindouro. E pôs todas as coisas debaixo dos pés, e para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja, a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas” (Efésios 1.19-23). O apóstolo Pedro em sua carta às congregações da Ásia Menor, escreve: “O qual, depois de ir para o céu, está à destra de Deus, ficando-lhe subordinados anjos, e potestades, e poderes” (1 Pedro 3.22).  
     Hebreus, um livro do Novo Testamento, fala muito da Ascensão de Jesus. Vejamos alguns detalhes. “Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas” (Hebreus 1.3). Falando sobre o sumo sacerdote Jesus, o escritor aos hebreus declara: “Ora, o essencial das coisas que temos dito é que possuímos tal sumo sacerdote, que se assentou à destra do trono da Majestade nos céus, como ministro do santuário e do verdadeiro tabernáculo que o Senhor erigiu, não o homem” (Hebreus 8.1,2). No capítulo 10 lemos: “Ora, todo sacerdote se apresenta, dia após dia, a exercer o serviço sagrado e a oferecer muitas vezes os mesmos sacrifícios, que nunca jamais podem remover pecados; Jesus, porém, tendo oferecido, para sempre, um único sacrifício pelos pecados, assentou-se à destra de Deus,   aguardando, daí em diante, até que os seus inimigos sejam postos por estrado dos seus pés. Porque, com uma única oferta, aperfeiçoou para sempre quantos estão sendo santificados” (Hebreus 10.11-14).

5. Verbos usados no original para descrever a ascensão
     O texto grego usa 13 verbos diferentes para descrever a forma da ascensão. Vejamos a tradução dos textos em português. 1) Subir: Jo 3.13; 6.62; 20.17. 2) Foi recebido: Mc 16.19; At 1.11. 3) Assunto ao céu: Lc 9.51. 4) Ia-se retirando deles: Lc 24.51. 5) Que eu vá: Jo 16.7 (20.10). 6) Elevado para o céu: Lc 2.51. 7) Elevado às alturas: At 1.9. 8) Vou para junto de ti: At 17.11. 9) Irei: Jo 7.33; 13.3; 14.4,28; 16.5,10. 10) Elevado às alturas: At 1.9. 11) Elevado da terra: Jo 12.32. 12) Vou preparar-vos lugar: Jo 14.2,3,12; 16.28; At 1.10-11.

6. O fato da Ascensão  
     Vamos resumir o que os evangelistas e apóstolos escreveram sobre a ascensão de Jesus. Após a ressurreição, Jesus manifestou-se a seus discípulos em Jerusalém. Não parece ter sido a sua intenção revelar-se a eles ali, pois os anjos disseram às mulheres que Jesus queria encontrar-se com os discípulos na Galileia (Mt 26.32; 28.7). Mas, devido a incredulidades deles, Jesus lhes apareceu ainda no domingo da páscoa à noite, falou e comeu com eles. Bem assim uma semana depois, especialmente para convencer a Tomé. Então os discípulos partiram para a Galileia, onde Jesus se manifestou a eles durante quarenta dias. Ele os instruiu sobre o reino de Deus, falou-lhes do seu poder, de sua volta para o Pai, da missão de fazerem discípulos, de sua volta em glória para julgar vivos e mortos, do novo céu e da nova terra. Ao final dos 40 dias, Jesus ordenou-lhes que voltassem para Jerusalém. Tendo-se encontrado com eles em Jerusalém,  foi com eles para o monte Olival que dista de Jerusalém mais ou menos um quilômetro, no caminho para Betânia. Ali, dando-lhes as últimas ordens e abençoando-os, foi elevado à vista deles para o céu, até que uma nuvem o encobriu. Pasmados, viram então dois anjos que lhes disseram: “Varões galileus, por que estais olhando para as alturas? Esse Jesus que dentre vós foi assunto ao céu virá do modo como o vistes subir” (Atos 1.11).
       Este é o glorioso acontecimento da ascensão de Cristo. Ele compreende dois fatos:  O fato de sua ascensão ao céu e o fato do assentar-se à direita do Pai. Agora Jesus governa como Deus e homem sobre céu e terra. Ele enche céu e terra como Deus e homem. Jesus desfruta agora, também como homem, todo o poder divino que ele tinha antes de sua encarnação. Poder este, do qual abrira mão voluntariamente durante os dias de sua humilhação. Mas agora, usa totalmente todo o seu poder e toda a sua majestade comunicada a sua natureza humana. E como homem é agora também onisciente, onipotente e onipresente. E nós aguardamos sua vinda em glória para julgar vivos e mortos. 
      O assentar-se à direita do Pai - O que significa este assentar-se à direita do Pai? Deus, na verdade não tem mãos humanas ou olhos humanos para ver, ou pés para andar. Isto são figuras de linguagem. Pois Deus é espírito. A direita indica poder e autoridade. Deus entregou a Jesus todo o poder e o governo sobre todas as coisas. O apóstolo Paulo, relembrando o Salmo 68.18, escreve: “Ora, que quer dizer subiu, senão que também havia descido às regiões inferiores da terra? Aquele que desceu é também o mesmo que subiu acima de todos os céus, para encher todas as coisas” (Efésios 4.9-10). A ascensão de Cristo é portanto a retirada de sua presença visível na terra. Isto não significa que ele não está mais aqui. Agora Jesus está em toda a parte como Deus e homem. Por isso temos certeza de que, conforme as palavras da instituição da santa ceia, ele está verdadeiramente presente na santa ceia e nós recebemos com, em e sob o pão o verdadeiro corpo de Cristo e com, em e sob o vinho o verdadeiro sangue de Cristo, dado e derramado por nós. Pois, ao dizer: “E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século” (Mateus 28.20), ele está dizendo que estará, como Deus e homem, com seus discípulos. Cristo, como Deus e homem governa e exerce seus ofícios de profeta, de sumo sacerdote e de rei.

7. Os ofícios de Jesus: profeta, sumo sacerdote, e rei
     Jesus, o único profeta.  Jesus é o Verbo, o Deus que “disse”, que fala. No Antigo Testamento, Jesus falou pelos profetas. Depois veio pessoalmente e ensinou as multidões. Ao subir ao céu, deu ordem a seus apóstolos e encarregou a igreja de proclamar o evangelho. Ele disse: “Quem vos der ouvidos ouve-me a mim; e quem vos rejeitar a mim me rejeita; quem, porém, me rejeitar rejeita aquele que me enviou” (Lucas 10.16). O apóstolo Paulo afirma: “Aquele que desceu é também o mesmo que subiu acima de todos os céus, para encher todas as coisas.   E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo” (Efésios 4.10-12). O grande comissionamento ordena pregar o evangelho a todas as nações (Mt 28.18-20; At 1.8).
     Jesus é o verdadeiro e único sumo sacerdote. Isto é, intermediário entre Deus e a humanidade. Ele, como verdadeiro Deus e verdadeiro homem, sendo perfeitamente santo, como substituto da humanidade, cumpriu perfeitamente a lei, trouxe, pelo derramar do seu sangue, o único sacrifício pelo qual reconciliou a humanidade com Deus e intercede pelos seus. O apóstolo Paulo escreveu: “Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos fez um; e, tendo derrubado a parede da separação que estava no meio, a inimizade, aboliu, na sua carne, a lei dos mandamentos na forma de ordenanças, para que dos dois criasse, em si mesmo, um novo homem, fazendo a paz, e reconciliasse ambos em um só corpo com Deus, por intermédio da cruz, destruindo por ela a inimizade” (Efésios 2.14-16). E: “Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem, o qual a si mesmo se deu em resgate por todos: testemunho que se deve prestar em tempos oportunos” (1 Timóteo 2:5-6 ). O autor da carta aos hebreus assegura aos crentes: “Ora, o essencial das coisas que temos dito é que possuímos tal sumo sacerdote, que se assentou à destra do trono da Majestade nos céus” (Hebreus 8.1). O apóstolo Paulo escreveu aos cristãos de Roma: “Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós” (Romanos 8.34). O apóstolo João conforta seus leitores com a promessa: “Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo; e ele é a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro” (1 João 2.1-2).
     Jesus é Rei. Ele exerce um reino tríplice: o reino do poder, da graça e da glória. Nosso Catecismo Menor o define assim: “Cristo domina poderosamente todas as criaturas e especialmente governa e protege a sua igreja, conduzindo-a finalmente à glória eterna.” (Cat. Menor, perg. 148). Jesus governa com poder sobre todas as criaturas e ninguém poderá lhe resistir. Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra” (Mateus 28.18). Jesus governa a sua igreja com graça. Isto é, durante todo o tempo da graça até a sua vinda em glória, o evangelho deve ser pregado no mundo e os sacramentos administrados conforme ele os instituiu. Por meio do evangelho e dos sacramentos, o Espírito Santo trabalha poderosamente, operando e conservando a fé, consolando com a palavra do perdão. Perdoa abundante e diariamente todos os pecados aos que nele creem. “Então, lhe disse Pilatos: Logo, tu és rei? Respondeu Jesus: Tu dizes que sou rei. Eu para isso nasci e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz” (João 18.37). Mas esta graça é resistível, como bem afirmou Estevão aos judeus: “Homens de dura cerviz e incircuncisos de coração e de ouvidos, vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim como fizeram vossos pais, também vós o fazeis” (Atos 7.51). E os fiéis que já faleceram e estão com Cristo na glória ele coroa de glória e felicidade. O apóstolo Paulo confessa: “O Senhor me livrará também de toda obra maligna e me levará salvo para o seu reino celestial. A ele, glória pelos séculos dos séculos. Amém!” (2 Timóteo 4.18).
     Finalmente, terminado o tempo da graça, Jesus voltará em glória para julgar vivos e mortos. O propósito da segunda vinda de Cristo não é estabelecer um reino terreno, o milênio (Ap 20.2). Esta passagem de Apocalipse deve ser interpretada à luz das afirmações dos evangelhos e das cartas dos apóstolos. Então veremos que o prender a Satanás por mil anos, tem sentido figurativo. Isto é um período determinado por Deus, é o tempo da graça no qual vivemos, no qual o evangelho é  pregado. E pelo evangelho o Espírito Santo liberta as pessoas do poder de Satanás. Quando Jesus voltar, ele voltará em glória com grande poder e majestade e todos os santos anjos com ele. Todos os mortos serão ressuscitados. Jesus julgará a todos com justiça. Cristo é a consumação de todas as cousas, a consumação dos séculos. Então criará o novo céu e a nova terra, onde os fiéis estarão com Cristo em eterna felicidade e bem-aventurança. Mas os incrédulos irão para o fogo eterno. 

8. Objeções à ascensão de Jesus
     A ascensão de Cristo ocorreu de forma aberta num monte. Foi um evento visível. Um dos anjos repentinamente presente na ascensão, disse aos discípulos: “Varões galileus, por que estais olhando para as alturas? Esse Jesus que dentre vós foi assunto ao céu virá do modo como o vistes subir” (Atos 1.11). A ascensão de Cristo foi um evento histórico, tal como a encarnação, sua morte e sua ressurreição. Foi um ato que ocorreu no tempo e no espaço, ele não desapareceu repentinamente, mas foi elevado ao céu de forma visível diante de onze testemunhas, seus discípulos. A ascensão foi gradual, efetuada por seu próprio poder, foi uma ida majestosa para o céu.
     Mesmo assim muitos não aceitam o fato. Os teólogos da teologia liberal e luteranos neo-ortodoxos rejeitam o fato histórico. Eles não aceitam os milagres relatados na Bíblia e dizem que são mitos. Entres estes teólogos, os mais conhecidos são: Barth, Bultmann, Tillich, Kirkegard, Brunner e outros.
     Os teólogos reformados como Zinglio e Calvino rejeitam a doutrina da comunhão das duas naturezas de Cristo, a divina e a humana numa só pessoa, de forma inseparável. Mas a Bíblia é clara: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (João 1.14). “Porquanto, nele, habita, corporalmente, toda a plenitude da Divindade” (Colossenses 2.9). Consequentemente, eles não aceitam a doutrina da humilhação e da exaltação de Cristo. “Cremos que a humilhação de Cristo consistiu em não ter ele usado sempre e inteiramente a majestade divina, comunicada à sua natureza humana (Cat. Menor, perg. 155). E sua “exaltação consistiu em que ele usa sempre e inteiramente a majestade divina comunicada à sua natureza humana” (Cat. Menor, perg. 165). Por isso julgam que Jesus, quanto à sua pessoa humana, está  confinado num lugar no céu e que, com sua igreja aqui na terra, ele está só com sua natureza divina, como espírito. Isto faz de Cristo duas pessoas. Esta doutrina errada tem contribuído para desmerecer esta tão jubilosa festa no meio evangélico. Não nos deixemos enganar por tais argumentações falhas. A Escritura o coloca de forma incontestável. Jesus afirmou: “E bem-aventurado é aquele que não achar em mim motivo de tropeço” (Mateus 11.6). E: “Bem-aventurados são os que ouvem a palavra de Deus e a guardam!” (Lucas 11.28).

9. O resultado da Ascensão para seus seguidores
     1. Vitória - Como substituto de toda a humanidade, Jesus pagou o preço pelos pecados e venceu nossos inimigos, pecado, morte e Satanás. A ascensão de Cristo foi o tomar posso do seu reino. Ele disse: Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra” (Mt 28.18). O apóstolo Paulo afirma: “Por isso, diz: Quando ele subiu às alturas, levou cativo o cativeiro e concedeu dons aos homens” (Efésios 4.8). “Bendito seja o Senhor que, dia a dia, leva o nosso fardo! Deus é a nossa salvação” (Salmos 68.19). “E, despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz” (Colossenses 2.15).
     2. A Igreja - Esta vitória possibilitou a existência da igreja do Novo Testamento. Vitorioso, Jesus ordenou: “Ide fazei discípulos de todas as nações” (Mt 28.19), e prometeu: “Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estarei no meio deles” (Mt 18.20).
     3. Dignidade - A ascensão de Jesus, como pessoa humana, dignifica o ser humano. Nosso irmão na carne está lá. O Espiritismo despreza a matéria, Cristo a dignifica. Aos seus Jesus disse: “E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (João 17.3). “Eu lhes tenho transmitido a glória que me tens dado, para que sejam um, como nós o somos. (João 17.22). “Pai, a minha vontade é que onde eu estou, estejam também comigo os que me deste, para que vejam a minha glória que me conferiste, porque me amaste antes da fundação do mundo” (João 17.24).
     4. Lugar - O céu foi aberto para os discípulos de Cristo, aos fiéis. Ele foi preparar lugar para seus seguidores. Ele mesmo disse: “Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora, eu vo-lo teria dito. Pois vou preparar-vos lugar. E, quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que, onde eu estou, estejais vós também” (João 14.2,3). Por sua paixão e morte, Jesus nos preparou lugar. Agora está à direita do Pai e intercede por nós.
     5. Novo propósito de vida - A ascensão de Cristo dá aos fiéis um novo propósito de vida. “Porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu
coração” (Mateus 6.21). Por isso recomenda o apóstolo Paulo: “Portanto, se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus” (Colossenses 3.1).
     6. O Espírito Santo e dons - Jesus prometeu e enviou o seu Espírito Santo conforme a profecia de Joel 3.1-4. Ele prometeu: “Mas eu vos digo a verdade: convém-vos que eu vá, porque, se eu não for, o Consolador não virá para vós outros; se, porém, eu for, eu vo-lo enviarei” (João 16.7). Ele prometeu dons aos homens. “Aquele que desceu é também o mesmo que subiu acima de todos os céus, para encher todas as coisas. E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres,   com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo” (Efésios 4.10-12). O que Jesus prometeu, ele cumpriu. O Espírito Santo foi enviado no dia de Pentecostes. Ele é nosso guia e Consolador. Ele concede dons aos homens e os torna aptos para todo o trabalho no reino de Deus.  O Espírito Santo atua até agora.
     7. Intercede - Jesus intercede por nós como nosso sumo sacerdote. “Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo” (1 João 2.1 RA). “Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós” (Romanos 8.34 RA).
     8. Governa - Jesus, governa poderosamente como rei. No reino do poder, governa com poder irresistível sobre todas as coisas a favor de sua igreja. No reino da graça, governa com graça sobre seus fiéis, perdoando abundante e diariamente os pecados a seus fiéis. Mas sua igreja, enquanto aqui na terra, ainda está em humilhação, em lutas e fraquezas, exposta a sofrimentos e perseguições (Hb 11). No reino da glória, coroa os fiéis com a glória celestial por toda a eternidade. “Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra” (Mateus 28.18). “Através de muitas tribulações, nos importa entrar no reino de Deus” (Atos 14:22). “O Senhor me livrará também de toda obra maligna e me levará salvo para o seu reino celestial. A ele, glória pelos séculos dos séculos. Amém!” (2 Timóteo 4.18).
     9. A glória - Aguardamos o momento de entrar na glória. Já conhecemos esta glória pela palavra e a temos em fé. Em breve, quando Jesus nos chamar ou se tivermos o privilégio de ver sua volta em vida, passaremos do crer para o ver. Ele disse: “Eu lhes tenho transmitido a glória que me tens dado, para que sejam um, como nós o somos; eu neles, e tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade, para que o mundo conheça que tu me enviaste e os amaste, como também amaste a mim. Pai, a minha vontade é que onde eu estou, estejam também comigo os que me deste, para que vejam a minha glória que me conferiste, porque me amaste antes da fundação do mundo” (João 17.22-24). Que palavras maravilhosas, consoladoras e cheias de esperança. Não é de se admirar que, ao lermos estas palavras, exclamamos como o apóstolo Paulo: “Ora, de um e outro lado, estou constrangido, tendo o desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor” (Filipenses 1.23).
     10. Fiéis - Mas enquanto aguardamos a manifestação de sua glória, o passar do crer para o ver, queremos ser fiéis (Ap 2.10) na fé e abundantes em toda a obra do Senhor (1 Co 15.58), a fim de proclamarmos sua palavra, para a edificação da igreja, enquanto durar o tempo da graça.

 Conclusão  
     A festa da ascensão de Cristo é a grande festa de júbilo pela vitória de Cristo e pelas bênçãos eternas que esta vitória nos traz.
     Que a reflexão sobre a ascensão de nosso Senhor Jesus Cristo nos firme na fé. Nossa razão jamais compreenderá este grande mistério da união das duas naturezas de Cristo, a divina e a humana. Cumpre-nos, no entanto, louvar e adorá-lo pela magnífica obra da salvação. Jubilamos porque ele nos libertou da terrível escravidão do pecado, da morte e de Satanás. Jubilamos em esperança porque, mesmo andando aqui na terra ainda sob a cruz e em humilhação, expostos aos sofrimentos, às injustiças e muitas vezes a cruéis perseguições, não tememos. Sabemos que Jesus, nosso irmão na carne, nos libertou e em breve veremos a glória que ele tem preparado para os seus. O novo céu e a nova terra onde não haverá mais injustiça, nem dor, nem tristeza, só alegria sobre alegria, felicidade sobre felicidade e glória eterna (Ap 21.1-5). 
      Mas enquanto durar o tempo da graça, queremos proclamar o evangelho e fazer tudo para que o evangelho seja proclamado para a salvação de muitos. Queremos adorá-lo, confessá-lo, ofertar para formar pastores e missionários, enviar e amparar as missões, zelar para que haja literatura cristã. E orar por todos estes trabalhos. 
     Celebremos o seu nome como os anjos nos céus que clamam ininterruptamente em grande voz, dizendo: “Ao nosso Deus, que se assenta no trono, e ao Cordeiro, pertence a salvação. Todos os anjos estavam de pé rodeando o trono, os anciões e os quatro seres viventes, e ante o trono se prostraram sobre o seu rosto, e adoraram a Deus, dizendo: Amém! O louvor, e a glória, e a sabedoria, e as ações de graças, e a honra, e o poder, e a força sejam ao nosso Deus, pelos séculos dos séculos. Amém!” (Apocalipse 7.10-12).
 São Leopoldo, 20/04/2014                                                                            
 Horst R.Kuchenbecker



sábado, 4 de abril de 2015

A Ressurreição



A    R  E  S  S  U  R  R  E  I  Ç  à O




CREIO NA RESSURREIÇÃO DA CARNE

Introdução
     A maioria das igrejas cristãs confessa em seus cultos o Credo Apostólico, no qual afirmam: “Creio na ressurreição da carne.”
     A doutrina da ressurreição da carne é doutrina fundamental da fé cristã. O apóstolo Paulo afirma: “Se Cristo não ressuscitou (fato histórico) é vã a nossa pregação e vã a nossa fé, e somos tidos por falsas testemunhas” (1 Co 15.14,15). Sim, “se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens” (1 Co 15.19).
     A doutrina da ressurreição da carne é central na fé cristã. Ela dá sentido à vida, força na luta contra o pecado, consolo nas aflições e enche a alma de alegria e esperança.
     A base desta doutrina é a palavra de Deus. Somente a palavra de Deus. Importa ouvir e estudá-la. Queremos humilhar-nos à poderosa palavra de Deus, porque a doutrina da ressurreição da carne não pode ser comprovada pela ciência, nossa razão não pode entendê-la, não posso experimentar ou senti-la. Ela excede ao nosso entendimento. Somente a palavra de Deus pode nos orientar, consolar e encher de esperança com respeito à doutrina da ressurreição da carne.
     Infelizmente, mesmo muitos cristãos, apesar de confessarem: “Creio na ressurreição da carne ...”, já não entendem mais o que significam estas palavras. Daí a importância de focalizarmos, de tempos em tempos, esta importante doutrina. Isto nos leva às pergunta: O que é a morte? Há vida após a morte? O que é e em que consiste a ressurreição da carne.
     Todas as pessoas sabem, por sua própria consciência, que a vida não termina com a morte. Mas, o que vem após a morte, que tipo de vida, isto as pessoas não sabem nem podem desvendar. Surgem então as muitas especulações. O resultado disto são as mais diferentes teorias nas diversas religiões.
     Vamos ocupar-nos, portanto, com o tema e focalizar os seguintes itens: 1) Principais teorias errôneas; 2) Única fonte da verdade; 3) Afirmações da Escritura sobre a ressurreição da carne; 4) A ressurreição da carne propriamente dita; 5) Consolo desta doutrina.


I - TEORIAS ERRÔNEAS
     As teorias sobre se há ou não vida após a morte são inúmeras. De tempos em tempos estas teorias mudam de roupagem, mas a raiz é sempre a mesma: o desconhecimento da palavra de Deus e a incredulidade; sim, a inimizade contra Deus.
     As teorias que rejeitam a palavra de Deus podem ser dividas em dois blocos: materialistas e espiritualistas.

1.1 - Materialistas - Os materialistas afirmam que tudo é matéria e/ou energia. Tudo é passageiro. Com a morte tudo acaba. O importante é viver a vida aqui e aproveitá-la. Esta teoria busca provas na ciência. Só aceitam o que a ciência pode comprovar. Daí sua filosofia de vida: “Comamos e bebamos, porque amanhã morreremos” (1 Co 15.32; At 17,18). Sem dúvida, a ciência tem sua razão de ser. Deus ordenou aos homens: “Sujeitai a terra”(Gn 1.28). Mas, ciência sem o temor de Deus é um desastre. “Pois, o temor do Senhor é o princípio do saber” (Pv 1.7). A ciência deve estar sujeita às verdades divinas, expressas na Bíblia.

1.2 - Espiritualistas - Os espiritualistas, ao contrário dos materialistas, afirmam que a personalidade ou o espírito da pessoa é eterno; a matéria é passageira.
     Nesta linha encontramos os espíritas, algumas filosofias orientais, certos ramos do cristianismo e da Nova Era.
    a) Espíritas - Os espíritas, mesmo que divididos em muitos ramos com teorias diferentes, valorizam o espírito sobre a matéria. Dizem que a matéria é a vestimenta que aprisiona o espírito. A morte é benfeitora, pois ela liberta o espírito da matéria. Falam em diversas reencarnações. No oriente, Índia por exemplo, ensinam a reencarnação em animais; no ocidente falam em reencarnações só em pessoas. Dizem que pelas reencarnações o espírito é purificado até alcançar a perfeição e poder achegar-se ao espírito superior. Inferno não existe. Procuram explicar as diferenças sociais (saúde e doença, riqueza e pobreza) pela teoria: “Aqui se faz, aqui se paga.” Se alguém passa por privações nesta vida, é porque fez coisas ruins nesta vida ou em vidas anteriores. Todo o sofrimento é pagamento por males cometidos. O sofrimento purifica. Conforme a doutrina da reencarnação, a pessoa sempre tem mais uma oportunidade para corrigir erros do passado e se purificar. Além disto, ensinam que os espíritos que vagueiam pelo espaço, participam da vida presente. Os médiuns e pessoas sensitivas podem servir de intermediários. Podem comunicar-se com os espíritos e solicitar o auxílio deles para resolver problemas. - A Bíblia ensina que há uma só vida e após, o juízo; que a salvação não é por méritos, mas pela graça de Cristo. Deus também proibiu consultar os mortos. “Não se achará entre ti quem faça passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro; nem encantador, nem necromante, nem mágico, nem quem consulte os mortos; pois todo aquele que faz tal cousa é abominação ao Senhor, e por estas abominações o Senhor teu Deus os lança de diante de ti”(os castiga) (Dt 18.10-12). Pois, “aos homens está ordenado morrerem uma só vez e, depois disto, o juízo, assim também Cristo, tendo-se oferecido uma vez para sempre para tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o aguardam para a salvação” (Hb 9.27; Ap 22).

b) Distorções cristãs - Os Adventistas do Sétimo Dia ensinam que na morte corpo e alma vão para a sepultura e dormem até o dia do juízo final. Então Deus levantará a alma da morte. Há, também, ramos evangélicos, que negam a imortalidade da alma, ou afirmam a superioridade do espírito sobre a matéria, dizendo que na morte o espírito sobrevive e Deus o reveste logo após a morte. A matéria volta ao pó de onde não retorna, e que os incrédulos serão totalmente extintos. A isto soma-se também os que defendem o arrebatamente. Afirmam que por ocasião da volta da primeira volta de Cristo, haverá também a primeira ressurreição dos fiéis, que reinarão com Cristo aqui na terra, por mil anos. Todas estas teorias são distorções da palavra de Deus. A Bíblia ensina que Cristo voltará em glória no dia do juízo final para julgar vivos e mortos. Naquele dia, todos ressuscitarão. Isto é, todos os corpos serão levantados. A terra, o mar e o ar devolverão seus mortos. Uns ressuscitarão para a vida eterna, outros para a eterna condenação (Mt 25.46).

c) Nova Era - O sonho da Nova Era é estabelecer um império único, mundial de paz, no qual não existam mais fronteiras, sendo todos irmãos e tendo todos a mesma religião. Neste reino se destacará a superioridade da razão humana (gnose). O homem é seu próprio deus ou parte dele. Esta teoria é uma imitação satânica do reino de Deus. A Nova Era busca este objetivo no campo político e religioso. No religioso afirmam: Ninguém é dono da verdade. Há um só ser superior ou energia superior. Todas as religiões são boas e têm seu lado positivo e bom. Não existe verdade absoluta. O importante é o amor, não a doutrina. O homem é parte de Deus, é Deus.

d) Gnose - Conhecimento. O movimento gnóstico é o movimento da razão humana. Napoleão Bonaparte afirmou: “ O que o homem pode conceber, isto poderá realizar.” Usamos só pouca porcentagem de nossa capacidade mental. Vamos aprender a usá-la melhor, experimentar, sentir, migrar com nosso espírito para fora do corpo. O movimento gnóstico enfatiza: a ciência, a filosofia, a arte e a mística. O espírito deve buscar contactos extra corpóreas com outros espíritos. São os movimentos da Ciência Cristã, movimentos do pensamento positivo, o Método Silva de Controle Mental (Silva Mind Control), etc.

Conclusão - De pouco nos aproveita detalhar as raízes destas vãs filosofias. Jesus afirmou: “Errais, não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus (Mt 22.29). Por isso, vamos à fonte, pois o que importa é conhecer a palavra de Deus.

II - A FONTE DA VERDADE
     Posso ter certeza sobre a vida após a morte? Onde posso encontrar a verdade? Os espíritas afirmam: Não há livro sagrado. A vida é um mistério. Temos revelações parciais de espíritos, médiuns e profetas. A Bíblia só contém parte da verdade. Afirmam que João Batista foi a reencarnação de Elias, etc. Por não terem compromisso com a palavra de Deus, eles extraem da Bíblia as doutrinas que querem.
     A segunda linha são os evangélicos que afirmam: A Bíblia contém a palavra de Deus. Com isto abrem a porta a inúmeras teorias. Interpretam a Bíblia com sua razão. Eles jogam afirmações de um apóstolo contra outro apóstolo, ou afirmações do Antigo contra o Novo Testamento.
     Ao lado deles temos os católicos que aceitam a Bíblia, mas não como a única palavra de Deus. Eles colocam  a autoridade do Papa e dos Concílios ao lado da Bíblia. Ensinam, como os mórmons, que na eternidade ainda há a possibilidade de alguém remir-se de seus pecados (Purgatório). Lutero constatou: “Está provado que papas e concílios erram.” Com os católicos estão os pentecostais que colocam ao lado da Bíblia revelações especiais (subjetivismo), que frequentemente desinterpretam e até contradizem as afirmações da Bíblia.
     Qual a posição bíblica? A Bíblia é palavra por palavra a única, inspirada, infalível, inerrante, clara e pura palavra de Deus. A Bíblia se interpreta a si mesma. Ela é a única autoridade em matéria de fé e de vida. Quem não a aceitar como tal e não a respeitar, não pode ter certeza de nada. Ao mesmo tempo é preciso lembrar que, quem não tiver esta convicção, com esta pessoa não podemos discutir religião. Pois quando argumentamos com a palavra de Deus, a pessoa, não tendo compromisso com a palavra de Deus, não aceitará os argumentos da palavra de Deus e contra argumentará com a razão ou a opinião de pessoas, da maioria ou com outras revelações, etc. A uma pessoa que não aceita a autoridade da palavra inspirada da Bíblia, só podemos proclamar a palavra de Deus para testemunho, na esperança de que ela dê lugar à palavra e ao Espírito Santo, “se converta de seu mau caminho e viva” (At 21.17).
     Uma vez clarificada a fonte em que baseamos a certeza da doutrina da  ressurreição, podemos contemplar esta tão consoladora doutrina.

III - AFIRMAÇÕES DA ESCRITURA SOBRE A RESSURREIÇÃO
     Ao nos aproximarmos da doutrina da ressurreição, queremos fazê-lo com “temor e tremor” (Is 6.2), e a súplica: Senhor Jesus, leva nossa razão cativa à tua palavra, pois o mistério da ressurreição da carne excede à nossa compreensão.
     Contemplando a história da ressurreição de Jesus, ficamos impressionados com a incredulidade dos próprios discípulos de Jesus e a rápida aceitação do fato pelos inimigos de Cristo. Os inimigos de Cristo logo se lembraram das palavras de Cristo sobre sua ressurreição e temeram a possibilidade. Eles procuraram impedir a ressurreição, colocando guardas no sepulcro (Mt 27.62-66). E quando os soldados lhes trouxeram a notícia da ressurreição de Jesus, os fariseus não duvidaram, nem correram para a sepultura a fim de se certificarem do fato. Eles estavam tão certos do fato que, em sua inimizade contra Cristo, planejaram combater a verdade, semeando a mentira. Pagaram alto preço aos soldados para que mentissem ao povo. Enquanto isso, os discípulos, mesmo tendo ouvido de Jesus várias vezes a afirmação de que ele haveria de ressuscitar no terceiro dia, conforme profetizado no Antigo Testamento, não creram (Mt 16.21; 17.9; Sl 16.10; Mt 12.40; Jo 20.9). Custou-lhes acreditar. Foi necessário que o próprio Senhor Jesus lhes aparecesse várias vezes e lhes abrisse o entendimento para crerem (Mt 28.17). De fato, ninguém pode crer por “própria razão ou força” em Cristo e na doutrina da ressurreição. Esta doutrina é totalmente contrária à  razão. É preciso que o próprio Jesus e o Espírito Santo nos convençam, abram nossa mente, gerem a fé e nos mantenham nesta fé. E Deus quer fazê-lo por sua palavra e seus sacramentos. Esta graciosa ação de Deus Espírito Santo de nos abrir os olhos e nos levar à fé, a Bíblia chama de renascimento e de a primeira ressurreição (Ap 20.5). A fé cristã é a nova vida, a vida espiritual. Mas, antes de falarmos da doutrina da ressurreição, é preciso clarificar o que é o ser humano, o que é a morte, como a morte foi vencida e então detalhar a pergunta: Em que consiste a ressurreição da carne?

3.1 - Que é o homem? - Deus formou o homem do pó da terra. Por isso ele se chama Adão (terra). Disse Deus: “Façamos (nós, a Trindade) o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gn 1.26). “Deus (Jesus, Jo 1.2) formou o homem do pó da terra, e lhe soprou nas narinas o fôlego da vida, e o homem passou a ser alma vivente”(Gn 2.7). Olhando, no entanto, com a razão para o curso da vida de uma pessoa e de um animal, não vemos diferença, exceto o fato de o homem ser um animal racional, e ambos voltam ao pó da terra. Por isso diz Salomão: “O que sucede aos filhos dos homens, sucede aos animais; o mesmo lhes sucede: como morre um, assim vemos o outro” (Ec 3.19-121). Mas, olhando para o que Deus diz sobre a criação, vemos que Deus deu ao homem algo mais do que só um corpo material. O homem recebeu o fôlego da vida diretamente de Deus. O homem foi criado alma vivente. Deus lhe deu uma alma, ou espírito (Cf.: Ex 12.7; Lc 23.43; Lc 16.22,23; Fp 1.23; 2 Co 5.8; Mt 10.28; Lc 23.46; At 7.58; Ec 3.1-3). O que é a alma ou o espírito do homem? Ninguém o pode explicar. Deus é Espírito (Jo 4.24). Anjos são espíritos (Hb 1.14). Nós, seres racionais, só podemos analisar o que vemos e sentimos. O invisível foge à nossa compreensão. Cabe-nos aceitar e confiar naquilo que Deus nos diz em sua palavra. Por isso cremos que somos corpo e alma. E o que é a alma? É a sede dos sentimentos, do ânimo. A alma está intimamente ligada ao corpo, que é sua casa (2 Co 5.1). A alma atua pelo corpo e pelos sentidos (1 Co 13.11). A alma age pelo corpo e pelos órgãos do corpo. E Deus se comunica conosco pelos sentidos da razão. “A fé vem pelo ouvir e o ouvir da palavra de Deus” (Rm 10.17). “Abriu-lhes o entendimento para compreenderem as Escrituras” (Lc 24.17). Por natureza, devido ao pecado original, somos em coisas espirituais cegos, mortos e inimigos de Deus (Rm 1.28; Ef 4.17; Ef 2.5; 1 Tm 6.5; 2 Tm 3.8; Tt 1.15). A alma está tão ligada ao corpo e toda sua percepção depende do corpo. O apóstolo Paulo afirma: “ Como crerão naquele de quem nada ouviram” (Rm 10.14). Mesmo que Deus nos tenha amarrado à sua palavra, ele, na verdade, está livre para agir quando, como e onde quer. O apóstolo Paulo fala disto em 2 Co 12.2-4. O Espírito Santo atuou em João Batista, quando ele ainda estava no ventre materno (Lc 1.44). Satanás também procura agir nas pessoas. Ele domina nos que lhe pertencem e tenta os cristãos constantemente, tendo em nossa carne um forte aliado (1 Pe 5.8; 1 Co 6.18; Gl 5.16-26). Se alguém sede às tentações, Satanás volta a fazer habitação naquela pessoa (Lc 11.25; Ef 6.12).
    Assim a grande diferença entre homens e animais está nisto que o homem recebeu uma alma, conforme a imagem divina (Gn 1.27), e tem uma relação única com Deus. Ele é servo e administrador de Deus em relação às outras criaturas (Sl 8.5-8).

3.2 - A morte - Deus colocou os homens no jardim do Édem. Ali estava a árvore do conhecimento do bem e do mal. Não era uma árvore especial, mas uma árvore determinada por Deus. “Do conhecimento do bem e do mal,” no sentido de revelar se o homem seria fiel a Deus ou não. Deus disse a Adão e Eva: “No dia em que dela comeres, certamente morrerás.” (Gn 2.17). Isto não era uma ameaça, mas uma séria indicação sobre o que acontecerá se desobedecerem. Deus não estava coagindo à obediência. O homem era bom. Ele tinha o bem-aventurado conhecimento de Deus e possuía o livre arbítrio. Se desobedecesse, perderia o estado de graça e bem-aventurança e seria eternamente separado de Deus. Infelizmente, Adão e Eva, tentados por Satanás, de livre e espontânea vontade desobedeceram a Deus. O apóstolo Paulo afirma: “Por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte; assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram” (Rm 5.12). O pecado fez e faz separação entre Deus e os homens (Is 53.60). Deus não criou o homem para a morte e sim para a vida. Após um tempo, se o homem não tivesse desobedecido, comeria da “árvore da vida” (Gn 3.22) e passaria para a vida eterna (Pv 3.18; Ap 2.7). Também esta árvore não era uma árvore especial, mas designada por Deus para dar a vida eterna, como hoje o batismo e a santa ceia, os sacramentos que dão a vida eterna como o apóstolo afirma: “O batismo agora vos salva” (1 Pe 3.21; Tt 3.5). O homem foi criado para a vida eterna. A morte não é algo natural, mas uma intrometida. Ela veio por causa do pecado. Ela separa corpo e alma. Ela rebenta o laço mais íntimo na pessoa, o laço entre corpo e alma. O corpo volta ao pó da terra do qual foi tomado e a alma comparece diante do trono de Deus para julgamento, como o afirma a Escritura: “ E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez e depois disto, o juízo” (Hb 9.27). E Jesus disse ao malfeitor na cruz: “ Hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23.43).
3.3 - Como a morte foi vencida? - O pecado separou os homens de Deus. O santo e justo Deus cumpriu sua lei: “Por que no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2.17; Rm 5.18; Is 66.24; Mc 16.16). “Maldito todo aquele que não permanecer em todas as cousas escritas no livro da lei, para praticá-la”(Gl 3.10). Pelo pecado, o homem tornou-se escravo de Satanás. “Aquele que pratica o pecado procede do diabo, porque o diabo vive pecando desde o princípio” (1 Jo 3.8). O pecado tornou o homem réu de morte. “O salário do pecado é a morte” (Rm 6.23). O homem por si, por seus esforços, sua penitência, seus sacrifícios não pode salvar-se. “Nenhum irmão pode salvar outro irmão, seus recursos se esgotariam antes” (Sl 49.7,8).
      Mas Cristo, o eterno Filho de Deus se dispôs salvar a humanidade. Para isto Jesus, o eterno filho de Deus, gerado do Pai desde a eternidade, adotou nossa natureza humana, e veio a nascer da virgem Maria. Como nosso irmão na carne, tomou o nosso lugar. E como substituto de toda a humanidade, ele cumpriu a lei de Deus, pagou pelos pecados de toda a humanidade, venceu o pecado, a morte e Satanás e trouxe o perdão e a vida. A Bíblia afirma: “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16). “Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação. De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos deixeis reconciliar com Deus” (2 Co 5.19,20). “Porque, como pela desobediência de um só homem muitos (os muitos, todos) se tornaram pecadores, assim também por meio da obediência de um só muitos se tornaram justos” (Rm 5.19).  Deus mandou proclamar a salvação à toda humanidade (Mt 2.19-20). Toda a pessoa que der ouvidos à palavra de Deus, se arrepender de seus pecados e confiar na graça de Cristo, tem o que Deus lhe oferece, dá e sela em sua palavra, a saber, perdão, vida e eterna salvação. Pela fé na graça de Cristo a pessoa volta à comunhão com Deus, ao estado de filho de Deus e herdeiro da vida eterna. Como tal aguarda a ressurreição da carne, conforme a promessa de Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo o que vive e crê em mim, não morrerá eternamente” (Jo 11.25-26). Cremos no fato histórico de que Jesus Cristo verdadeiramente ressuscitou da morte. Por isso confessamos no Credo Apostólico: “Desceu ao inferno (para mostrar sua vitória, 1 Pe 3.19), no terceiro dia ressuscitou dos mortos, subiu ao céu e está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso, donde há de vir a julgar os vivos e os mortos.” Esta ressurreição de Cristo é tão importante e consoladora, porque ela prova incontestavelmente: 1) que Cristo é Filho de Deus e verdadeira a sua doutrina; 2) que Deus Pai aceitou o sacrifício de seu Filho para a reconciliação do mundo; 3) que todos os fiéis ressuscitarão para a vida eterna (Rm 1.4; Jo 2.19; 1 Co 15.17; Rm 4.25; Jo 14.19; Jo 11.25,26).

3.4 - Afirmações sobre a ressurreição - A doutrina da ressurreição da carne precisa ser entendida desde a primeira promessa feita por Deus a Adão e Eva. Deus lhes prometeu: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3.15). O que significaram estas palavras para Adão e Eva? Eles haviam caído em pecado. Perderam a santidade original. Eram, agora, réus da eterna condenação. Estavam separados de Deus e tornaram-se escravos de Satanás. Não tinham como fugir da ira divina, nem como recuperar a santidade perdida. Então Deus, por compaixão, se colocou ao lado deles e lhes prometeu salvação. O Salvador os reconciliaria com Deus e derrotaria o pecado, a morte e Satanás. Derrotado o inimigo, teriam novamente de volta a vida. Portanto, haverá ressurreição da carne. Adão e Eva e muitos de seus descendentes apegaram-se a esta promessa. Por isso Jesus afirmou: “Ora, Deus não é Deus de mortos, e, sim, de vivos; porque para ele todos vivem” (Lc 20.38).  Eles creram e falaram desta bênção e vida. Confira: Gn 5.24; 15.15; 22.18; 49.18; Ex 3.6; Dt 32.39; 1 Sm 2.6; Jó 19.25-27; Sal 16.9-11; 17.15; 49.15,16; 68.11; 102.27-29; Os 13.14; Is 25.7,8; 26.19; 51.6; Ez 37.1-4; Dn 12.2; Mt 3.13-4.6.
     Uma das passagens do Antigo Testamento que fala da ressurreição com muita clareza está no livro de Jó. Jó afirma: “Porque eu sei que o meu Redentor vive, e por fim se levantará sobre a terra. Depois, revestido este meu corpo da minha pele, em minha carne verei a Deus. Vê-lo-ei por mim mesmo. Os meus olhos o verão, e não outros; de saudade me desfalece o coração dentro de mim” (Jó 19.25-27). As palavras são claras e dispensam comentários. Jó, em meio à sua grande dor, tendo a morte diante dos olhos, canta, jubila e proclama sua esperança na ressurreição. Em breve, assim pensa, serei pó. Mas este não será o meu fim. Sei que Deus me é misericordioso. Ele me levantará do pó da terra. Jó tem certeza de sua ressurreição e descreve como ela será: com meus olhos, na minha pele verei a Deus. Maravilhoso. Infelizmente a incredulidade tem levado muitos exegetas a distorcerem estas palavras.
     A certeza da ressurreição da carne baseia-se na ressurreição de Cristo. Jesus tomou sobre si os nossos pecados, foi castigado por Deus em nosso lugar, morreu por nós e conquistou a salvação para toda a humanidade. Ora, salvação é a restituição da vida. Esta restituição não seria completa se não houvesse ressurreição da carne. A Escritura confirma com muitas palavras esta verdade.
- O salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus nosso Senhor (Rm 6.23).
- É manifestada agora pelo aparecimento de nosso Salvador Cristo Jesus o qual não só destruiu a morte, como trouxe à luz a vida e a imortalidade, mediante o evangelho (2 Tm 1.10).
- Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram ... Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para a justificação que dá vida (Rm 5.12-18).
     O que esta vida é após a morte vem explicado detalhadamente em 1 Coríntios 15. Nossos pais compreenderam estas palavras corretamente, incluindo as nos credos ecumênicos e nas confissão.

IV - A Ressurreição
    Vamos, agora, focalizar algumas afirmações gerais sobre a ressurreição da carne e depois analisar o “como” da ressurreição.

4.1 - Afirmações gerais - “Se habita em vós o Espírito daquele que ressuscitou a Jesus dentre os mortos, esse mesmo ressuscitará a Cristo Jesus dentre os mortos, vivificará também os vossos corpos mortos, por meio do seu Espírito que em vós habita” (Rm 8.11). O que significa esta afirmação: “Vivificará também os vossos corpos mortais?” O que estava morto será vivificado. Os corpos, nos quais aqui, enquanto vivo, o Espírito Santo habitava, esses mesmos corpos serão vivificados. O apóstolo continua no v.23: “E não somente ela (a criação), mas também nós que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo.” O apóstolo afirma que estamos aguardando a redenção do corpo, isto é, que o corpo seja libertado da morte. Portanto, este nosso corpo mortal deverá ser libertado da morte. Como? A morte terá de devolver o corpo. O corpo voltará à vida. Isto é a ressurreição.
     Outra afirmação importante: “O qual transformará o nosso corpo de humilhação, para ser igual ao corpo de sua glória, segundo a eficácia do poder que tem de até subordinar a si todas as cousas.” (Fp 3.21). Nosso corpo humilhado pela morte será transformado e será igual ao corpo de Cristo. O poder de Deus o fará. O apóstolo compara a nossa ressurreição com a ressurreição de Cristo. Olhemos para Cristo. Não foi o mesmo corpo que foi crucificado e deitado na sepultura que de lá levantou? E, por sua especial vontade, manteve, após a ressurreição, as marcas dos cravos, para dar-nos toda a certeza de que é ele mesmo e o mesmo corpo. Jesus tinha dito: “Por isso, o Pai me ama, porque eu dou a minha vida para a reassumir. Ninguém a tira de mim, pelo contrário, eu espontaneamente a dou. Tenho autoridade para a entregar e também para reavê-la. Este mandato recebi de meu Pai! (Jo 10.17,18). O apóstolo  Paulo afirma que Jesus é “a primícia dos que dormem” (1 Co 15.20). Assim a Escritura afirma que os corpos serão ressuscitados. Teremos o nosso corpo de volta. O mesmo corpo que temos agora. Lembramos Enoque e Elias que foram levados com seus corpo ao céu, bem como Moisés que com Elias apareceu corporalmente a Jesus no monte da transfiguração (Mt 17.1-8).
    Temos ainda uma passagem muito interessante no segundo livro de Macabeus. O livro de Macabeus não conta entre os livros canônicos. Ele é bom para a leitura, mesmo não sendo um livro inspirado. Não podemos basear doutrinas nele. Mas há no mesmo um relato interessante. É uma história cruel. Um jovem judeu está para ser torturado e morto. Antes de lhe cortarem a língua e as extremidades dos membros do corpo, ele dá o seguinte testemunho: “Do céu recebi estes membros, e é por suas leis que os desprezo, pois espero dele recebê-los novamente ( 2 Macabeus 7.11). Confira outras afirmações bíblicas sobre a ressurreição: Jo 5.21; 6.29,40,44,45; At 24.15,21; 26.8; Rm 4.7; 1 Co 6.14; 2 Co 1.9; 4.14; Fp 3.11; 1 Ts 4.16.
     Em resumo: A morte terá de devolver os seus mortos desde Adão e Eva até a ultima pessoa que falecerá antes do juízo final. O mesmo corpo que voltou ao pó da terra se levantará, será refeito pelo poder de Deus. Mas, como ressuscitarão os mortos?

4.2 - Como ressuscitarão os mortos e com que corpos? - O apóstolo Paulo escreve: “Carne e sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção” (1 Co 15.50). O que significam estas palavras? Não há aqui uma contradição? Afirmamos que na ressurreição se levantará o nosso corpo, o mesmo corpo. E o apóstolo afirma que “carne e sangue não podem herdar a vida” (1 Co 15.50). Como? Ele explica: “A corrupção não pode herdar a incorrupção.” A palavra corrupção aparece nos seguintes textos bíblicos: Rm 8.21; 2 Pe 2.12; l Co 15.42; Cl 2.22; Gl 6.8; 2 Pe 1.4; 2.19) e significa, sem dúvida alguma, o pecado original. O pecado original é o pecado que herdamos de Adão e Eva. Também a expressão: “As obras da carne” (Gl 5.19), tem este sentido, como frutos do pecado original. Por isso Jesus afirma: “Do coração procedem os maus pensamentos” (Mt 15.19). Portanto, o corpo, assim corrompido pelo pecado, não pode herdar o céu. Como fiéis em Cristo temos, na verdade, o perdão, mas o pecado ainda está nós. Somos simultaneamente santos e pecadores.  Quando morremos, completa-se em nós a ação do batismo, nosso “velho homem” é definitivamente afogado e morto. E, quando ressuscitamos, ressuscitaremos sem o pecado. E tudo o que o pecado estragou nos fiéis, será afastado. O apóstolo Paulo fala disto em 1 Co 15, 35 a 50. No versículo 35, onde levanta a pergunta: “Como ressuscitarão os mortos? e com que corpos?” Em primeiro lugar o apóstolo responde a pergunta: Como é possível? E responde: “Insensatos! o que semeias não nasce, se primeiro não morrer?” (v.37). Pelo exemplo da semente, o apóstolo mostra que é preciso morrer primeiro, para então reviver. Se isto acontece com a semente, seria impossível para Deus fazer isto com nosso corpo? “Para Deus não haverá impossíveis em todas as suas obras” (Lc 1.37). Ele o determinou assim. O seu poder o realizará.
     Mas, com que corpos ressuscitarão? E responde: “Quando semeias, não semeias o corpo que há de ser, mas o simples grão” (v.37). Semeia-se o grão. Este grão germina e dele nasce uma planta que é a mesma matéria, mas suas qualidades são bem diferentes. Deus deu àquela planta, àquela matéria um corpo novo, com novas qualidades. Isto é uma comparação. Algo semelhante acontece na ressurreição. Em resumo: na ressurreição teremos o nosso próprio e mesmo corpo, o corpo que tivemos aqui em vida. Agora purificado do pecado original e de todos os pecados, e adornado com novas qualidades. Você se reconhecerá como sendo você mesmo. Que beleza. Toda corrupção, todo o pecado, tudo o que o pecado estragou será afastado e seremos revestidos com glória e esplendor, e novas qualidades para a vida no “novo céu e nova terra” (Ap 21.1).
     O apóstolo Paulo entra em maiores detalhes: “Nem toda carne é a mesma” (v.39). Há exemplo disto na natureza. A mesma carne, da mesma matéria, mas diferente. Assim será na ressurreição.
     Outro exemplo: “Corpos celestes com glória diferente” (v.40). Então o apóstolo passa para a aplicação da verdade: “Assim também é a ressurreição” (v.42). Veja, assim como Deus faz da mesma matéria criaturas diferentes em sua forma, aparência e glória; assim o fará no dia da ressurreição com o nosso corpo. Semeia-se. Você será sepultado. O que vai à terra é o corpo corruptível, corrompido pelo pecado, desonrado. Mas ressuscitará na incorrupção. Quão diferente será o corpo.
     E mais: “Semeia-se corpo natural, ressuscitará espiritual” (v.44). O apóstolo Paulo fala aqui de dois corpos, um natural e outro espiritual. O que significa isto? Quando Deus criou Adão e Eva, deu-lhes uma alma vivente e os colocou no jardim do Édem. Ali deveriam viver. Multiplicar-se e cultivar o jardim. Estavam sujeitos às leis terrenas. Tinham um corpo natural. Isto é, uma natureza apropriada para a vida nesta terra, sujeita às leis desta terra. A queda em pecado corrompeu o homem e trouxe aflições e morte.
     O apóstolo diz também que há corpo espiritual. Deus não criou o homem somente para a vida aqui na terra, mas para a vida eterna. Por isso havia no jardim do Édem também a árvore da Vida. Se o homem não tivesse pecado, após um período de vida, Deus lhes daria ordem para comer da árvore da Vida, a fim de ser transformado e passar para a vida eterna. Mas o pecado estragou tudo. Para nos redimir do pecado, Jesus veio ao mundo, o segundo Adão, o Filho de Deus. Ele nos reconquistou a vida espiritual. Agora temos corpo natural, depois virá o corpo espiritual. Isto é, Deus dará ao nosso corpo novas qualidades para vivermos diante da face de Deus que é espírito e dos anjos que são espíritos, no céu, onde há outras leis de existência. Agora temos um corpo apto para a vida nesta terra. Na ressurreição, Deus dará ao nosso corpo qualidades espirituais para a vida no céu junto com ele. Como serão estas qualidade? Ninguém consegue imaginar nem descrever. O apóstolo afirma: “Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque havemos de vê-lo como ele é” (1 Jo 3.2). Estaremos comendo e bebendo com Abraão, os apóstolo e Jesus. “Digo-vos que, desta hora em diante, não beberei deste fruto da videira, até aquele dia em que o hei de beber, novo, convosco no reino de meu Pai” (Mt 26.29). Com esta palavra Jesus nos mostra que o céu será maravilhoso. De nada adiantam especulações se precisaremos ou não comer e beber no céu.
     Concluindo, vimos duas coisas: Nosso corpo será ressuscitado. Ao ressuscitar, os fiéis estarão livres da corrupção. Em segundo lugar, os fiéis serão revestidos de novas qualidades, qualidades para poderem viver no lar celestial, junto com Deus. Serão qualidades celestiais, espirituais. Confira ainda: Fp 3.20; Lc 24.34-37; Rm 8.23,29; Mt 13.43; 1 Jo 3.2).
     Precisamos dizer ainda alguma coisa sobre aqueles que viverão até o dia do juízo final. Temos duas palavras que abordam o assunto. “Ora, ainda vos declaramos, por palavra do Senhor, isto: nós, os vivos, os que ficarmos até à vinda do Senhor, de modo algum precederemos os que dormem. Porquanto o Senhor mesmo, dada a sua palavra de ordem, ouvida a voz do arcanjo, e ressoada a trombeta de Deus, descerá dos céus, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro, depois nós, os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com eles, entre nuvens, para o encontro do Senhor nos ares, e assim estaremos para sempre com o Senhor” (1 Ts 4.15-17).” Eis que vos digo um mistério. Nem todos dormiremos, mas transformados seremos todos, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao ressoar da última trombeta” ( 1 Co 15.51-53). O que diz esta palavra de Deus? Ela diz que os vivos estarão ao lado dos ressuscitados, diante do trono de Jesus. Mas com que corpos? Seus corpos serão imediatamente transformados e adornados. Assim estarão ao lado dos ressuscitados na mesma glória. Este é o arrebatamento, que muitos interpretam erradamente, colocando-o antes do juízo final. O que não concorda com as demais afirmações da Bíblia.
     Mas, o que acontecerá aos que não creram? As pessoas que morreram sem fé, também serão ressuscitados (ou se colhidos pelo dia do juízo final sem fé, transformados) pelo poder de Deus, mas para juízo e condenação. Seus corpo não serão purificados. Serão “um horror para toda a carne” (Is 66.24), “ vergonha e horror eterno” (Dn 12.2). Confira ainda: At 4.11,12; Jo 3.36; Sl 49.15; 1 Jo 3.14; Is 66.24; Mc 16.16; At 24.15; Jo 5.28,29; Dn 12.2).

O  céu
“Hoje estarás comigo no paraíso! (Lc 23.43)
     Um diálogo impressionante na cruz. Um dos malfeitores, que no início também zombou de Jesus (Mt 27.44), que, ouvindo as palavras de Jesus na cruz, de repente chega a uma outra conclusão. Reconhece que merece o castigo, repreende seu companheiro, reconhece Jesus como filho de Deus e lhe suplica: “Lembra-te de mim quando entrares no teu reino” (Lc 23.42). Que coragem, pedir que seu nome sujo seja lembrado no reino dos céus. Ainda mais surpreendente é a resposta de Jesus. “Em verdade, te digo que hoje estarás comigo no paraíso.” O que Jesus está lhe dizendo, ele o afirma sob juramente: “Em verdade! Eu te digo hoje estarás comigo no paraíso.” Jesus não diz: Eu acho, talvez, espero. Não. Sua afirmação é categórica: Tu vais estar comigo no paraíso. Jesus não lhe prometeu alívio dos sofrimentos, mas algo muito maior, o paraíso, após os sofrimentos. O que é paraíso? Pouco depois Jesus exclama: “Pai, nas tuas mais entrego o meu espírito.” O paraíso é estar diante e com o Pai celestial, nas mãos de Deus Pai.
     Que mudança. De uma vida de bandido, condenado, encarcerado, crucificação para a presença de Deus, no paraíso. Esta promessa Jesus a disse de muitas formas, por exemplo? “Para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16). “Eu vivo e vós, vós também vivereis” (Jo 14.19).
     Viver no paraíso. O malfeitor, sua alma, seu ser, estará no paraíso. Todos seus pecados foram perdoados. Ele foi revestido do manto branco da justiça de Cristo. A justiça de Cristo o perpassa completamente. Ele comparece diante de Deus Pai, lavado, purificado, santo. E verá sempre a face do Pai celestial. Estará em comunhão com o Pai, em bem-aventurada comunhão. Não haverá mais desejos egoístas, pensamentos maus no coração, nem inveja, nem ciúmes. Para nós, de momento, algo inimaginável. Seremos como os anjos (Mt 22.30).
     Mas e o seu corpo? Seu corpo aguardará a ressurreição, o grande dia do Juízo Final. No qual Deus criará o novo céu e a nova terra, na qual habitará justiça para sempre. Nela não haverá mais dor nem morte, somente eterna bem-aventurança.
    Que tipo de espera pela ressurreição do corpo é essa? Nós aqui contamos dias, anos e séculos, mas na eternidade não existe tempo. “Um dia é como mil anos, e mil anos como um dia” (2 Pe 3.8) Também isto foge à nossa compreensão.
     Na ressurreição, todos receberão de volta o seu corpo. Os incrédulos para horror eterno (Dn 12.2), os fiéis para a vida eterna (Dn 12.2; Jo 5.28,29). Morte e pecados são afastados definitivamente dois fiéis. Seu corpo será revestido de perfeição e glória, conforme vimos de 1 Co 15.
     “Aquele que dá testemunho destas coisas diz: Certamente venho sem demora. Amém. Vem, Senhor Jesus” (Ap 22.20).    

Conclusão
     Vimos a gloriosa doutrina da ressurreição. Que proveito temos dela? Vimos que Cristo “morreu pelos nossos pecados e ressuscitou para nossa justificação” (Rm 4.25). Pelo batismo nos tornamos participantes da morte e ressurreição de Cristo e, enquanto permanecermos na fé na graça de Cristo, somos membros do corpo de Cristo, pois fomos enxertados no corpo de Cristo (1 Co 12.12-31). Ouçamos o que o apóstolo Paulo diz a respeito: “E juntamente com ele nos ressuscitou e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus” (Ef 2.6). “Tendo sido sepultados juntamente com ele no batismo, no qual igualmente fostes ressuscitados mediante a fé no poder de Deus que o ressuscitou dentre os mortos” (Cl 2.12). “Portanto, se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as cousas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus” (Cl 3.1). Esta fé é alimentada e fortalecida pela palavra de Deus e a participação do sacramento do altar, que nos dá forças para proclamar sua morte até que ele venha. No momento de nossa morte, nosso velho homem, nossa natureza pecaminosa é definitivamente afogada e morta. Na ressurreição, nosso novo homem será refeito em sua plenitude e teremos o mesmo corpo, mas adornado com qualidades celestiais, apto para viver diante de Deus em perfeita justiça e santidade, no novo céu e na nova terra.
     Ser cristão, por isso, não significa simplesmente crer em algumas doutrinas, procurar viver conforme alguns princípios éticos e dar o melhor de si para o bem estar do próximo. Ser cristão significa ter participado da 1ª ressurreição, a conversão, o renascimento pela fé em Cristo e ser enxertado no corpo de Cristo para uma vida com Deus, neste mundo e na eternidade. E, enquanto aqui na terra, ser engajado na luta contra o reino das trevas. Em Cristo nossa vida adquire novo propósito de vida. Mesmo em meio ao sofrimento somos consolados. A esperança da glória perpassa todos os momentos e nos enche de força, consolo e esperança (Lc 21.16-18). Por isso o apóstolo Paulo, após ter falado sobre a ressurreição da carne, ordena: “Consolai-vos uns aos outros com estas palavras” (1 Ts 4.13). Sim, estas palavras nos consolam. Dizemos com o apóstolo Paulo: “Porque, se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. Quer, pois, vivamos ou morramos, somos do Senhor” (Rm 14.8,9).
                                                                         
                                                                          São Leopoldo, Páscoa 2015
                                                                             Horst R. Kuchenbecke