quarta-feira, 27 de julho de 2016

500 Anos da Reforma Luterana - VI

VI - A ideia de celebrar a Reforma?

      Para Lutero, o dia 31 de outubro, foi um árduo dia de trabalho. Ao meio-dia fixou as 95 teses na porta do Castelo de Wittenberg [1]. À noite pregou na igreja do Castelo sobre as indulgências. Nem imaginavam em que tudo isso iria dar. Mas deve ter ido dormir com a sensação de dever cumprido.
     Dez anos depois, no dia 1 de novembro de 1527[2], Lutero reuniu seus amigos e lhes disse: Hoje é um dia de gratidão a Deus por ter-nos guiado e dado forças para escrever e afixar as teses, e por tê-las abençoado tão ricamente. (Tischreden) A partir dessa data começou-se a celebrar a Reforma.  
     Vamos rever, mesmo com brevidade, as celebrações nos diversos centenários, seu fundo político, seu quadro religioso e as celebrações.

          6.1 -- O primeiro centenário, 31 de outubro de 1617
     O quadro político do primeiro centenário era sombrio. A guerra dos 30 anos (1618 a 1648) estava por eclodir. As forças políticas, com muitos rumores, já estavam se movimentando. Os fiéis estavam com medo do que viria. Muitos haviam abandonado os princípios da Reforma. Por parte dos católicos se ouvia: Os Luteranos não têm nada a festejar; eles deveriam se arrepender e voltar à igreja mãe.
     Mesmo assim, os cristãos fiéis aos princípios da Reforma promoveram uma grande celebração. Celebração de gratidão pelo Jubileu da Reforma, o que incluía também a lembrança da entrega da Confissão de Augsburgo, em 25 de junho de 1530.
     O Der Lutheraner[3] de outubro de 1917 publicou um resumo, do qual extraímos esses dados.
     Por ordem de Johann Georg I, Eleitor da Saxônia de 1611 a 1656, os professores da Universidade de Wittenberg reuniram todos os sermões e palestras dos festejos do 1º Centenária da Reforma Luterana celebrado em Wittenberg, num livro de  427 páginas, sob o título: Christliche Jubelpredigten der Theologen zu Wittenberg, que em sua 2ª parte, de 150 páginas, contém três palestras dos professores: Balduin, Franz e Meisner proferidos na festa na Universidade nos dias 3,4, e 6 de novembro de 1516, em latim. E um poema para a festa de 15 páginas, também em latim.
      Este 1º Centenário da Reforma Luterana foi celebrado também em Jena, por Johann Gerhard, em Ulm, por Konrad Dietrich, que proferiram os sermões jubilares, que foram impressos na época.
     O Eleitor Johann George, havia ordenado três dias de festa, Sexta feira, Sábado e Domingo. Vale apena ler o livro publicado em Wittenberg.
         Dia 26/10, domingo à tarde, para introduzir os festejos, o Dr. Hunius pregou sobre o Salmo 100: Como devemos nos preparar para festejar esta data de forma correta e cristã.
        Dia 30/10, quinta feira, à base do evangelho do 19° domingo de Trindade: A verdadeira razão da Festa e o que pode ser argumentado contra ela, do Superintendente, Balduin.
        Dia 31, sexta feira, o Reitor, professores e doutores da Universidade se reuniram no mosteiro, às 6h da manhã, foram em procissão até a igreja do Castelo, o povo se ajuntou a eles. Esta igreja do Castelo, chamada“Igreja de todos os Santos”, foi construída em 1353. Dr. Franz pregou sobre Daniel 12. Falou sobre a bênção desta grande graciosa obra da Reforma. – Dali seguiram para a Igreja “Sta. Maria” da Cidade (Pfarrkirche). Ali, ainda na parte da manhã, o Dr. Balduin pregou também sobre Daniel 12. Falou sobre: O que o Espírito Santo anunciou muitos anos antes da Igreja Papal de Roma. À tarde, na mesma igreja o Dr. Meisner pregou sobre o Salmo 76. Este venerável teólogo e ancião tinha muito a dizer. Sua pregação foi de 55 páginas. É uma caixa de tesouro da verdadeira doutrina. Seu tema: “A que estado bem-aventurado a Comunidade de Deus foi elevada pela bênção da Reforma”.
       1º de Novembro. Neste sábado, às 6h, o Dr. Franz pregou sobre Apocalipse 14,6,7, na Igreja do Castelo. Ele falou da graciosa obra de Deus pela Reforma, do Dr. Martinho Lutero. A isto seguiu-se, ainda na parte da manhã o culto na Igreja da cidade. O Dr. Balduin pregou sobre o mesmo texto, Ap 14.6,7: A santa obra da Reforma, como ela aconteceu sob a ordem de Deus. À tarde na Igreja da Cidade pregou o Dr. Meisner sobre o Salmo 87. Tema: A Igreja evangélica luterana e seu maravilhoso crescimento.
       2 de novembro. – No terceiro dia de festa, Domingo, 02/11, foi realizado o culto, às 6h, na Igreja do Castelo. O Dr. Franz proferiu o sermão sobre Apocalipse 17.1-6. Tema: A sede de sangue da Igreja Católica e sua fúria. Mas sob a graça de Deus a Igreja da Reforma foi preservada. Segui-se, ainda na parte da manhã, o culto na igreja da Cidade, na qual pregou o Dr. Balduin sobre Apocalipse 14.8-12, sob o tema: Como a Reforma, esta obra de Deus foi preservada, do tempo de Lutero até hoje. Á tarde, o Dr. Hunius pregou sobre Josué, capítulo 24. Ele acentuou: Ouvimos nestes dias a história da Reforma Luterana.  Louvamos a Deus por isso. Com oração fervorosa pedimos a Deus que nos assista por sua graça para preservar este tesouro, para que não o neguemos, que não nos rejeite de sua presença, mas nos fortaleça.
     Em resumo podemos dizer que os destaques foram: 1) É uma festa para relembrar os grandes feitos de Deus; 2) uma festa de louvor e agradecimento a Deus pela restauração do evangelho; 3) uma festa para lembrar este grande milagre da luz nas trevas;  4) uma festa de oração, na qual pedimos que Deus nos conserve sua Palavra; 5) uma festa de arrependimento na qual pedimos perdão pelo desleixo para  com sua Palavra, para que Deus, em sua bondade, nos conceda vida nova, fervor, devoção e apego a sua Palavra, para sermos operosos praticantes, então haverá também júbilo no céu. (Lc 15.10) Estes temas tornaram-se padrão para as festas futuras.    
    

6.2– O segundo centenário, 31 de outubro de 1717
     Há relativa paz política. Cansados das disputas teológicas, surge o iluminismo, a filosofia do Esclarecimento de Immanuel Kant[4]. Em contraposição, surge também o movimento do pietismo dePhipilp Jacob Spener (1635 a 1705) que teve muitos seguidores. Seu tema principal: Em vez de disputas teológicas, importa a teologia prática, a vivência cristã. Ao mesmo tempo, temos Johann Sebastian Bach (1685 a 1750), que, com suas cantatas bíblicas, promove a verdade bíblica.
     Em toda a parte, houve grandes festividades por ocasião deste segundo jubileu.  Na Alemanha temos o rei Frederico II, o Grande, (1712-1786) que impulsionou a filosofia, a arte e expressou seu desejo de unir luteranos e reformados. Idéia essa que foi acentuada por seus seguidores. Na época,Valentin Ernst Löscher, teólogo ortodoxo luterano, uma grande luz, advertiu os luteranos contra as idéias do Pietismo que vieram da Inglaterra para a Holanda e agora invadiam a Alemanha. Ele escreve: Que cristianismo é esse que vem da Inglaterra via Holanda para a Alemanha, que despreza a doutrina, não compreende mais os sacramentos, nem a Igreja que querem renovar, a qual, no entanto, eles estão destruindo.  Ao pietismo seguiu-se, como muitos já haviam previsto, o crasso racionalismo. Ele teve seu início com René Descartas (1596 – 1650) e sua teoria de que a dedução é o melhor método. Esta teoria floresceu na Alemanha com Friedrich Hegel (1171 – 1831), desembocando no comunismo.[5]
     Este segundo centenário se destacou por seus hinos. Martim Rinckart, 1636, compôs o hino: Nun danket alle Gott (Daí graças ao Senhor (HL 150) O rei Frederico mandou reunir todos os programas e pregações, bem como hinos num livro que recebeu o título: Hilaria evangélica (Alegre festa evangélica). Cada Comunidade deveria festejar essa data em sua Igreja. Depois foram programadas grandes e pomposas festas nas principais cidades. As publicações com respeito à festa surgiram um ano depois.
     Também houve festas na Dinamarca, Suécia, Áustria, Hungria, Polônia, Riga, Genova, Inglaterra e Holanda.  
      Os festejos também foram acompanhados pelo triste problema da divisão entre luteranos e reformados, devido a doutrina da Santa Ceia.  Isto se mostrou claramente no sermão festivo daquele ano, proferido pelo prof. de religião e teólogo ecumênico, Abraão Scultetus, que disse:
“Admiro que nossos irmãos, os chamados luteranos (eles são nossos irmãos, se quiserem ou não), pois há anos a doutrina da Santa Ceia foi explicada de forma clara e precisa em escritos e sermões. Eles, no entanto, não querem entendê-lo, pois a loucura da “Presença Real” na Santa Ceia, no pão e no vinho, é a pedra angular sobre o qual repousa todo o arcabouço católico”.[6]
     Os reformados oferecem aos luteranos a comunhão na Santa Ceia e ao mesmo tempo afirmam que a doutrina da presença real não é bíblica. Sermões como estes entristeceram os fiéis.  


6.3 - O terceiro centenário, 31 de outubro de 1817
     Falar do ano de 1817 como ano festivo do 3º Centenário da Reforma Luterana, nos entristece. Houve, na Europa e seus países vizinhos, cultos isolados num e noutro lugar. Quem, no entanto, começou a festejar foi oracionalismo.
     Ao estudarmos a história desse período, dá vontade de entoar Lamentações.  A Reforma luterana perdeu sua glória, sua corroa jazia no pó da história, vencida pelo racionalismo. A razão humana se elevou acima da Escritura e dominava. Seus pastores, doutores e mestres, seus líderes guiados pela razão, o espírito da época se afastavam mais e mais da verdade. Sião estava deitada em cinzas, sua harpa silenciou, de seus corações brotam lamentações (Lm 1.12).
     Como foi possível chegar a esse ponto? Pelo pietismo a razão se infiltrou na igreja. Pietismo e racionalismo têm a mesma base: a santificação em primeiro lugar e doutrina em segundo. Isto levou a um indiferentismo em relação às Confissões.  A orgulhosa razão não se conteve com uma posição de serva, mas exigiu seu direito à casa, a de ser senhora. Ela exigiu o direito de determinar que doutrinas devem valer na igreja. Assim aconteceu que ela se voltou para as doutrinas do pietismo.
   O pietismo não queria esse desfecho. Foram eles, no entanto, que lançaram esta semente que brotou e se expandiu, sufocando as preciosas verdades bíblicas. O racionalismo se manifestou também no luteranismo. De início, de maneira temerosa que, com o tempo, foi ganhando força. Finalmente, levantaram-se pessoas sem escrúpulos que, empenhando a bandeira da liberdade, romperam os laços da fé e da confissão. “Iluminismo” foi sua palavra chave na metade do século 18. Em nome de “Iluminismo”, levantaram sua voz. As pessoas ficaram como que embevecidas e elogiaram esta nova luz que começou a brilhar. Os professores nas universidades, a brilhante ciência, os líderes da literatura, os heróis da filosofia estavam ombro a ombro no combater à Bíblia e às Confissões luteranas.
    Só para citar um exemplo. O pastor Carl M. Zorn, filho de pastor luterano, foi estudar teologia em Leipzig. Seu professor foi o grande exegeta liberal Dr. F. Delitzsch. Zorn formou-se em 1870. No seu ano de prática recebeu a classe de confirmandos que trouxeram sua Bíblia, seu Catecismo e seu Hinário. Ele ficou surpreso e lhe disse: Isto podem deixar em casa, pois já está superado. Nós vamos ter maravilhosas aulas sobre o Universo. Para encurtar a história, a comunidade ficou chocada ao ouvir as novas do estagiário. Mas com paciência, oração, conselhos comedidos do pastor aposentado, levaram o estagiário à reflexão. Sim, a Comunidade o converteu de volta à Bíblia e ao Catecismo. Após ser missionário na Índia, ele foi um excelente pastor na Igreja Luterana Missouri. Naquela época o pastor C.F.W. Walther e outros foram proibidos de batizar em nome do Deus triúno e deveriam fazê-lo pelo trinômio da revolução francesa:  Igualdade, liberdade e fraternidade. 
    Nem todos se deixaram empolgar por esta onda do iluminismo. Sempre houve um pequeno grupo de servos na igreja que ficaram fiéis à Bíblia e Confissões. Sofreram. Pastores foram depostos de seus cargos. Alguns preferiram procurar uma nova pátria na qual pudessem adorar e confessar sua fé em liberdade. Esse foi o caso dos saxões que emigraram para os Estados Unidos da América.[7] Na Europa o número de pastores fiéis foi diminuindo. A verdade: Cristo Jesus, o qual se nos tornou da parte de Deus sabedoria, e justiça, e santificação e redenção (1 Co 1.30), tornou-se cada vez mais rara nos púlpitos.  Os pastores trabalharam somente para melhorar a moral.
    As conseqüências disso não se fizeram demorar. As igrejas ficaram vazias. A vida imoral floresceu. Em lugar de reconhecerem seu erro, eles atribuíram o fracasso do iluminismo ao resto da crendice e da fé que ainda estava no povo. Por isso riscaram todos os artigos de fé: Trindade, pessoa de Cristo, Justificação, Juízo final, etc. A confissão do iluminismo se restringiu a três pontos: Deus, virtude e imortalidade.  Afirmaram: Cabe a nós, pessoas esclarecidas, examinar tudo para ver o que Jesus realmente disse. Jesus, o sábio de Nazaré, filho de sua época, estava preso a vários preconceitos de sua nação, como homem culto adaptou-se a seus conterrâneos. Prever coisas do futuro, a razão sabe que não existe. As profecias precisam ser interpretadas conforme os acontecimentos da época. Também milagres não existem. Nossos exegetas mostraram que os milagres eram procedimentos naturais.  
    O iluminismo precisava ser difundido também entre o povo e quem se opunha era deposto. Por isso começaram a modificar o Hinário, tirando dali confissões, doutrina e a verdade sobre a existência do diabo. O Catecismo Menor de Lutero também era um espinho nos olhos do iluminismo, por isso fabricaram um Catecismo novo, que enaltecia as virtudes e algumas boas obras. Este Catecismo, após alguns anos, foi esquecido. A direção da Igreja, os Consistórios, cuidaram para que pastores fiéis à Bíblia e às Confissões, não recebessem chamados.
      Naquela época a Alemanha era governada pelo rei Frederico Guilherme III (1797 a 1840).  Este rei decretou no dia 27 de outubro de 1817 a união entre luteranos e reformados em seu reino, conhecida até hoje como a União Prussiana, à qual muitos luteranos aderiram, por motivos dos mais diversos. Para compreendermos o que levou o rei Friedrich Wilhelm III a decretar a união, precisaríamos rever o cenário político e religioso daquele tempo, para o que não temos espaço aqui. Vejamos, no entanto, alguns fatos e os escritos do seu decreto da união, para compreendermos o espírito que reinante na época.


Fatos políticos
     A Europa foi muito devastada pela Guerra dos Trinta Anos (1618 – 1648), na qual os católicos queriam exterminar os luteranos. Nesta guerra morreu o Rei da Suécia, Gustav Adolf (1594 – 1632), também o pastor poeta Paul Gerhard foi perseguido (1607 – 1676). Após isso surgiu na Europa um desejo de união, política e religiosa, especialmente entre reformados e luteranos. O primeiro passo foi dado pelo eleitor Friedrich Wilhelm II, o Grande (1712 – 1786). Precisamos lembrar aqui que a Alemanha ainda não era constituída como uma nação, mas dirigida por eleitorados. Muitos aderiram, mas os luteranos confessionais, comprometidos com o Livro de Concórdia não aceitaram o convite. 

O Imperador Friedrich Wilhelm III (1793 – 1840)
     O imperador Friedrich Wilhelm III, decretou a União Prussiana.  Vejamos a proclamação do dia 27 de outubro de 1817. Lemos ali:
     Meus antepassados, que já descansam em Deus, o leitor Johann Sigismundo, o eleitorGeorge Wilhelm, o grande, e o rei Friedrich Wilhelm I tentaram com santa sinceridade unir estas duas igrejas protestantes, a reformada e a luterana, para uma Igreja Evangélica Cristã em nossos Estados. Honrando suas santas intenções, uno-me a eles, neste santo desejo e obra, que naquele tempo, devido ao infeliz espírito sectário, esbarraram em dificuldades intransponíveis. Espero encontrar agora compreensão melhor que afaste as coisas externas (sic!) e dê atenção às coisas principais do cristianismo, a respeito das quais as duas confissões são unânimes e retenham o essencial para a glória de Deus e o bem da igreja cristã.
Nos meus Estados, eu encontrei boa receptividade para isso e espero concretizá-lo, dando com isso início às festividades seculares da Festa da Reforma. A união dessas duas corporações cristãs religiosas, só divididas por questões externas, corresponde às primeiras intenções dos reformadores. Ela está no espírito do protestantismo. Ela é salutar à piedade. Ela será fonte de muitas outras bênçãos que, devido às diferenças confessionais, até aqui, emperram a melhoria das congregações e escolas.  
Esta união tão desejada e tantas vezes tentada em vão, pois os reformados não aceitam os luteranos e os luteranos não aceitam os reformados, quando ambos deveriam se unir e formar uma só igreja evangélica cristã, no espírito de seus fundadores. Não vejo nenhum impedimento ou motivo razoável para a separação, se ambas as partes num sincero e verdadeiro espírito cristão quisessem agir. Disso resultaria um digno louvor que nós devemos à providência divina que nos deu a bênção da Reforma. Na lembrança desta obra deveríamos honrar efetivamente a união. Deveríamos honrar a lembrança desta obra pelo concretizar a união.
No entanto, por mais que eu o desejo que reformados e luteranos compartilhem comigo esta salutar convicção, em respeito a seus direitos e sua liberdade, não me cabe impor isso ou ordenar algo. Pois esta união só terá verdadeiro valor se nem o indiferentismo nem a presunção participarem dela, se ela brotar da livre e própria convicção e não simplesmente por uma união exterior, se ela for uma união de coração, ancorada nos princípios bíblicos e na força desses princípios.
Assim como eu quero celebrar a Reforma nesse espírito, na união da comunidade luterana, como uma comunidade cristã e ir à Santa Ceia, assim espero, que esse meu exemplo seja benéfico e encontre seguidores no espírito e na verdade. Eu deixo isso á liberdade e à sábia condução do Consistório, ao piedoso fervor dos guias espirituais e seus Sínodos, para encontrarem a formulação exterior para aprovação unânime, convicta de que as congregações a seguirão no verdadeiro e sincero espírito cristão. E que em toda a parte onde se olhar sinceramente, sem segundas intenções para o essencial e a grande causa da Escritura, ali se encontrará com facilidade a fórmula, ali brotará o exterior do interior de forma simples e digna por si próprio. Desejo que este momento não esteja mais longe, onde sob um pastor comum, todos na mesma fé, no mesmo amor e uma esperança se unam para um só rebanho.

 Uma nova Agenda (Ordem de Culto)
     Uma nova Agenda, em cuja elaboração o piedoso rei participou com todo fervor, trouxe, por estar baseada no bom modelo da liturgia antiga, nova vida ao culto. Mas ela encontrou rejeição por parte de luteranos confessionais, que temiam por sua Confissão, tanto por parte da União como por parte da Agenda.  Por isso a Agenda foi reeditada em 1829 com modificações e acréscimos. O rei baixou a seguinte ordem em 28 de fevereiro de 1834:
Fiquei com justiça, profundamente chocado que por parte de alguns adversários da paz eclesiástica, devido a interpretações errôneas e opiniões erradas com relação ao objetivo da União e da Agenda a união não alcançou seus objetivos completos.
A União não tem por finalidade a abolição da atual confissão de fé, nem da autoridade que a duas Confissões, a luterana e a reformada, possuem. Pelo apoio à união só visamos expressar o espírito de moderação e brandura em relação às diferenças em alguns pontos doutrinários, para não serem mais motivo para a separação.
A participação na União é de livre decisão de cada congregação ou igreja. É um erro pensar que a introdução da nova Agenda esteja vinculada à entrada na União ou indiretamente concretizada pela aceitação da mesma. A participação na União depende da livre adesão de cada um. A Agenda está relacionada com a União somente no sentido de que a ordem para o culto está prescrita ali, bem como os demais ofícios ministeriais detalhados ali na Agenda, por serem escriturísticos, sem chocar ou provocar reclamações, e que ela pode ser usada por pessoas de ambas as confissões, para a promoção do temor a Deus e da piedade. Os que rejeitam a Agenda e a União, rejeitam a mesma sem argumentos, nem sinceridade. Há liberdade também para cada província que pode fazer suas adaptações.  Os que discordam podem constituir-se em nova organização.
     Os luteranos mais confessionais de Schlesien (Silesia) rejeitaram a União. Então o
governo passou a agir com rigor contra eles. O governo impôs castigos em dinheiro e até prisões.[8]Os luteranos confessionais não se deixaram amedrontar. Vários pastores, diretorias das comunidades e cristãos fiéis foram perseguidos e presos.  No alto da opressão, Deus interveio. Em 1840, o reiFriedrich Wilhelm III e seu cruel ministro da justiça, Altenstein faleceram. Seu filho, imperador Friedrich Wilhelm IV (1842-1888) assumiu o governo. Ele ordenou que todos os pastores e demais cristãos luteranos presos fossem libertados, as multas anuladas. Os luteranos confessionais se quiserem podem se organizar em novo Sínodo. Eles se organizaram e constituíram através do Sínodo em Breslau, no ano de 1841 a Lutherische Kirche in Preussen, independente da Igreja Luterana da Prússia, com um colégio de Conselheiros em Breslau, que pela graça do rei recebeu uma Confissão Geral.[9] 
    Esta ação violenta contra os luteranos ortodoxos fez com que muitos saxões emigrassem para outros países, Estados Unidos da América do Norte, Austrália. Os que ficaram na Europa estão hoje reunidos na Selbständige Evangelisch-Lutherische Kirche (SELK). Naquela oportunidade os saxões, liderados pelo pastor Martin Steffan imigraram para os Estados Unidos, em 1839 e fundaram ali em 1847 Synodo de Missouri, Lutheran Church Missouri Synod (LCMS).
     Os efeitos da União Prussiana fazem-se sentir até hoje no luteranismo mundial.


6.4 - O quarto centenário, 31 de outubro de 1917

     Esta data ocorreu em meio a 1ª Guerra Mundial, chamada também de a Grande Guerra (1914 a 1918). No dia 28 de junho de 1919 foi assinado o Tratado de Versalhes. Dez milhões de mortos, seis mil soldados retornaram dela mutilados, cidades destruídas, a economia arruinada, fome e peste por todos os lados na Europa. Muitos cristãos estavam envolvidos nesses horrores. Muitos luteranos da Alemanha, Bélgica, França, Rússia, Polônia, Austrália e dos Estados Unidos morreram nela. Também houve reflexos dela no Brasil. Nossa revista Evangelisch-Lutherisches Kirchenblatt, editado em língua alemã, foi proibido de circular, em 31/10/1917. A revista voltou a circular após dois anos, em 01/10/1919. Nesses anos, os fiéis buscaram consolo na palavra de Deus e livros devocionais que possuíam em língua alemã. 
Na Europa não houve clima para festejos populares e limitou-se a orações em
particular, em família e alguns cultos. O Jubileu, no entanto, foi celebrado
intensamente nos Estados Unidos da América, nos países Escandinavos e na Austrália. Desses lugares temos diversos sermões e programas de cultos.
    No Der Lutheraner de nossa igreja nos USA, de 24/04/1917 lemos sobre o ano Jubilar da Reforma: “Mesmo vivendo nestes dias difíceis de carestia, inflação e guerra na Europa, na qual nosso país (Estados Unidos da América) também está envolvido, o que envolve grandes sacrifícios, mesmo assim queremos celebrar os 400 anos da Reforma Luterana”.
    “Como vamos celebrá-la? Queremos agradecer a Deus pelas bênçãos espirituais que a Reforma nos trouxe. Ao mesmo tempo cumprir nosso dever de propagar a palavra e administrar os sacramentos como instituídos por Deus. Nossa festa é uma festa da igreja, não celebramos Lutero como herói nacional da Alemanha, mas como servo de Deus, que proclamou a palavra de Deus”.
     “Guerras são castigos de Deus e um chamado ao arrependimento, pois há um decréscimo dos fiéis em todas as nações cristãs”.
     Naquele ano foi elaborado um extenso programa para cada mês, acentuando as grandes verdades da Reforma. Dois temas receberam destaques especiais: Os erros da igreja Reformada que nega o poder da palavra de Deus e dos sacramentos e o tema: Cristãos em outras denominações cristãs. Não duvidamos de que nas outras igrejas cristãs, seitas e também na Igreja Católica, haja cristãos. Pois onde a palavra de Deus é ensinada e está em uso, ali Deus Espírito Santo opera, conforme Isaías: Assim será a palavra que sair da minha boca; não voltará para mim vazia, mas fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a designei (Isaías 55.11). E onde há fé na graça de Cristo, por mais fraca que seja, mesmo mesclada por muitos erros, estas pessoas são nossos irmãos e irmãs em Cristo. Mesmo assim, temos que condenar os erros dessas igrejas e não podemos manter comunhão de púlpito e altar com tais igrejas. Esta é a ordem de Deus. Lutar pela verdade e sair do meio das igrejas que ensinam contra a palavra de Deus.[10]
     Literatura.  Naquele ano foi publicado um precioso livro intitulado “Unser Erbteil” (Nossa herança, pág. 242). Eine Gedächtnischrift auf das 400jährige Reformationsjubiläum (Um livro para a comemoração dos 400 anos da Reforma). O livro contém 27 artigos sobre a vida e obra de Lutero, escritos por pastores e professores da época.
     Outro livro que merece destaque é o Magazin für Ev.-Luth Homiletik und Pastoraltheologie, editado pelo Seminário, vol. 41, 1917. Ele contém a parte histórica o que a Direção da Igreja planejou para os distritos e as comunidades. O que foi feito e uma série de 11 sermões, seis palestras e uma oração geral para o dia da Reforma.[11]
     Principais atividades. – Os preparativos para os 400 anos da Reforma foram vários e intensos. A Direção da Igreja recomendou que durante o ano jubilar fosse estudado um tema em cada mês. Que cada distrito programasse para o dia da Reforma, na maior cidade dos distritos grandes culto com procissão festiva, cantos, banners, trompetes no desfile. Os pastores deveriam preparar três cultos festivos: dia 31 de outubro (quarta-feira) de manhã, à tarde ou noite, e outros cultos no segundo dia da Reforma (quinta-feira). – Onde isso seria impossível por ser um dia da semana, deveriam fazê-lo no domingo anterior ou posterior. O Culto Distrital deveria ser de preferência à tarde no dia 31 ou num dos domingos mencionados.

        
6.5 – O quinto centenário, 31 de outubro 2017

Introdução
      Estamos diante do quinto centenário da Reforma Luterana. Diversas Igrejas Luteranas prepararam um extenso programa para a chamado: Década de Lutero, isto é, um programa para os dez anos que antecedem a data.[12]
     O quadro, hoje, é bastante diferente do quadro dos primeiros festejos. O que nos aguarda nesses festejos? Quais os problemas que temos que enfrentar? O que significa permanecer fiel à nossas Confissões num mundo ecumênico, no qual se defende a união em amor na diversidade e se contesta a verdade absoluta? Diante de tudo isso a pergunta: Como celebrá-lo?
     Há a grande necessidade, especialmente, para nós luteranos confessionais, de no festejo dessa data relembrar a história[13], as bênçãos da Reforma[14] e nosso compromisso confessional no confessar a verdade.  Vejamos alguns fatos.

1 – O quadro político e social no mundo
     Após as duas grandes guerras mundiais e a guerra fria, parece que temos relativa paz. Só parece. Rumores de guerras, revoluções, homens bomba suicidas, perseguições aos cristãos pelo Islã; bem como o ressurgir de perseguições aos cristãos por parte do comunismo na Rússia e na China, mesmo que, por enquanto, localizada só em algumas regiões desses países. A isso se soma a degradação da vida santificada do cristianismo, o crescimento das seitas da teologia da prosperidade, as resoluções governamentais, contra a moral inscrita nos corações humanos, nos países que ainda se chamam cristãs. Nós no Brasil, além do alto número de mortes por acidentes nas estradas, os constantes roubos com assassinatos violentos, a guerrilha do narcotráfico mostra que estamos numa guerra civil, por mais que se deteste essa expressão.
    O Brasil se denomina um pais cristão. O cristianismo foi a base de nossa civilização, esta, no entanto, está sendo abandonada. As resoluções de nossos deputados que aprovam o casamento de homossexuais e o direito de tais pessoas adotarem crianças, a restrição à liberdade de expressão, com penas de quem afirmar publicamente (exceto no próprio ambiente da igreja) que homossexualismo é pecado, corre o risco de ser preso e pagar uma multa; permissão do aborto, a restrição ao direito de a família educar seus filhos conforme sua convicção cristã, etc. Tudo isso mostra que o Brasil abandonou a base cristã.  A isso se soma ainda a dissolução moral com aprovação de nosso parlamento,[15] o fomento do racismo, os pedidos para retirada dos crucifixos das repartições públicas, a proibição do ensino religiosa nas escolas públicas, que são inundadas com livros didáticos de moral perversa, por parte do Ministério da Educação Governamental, etc. Em todo o mundo crescem as catástrofes ambientais. Há grande temor pelo futuro do planeta terra. Esses problemas, em si, não são novos, mas eles estão crescendo, de modo assustador, em sua intensidade. É o quadro que Jesus pintou como antecedente ao juízo final (Mt 24).
     No campo religioso vemos igualmente o cumprimento das profecias de Jesus:
-  Contudo, quando vier o Filho do Homem, achará, porventura, fé na terra? (Lucas 18.8).
-  E, por se multiplicar a iniqüidade, o amor se esfriará de quase todos (Mateus 24.12).
-  Sereis odiados de todos por causa do meu nome; aquele, porém, que perseverar até ao fim, esse será salvo (Mateus 10.22).
- Levantar-se-ão muitos falsos profetas e enganarão a muitos (Mateus 24.10-11).

2 - O quadro eclesiástico

     Conforme o grupo Portas Abertas[16] nunca, na história da cristandade, foram perseguidos e mortos tantos cristãos como em nossos dias. Em mais de 50 países, cristãos estão sendo perseguidos. A maior crueldade contra cristãos está sendo praticada, atualmente, na Coréia do Norte, onde mais de 70 mil cristãos estão incomunicáveis em campos de trabalhos forçados. Eles carecem de nossas orações, para que Deus os fortaleça e liberte a Coréia do Norte da escuridão. O islamismo se expande cada vez mais nos países cristãos, procurando impor sua “sharia”, perseguindo e matando de forma cruel cristãos no norte do Iraque.  
     Por outro lado, vemos a grande decadência do cristianismo. Cresce a imoralidade, o número de divórcios e abortos. Algumas igrejas apoiam o casamento de gays e de lésbicas, afirmando que nosso relacionamento carnal não tem nada a ver com a fé cristã. O grande crescimento das seitas que iludem o povo com falsas promessas, extorquindo o dinheiro dos chamados “fiéis” (teologia da prosperidade[17]). Esse entusiasmo tem limites e termina, normalmente, em grande incredulidade, na qual essas pessoas desiludidas tornam-se inimigas ferrenhas do cristianismo.
     Nós luteranos somos abençoados com a Palavra de Deus claramente exposta e os sacramentos administrados como instituídos por Deus. Temos estas verdades em nosso Catecismo Menor e Maior, na Confissão de Augsburgo, na Fórmula de Concórdia e outros artigos confessionais reunidos no Livro de Concórdia. Além disso, uma parte das obras de Lutero já traduzidas ao português, 12 volumes. Não podemos deixar de mencionar nosso precioso Hinário com seus textos consoladores e didáticos. Tudo isso, no entanto, também está em nosso meio em certa decadência. Quem ainda os lê, estuda e conhece? Nossos hinos - não me refiro nem à música - mas aos preciosos textos, antigamente sempre citados, são hoje desconhecidos. Quantos hinos nossos confirmandos aprendem ainda de cor? Quantas vezes parágrafos doutrinários de nossas confissões, antigamente sempre citados em artigos, sermões e estudos, são mencionados ainda hoje? Sim, quem conhece o Catecismo Menor, os primeiros doze artigos da Confissão de Augsburgo. Quem estuda a Fórmula de Concórdia (Epítome, resumida)? Quando me formei em 1960, a diretoria de minha primeira Comunidade conhecia as doutrinas da Fórmula de Concórdia. Eles a liam na língua alemã.

3 – Quadro eclesiástico específico
     E o que dizer do quadro eclesiástico em nossos dias? Vejamos.     
 – Os católicos querem festejar este acontecimento, os 500 Anos da Reforma Luterana, conosco. Eles querem festejar o quê? Será que reconheceram seus erros? Examinando o Catecismo Católico (11/10/1992), vemos que nada mudou. Pelo contrário, o Papa Francisco – tão simpático – decretou o ano do Jubileu da Misericórdia (13/032015 a 08/12/2016). O nome tão bonito, mas não é outra coisa do que incentivar as Indulgências. O Papa escreveu: “Espero que a indulgência jubilar chegue a cada um”.
     Para viver e obter a “indulgência” os fiéis são chamados a realizar uma breve peregrinação rumo à Porta Santa”, aberta em cada Catedral importante. E os doentes? O Papa respondeu: É preciso “viver com fé e esperança jubilar este momento... recebendo a comunhão ou participando na santa missa... que será para eles o modo de obter a indulgência jubilar”, afirmou o Papa.        
      Após dez anos de estudos, a Comissão conjunta da Federação Luterana Mundial (FLM) e da Igreja Católica, elaborou o documento: “Doutrina da Justificação pela Graça e Fé. Declaração conjunta Católica Romana – Evangélica Luterana (16/06/1998)”.[18] Este documento foi aceito pelas duas igrejas, a igreja Católica e as Igrejas luteranas  filiadas à FLM. A Igreja Luterana Sínodo de Missouri e suas igrejas irmãs, filiadas à Inernational Luterana Council (ILC), não assinaram o documento. Neste documento consta o seguinte:
- Não vamos mais invocar as antigas e mútuas condenações.
- Concordamos na doutrina da justificação.
     O que significa: Não invocar mais as antigas e mútuas condenações? Não valem mais? Neste caso, teríamos que modificar nossas confissões, pois na Confissão de Augsburgo lemos em todas as teses: Cremos, ensinamos e confessamos... rejeitamos; Na Fórmula de Concórdia lemos: Cremos, ensinamos e confessamos... rejeitamos e condenamos. Infelizmente, também em nosso meio já se ouvem vozes como: Deixemos de lado “esse ranço do passado”. Hoje, as perguntas são outras. Importa ensinar o evangelho de forma positiva”. Será? O que quer dizer isso?                                       
    E quanto à justificação pela graça e fé. A igreja Católica não mudou sua doutrina da graça infusa. Quem mudou, na verdade, foram os luteranos, que aceitaram a linguagem confusa desse documento da Declaração Conjunta.                         
- Quando dois padres na Alemanha, em Dresden, no ano 2000, pelo júbilo dessa declaração, celebraram uma missa em conjunto com pastores luteranos, eles foram repreendidos e suspenso pelo Papa. Realmente a Igreja Católica não mudou.
     O Cardial Kurt Koch, “Ökumene-Ministers” do Papa declarou em Düsseldorf, 19/11/2012, ao falar sobre o Ano Jubileu da Reforma (2017), que a Reforma Luterana trouxe algo positivo, mas também negativo. O negativo, no dizer dele, é que ela dividiu a Igreja. Na época o santo Francisco de Assis também protestou contra erros da Igreja, mas ele sabia que uma reforma só se faz em concordância com o Papa. Lutero a empreendeu sozinho e dividiu a igreja o que resultou em guerras sangrentas como a revolução dos colonos e a guerra dos trinta anos. Isso são pecados graves. Nós não podemos festejar pecados. Podemos marcar uma solenidade de arrependimento e de reconciliação, mas não um festejo. (Rheinische Post)
    A isto o Nikolaus Schneider, Conselheiro da Evangelischen Kirche Deutschlands (EKD) respondeu em Düsseldorf, diante de Jornalistas: “Nós, em todo o caso, celebraremos”.

- Igrejas Luteranas da Federação Luterana Mundial
      Por outro, também nos meios evangélico-luteranos começamos a ouvir uma linguagem semelhante. Fala-se no lado positivo de Lutero e também do seu lado negativo, ou sombrio.
     No culto da Reforma do ano 2012, em Worms, ao lançar o tema para 2013: Reforma e Tolerância a pastora Margot Kässmann, na época Presidente da Evangelische Kirche Deutschland (EKD)[19] disse: “Por vezes temos que andar por outros caminhos... Aqui em Worms, Lutero afirmou categoricamente diante do Imperador: Aqui estou. Não posso de doutra maneira. Que Deus me ajude. Amém.  Esta frase atribuída a Lutero resume o que o Reformador reivindicou para si: Uma posição contra toda a autoridade e principado do seu tempo. No entanto, nem sempre ele (Lutero) concedeu esta liberdade a outros. A Reforma libertou a fé de preconceitos e coações, e a tornou discutível – mas lutou também contra a fé de outros que interpretavam esta liberdade de modo diferente”. O tema de 2013, da EKD tenta ordenar estas conquistas e seus lados sombrios sob o título: Reforma e Tolerância.

     A pastora mostrou numa de suas pregações que muitas vezes se acusa a Igreja Evangélica de que sua posição, especialmente, em questões éticas não é suficientemente unânime. “Mas nisto consiste exatamente a força da fé reformada. Não há nenhum dogma, que o cristão evangélico, individualmente, precisa crer. A consciência individual deve ser aguçada. Eu mesmo devo pensar”, disse a pastora. Ela continuou: “A isto pertence também o suportar diferentes posições na luta pela verdade. Esta é a posição da doutrina evangélica... A igreja da Reforma continua se reformando. Hoje as igrejas compreenderam que demasiada insistência em suas posições não conduz à paz”. 
     Esta parece ser, hoje, - e espero não errar muito - a posição geral dos luteranos liberais da FLM. A pastora Margot é muito estudada e hábil oradora, mas será que ela entendeu a confissão de Lutero diante do imperador Carlos V em Worms, no dia 18 de abril de 1521? Isso foi simples intolerância? O que seria se Lutero fosse tolerante e cedesse, ou se retratasse diante do imperador? Sem dúvida permaneceríamos ainda hoje nas trevas. Diante da palavra de Deus não existe tolerância ou intolerância. Como servos de Deus cabe-nos fiel apego à Palavra de Deus. Estamos amarrados a ela, seja isso em questões de doutrina ou da ética. E isto não por simples lei, mas por sermos filhos de Deus e reconhecermos que a Bíblia é a inspirada, infalível e inerrante Palavra de Deus, não queremos desviar-nos nem para a direita, nem para a esquerda.
     Da mesma forma, fiquei surpreso ao ler no livro de Martin N. Dreher, De Luder a Lutero (Sinodal, 2014) - Dreher é estimado e hábil escritor, conhecedor de Lutero e da história da Reforma – Consta no seu livro, no Prefácio de Eduardo Hoornaert, o seguinte::  “A impressão que se tem é que diversas intervenções de Lutero no final da vida não são bem-sucedidas. Há desencontros com Münstzer, Erasmo e Zwínglio... “ Vou só citar o chamado desencontro com Zwínglio: “Em 1529, na cidade de Marburgo, mais um desencontro, desta vez com o reformador suíço Zwínglio. O “colóquio” de Marburgo é um desastre. No calor da discussão sobre a Eucaristia, Lutero rabisca as palavras “Isto é meu corpo” na mesa, como se essas palavras expressassem um oráculo intocável, uma verdade eterna. Os dois reformadores evangélicos, em vez de procurar temas de comum acordo, ficam se esgrimindo."
     Em contra posição a isto lemos em GEO, 11/11/2007, pág.: 186: Martin Luther “Wer Weiss ob es wahr isto?” de Jörg-Uve Albig. Porträt des Reformadors. – So radikalisiert Luther das revolutionäre Konzept, Widersprüche auszuhalten. “Ein Christenmensch ist ein freier Herr über alle Dinge und niemand untertan”, schreibt er, aber zugleich: “Ein Christenmensch ist ein dienstbarer Knecht aller Ding und jedermann untertan”.  - Trad.: Lutero radicalizou o revolucionário conceito, suportar contradições. “ Um cristão é senhor livre sobre todas as coisas e não está sujeito a ninguém”. Ao mesmo tempo escreve logo: “Um cristão é um servo de todas as coisas e sujeito a todos”.
     Auch das Abendmahl ist ihm sowohl Brot und Wein als auch Gott – ein Dualismo den vor Luther kein Theologe zusammendenken wollte. Nach der katolischen “Transsubstantiationslehre” etwa verliert die Nahrung ihre Substanz und wandelt sich während der Kommunion wahrhaftig in Leib und Blut Christi. Nach der Auffassung späterer Reformatoren dagegen bleibt Brot und Wein schlicht das, was es ist, und taugt nur als Symbol.
    Für Luther aber ist beides gültig – Christus wohnt im geweihten Brot wie die Glut im erhitzten Metall: “Siehe, das Eisen und Feuer, zwei Substanzen, werden in einem glüheden Eisen so vermischt, dass jeder Teil Eisen und Feuer ist. Warum kann nicht der verklärte Leib Christi viel eher ebenso in allen Teilen der Substanz des Brotes sein”.
Tradução: Também a Santa Ceia lhe é tanto pão e vinho como Deus – um dualismo, o qual nenhum dos teólogos anteriores de Lutero pensou em unir. Conforme a teoria católica da transubstanciação o alimento perde algo de sua substância e se transforma em verdadeiro corpo e sangue; enquanto que o ferro incandescente se mistura de tal forma que cada parte é ferro e fogo. Por que o corpo glorificado de Cristo não pode, muito antes, estar em todas as partículas da substância do pão.      

 – Igrejas Evangélicas. Elas emanam da Reforma e a festejam como o grande dia da libertação de todos os preconceitos e descriminações. Eles lutam por uma unidade exterior, sem acordo na doutrina, uma unidade na diversidade. Eles acreditam que a união na diversidade é a maior necessidade de nossos dias para a missão e o progresso da igreja.  Pois nada prejudica mais a missão do que a desunião da igreja cristã. No meio deles soou a pergunta: “Como pode uma igreja cristã dividida sarar um mundo em conflitos”.[20] Festejam a Reforma mais com o trinômio da Revolução Francesa: Liberdade, igualdade e fraternidade, do que com o trinômio da Reforma:Somente a Escritura, somente pela graça, somente por fé.  
     Essas igrejas, como os católicos, permanecem no sinergismo, o homem coopera com sua salvação.  Não compreendem claramente a doutrina do pecado: pecado original e atual, nem a justificação objetiva e subjetiva, nem tampouco o que é a verdadeira fé cristã. Além disso, se dividem nas mais diferentes correntes como universalismo, prosperidade, milenaristas com suas ramificações, etc.

 – Movimento Ecumênico – O movimento ecumênico parecer ter descoberto a solução para a divisão da Igreja Cristã, a saber: O Diálogo. O diálogo resolve tudo. Na elaboração das Teses do Acordo de Leuenberg (1973), que procurou unir luteranos, reformados e unitários. Naquela reunião chegou-se, pelo diálogo, à seguinte formulação para o problema da Santa Ceia. Ali lemos: “Na Ceia do Senhor, Jesus Cristo ressuscitado comunica-se a Si mesmo, no corpo e no sangue, oferecidos por todos, através da promessa da palavra, com o pão e o vinho. Assim, sem reservas, dá-se a todos que recebem o pão e o vinho, na fé, recebe-se a Ceia do Senhor, para a salvação, na incredulidade para juízo”. 
     A pergunta que se coloca é: Afinal, conforme esta declaração, recebemos o que na Santa Ceia? Pois se não recebemos o verdadeiro corpo e sangue de Cristo, nascido da virgem Maria, dado e derramado por nós na cruz do Gólgota, recebemos o quê? A resposta a esta pergunta não ficou clara nessa formulação, mas parece que contentou a todos. A Igreja confessional luterana, Missouri e suas igrejas irmãs, não assinaram esta fórmula imprecisa e duvidosa.
     No mundo ecumênico ouve-se, em relação à Santa Ceia, cada vez mais as frases:  “Ninguém tem direito de rejeitar da mesa do Senhor quem: Foi batizado, crê em Cristo como seu Salvador e sabe que Cristo está presente na Ceia”[21]. Ora, Jesus, na instituição da Santa Ceia, não disse simplesmente: Eu, como pessoa, estarei presente ali. Ele disse: “Isto é o meu corpo, que é dado por vós” (Mateus 26.26,27). E o apóstolo Paulo escreve: “Examine-se, pois, o homem e a si mesmo, e assim coma do pão e beba do cálice; pois quem come e bebe, sem discernir o corpo, come e bebe juízo para si” (1 Coríntios 11.28-29). A primeira coisa que torna alguém indigno da Santa Ceia é não crer na “presenta real” (não simplesmente da pessoa de Cristo), mas do seu corpo, dado por nós, e do seu sangue, derramado por nós.
     Por permanecermos nesta doutrina bíblica, somos acusados de intolerantes e perturbadores da paz.
     Nós estamos realmente nos tempos finais, a espera da volta de Cristo. Interessante que desta volta todas as seitas falam, mas como falsos profetas, falam do arrebatamento, da volta visível de Cristo para levantar seu trono em Jerusalém em Israel e reinar ali por mil anos em paz nesta terra. Só depois virá o verdadeiro juízo final. As muitas heresias e falsos profetas não deixam dúvidas de que estamos nos tempos do fim. A corrupção, a decadência moral, a destruição da família, a perversão da juventude e a decadência da cristandade em todo o mundo, bem como os sinais climáticos, confirmam os sinais dados por Jesus da proximidade do fim. Diante de tudo isso cabe-nos o exemplo da primeira igreja cristã: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos” (Atos 2.42). E a recomendação do apóstolo Paulo a seu discípulo Timóteo: “Permanece naquilo que aprendeste” (2 Timóteo 3.14).   

6.6 – Nossa responsabilidade

     Nesse contexto, qual a nossa responsabilidade como igreja confessional no mundo e na Igreja Cristã e em nossos dias? Cumpre manter nosso compromisso confessional. Cumpre aprender dos profetas como pregar lei e evangelho nesses tempos do fim, nos quais os juízes de Deus se manifestam, anunciando o juízo final. Doutrinar nossos membros para que conheçam bem o Catecismo Menor, a Confissão de Augsburgo, a Epítome, que é a Fórmula de Concórdia resumida. Recomendamos para tanto a leitura do livro de SASSE, Hermann, Aqui nos firmaos, Edutora Conc[órdia e Ulbra., 2008. 
     Festejar os 500 Anos da Reforma nos moldes do primeiro Centenário como: Dia de jubilo e agradecimento pela restauração da verdade, pelas Confissões; dia de arrependimento, conforme a primeira das 95 teses; dia de confessarmos, em amor, nosso repúdio aos desvios doutrinários; dia de proclamar a salvação, mesmo que isso nos separe ou mantenha separados de muitos irmãos cristãos.[22] A nós cabe fidelidade a Palavra de Deus, tão bem exposta em nossas Confissões, reunidas no Livro de Concórdia de 1580.               




[1] Wittenberg era uma cidade pequena com 3 mil habitantes. Em suas ruas empoeiradas corriam gansos, porcos e galinhas por toda a parte, bem como o esgoto pela rua.
[2] Os últimos anos foram difíceis. No dia 1° de julho de 1523 foram queimados na praça pública no Mercado de Bruxelas, Niederlanden, dois monges agostinhanos: Jan van Esschen e Hendrik Vos, que haviam aderido à Reforma. São os dois primeiros mártires luteranos. Lutero ficou muito abatido. Ele enviou duas cartas a Bruxelas para consolar os fiéis. (Luther Samtliche Schriftesn, Walch, vol. 21ª. p. 523).  Também chegou a seus ouvidos a notícia de que seu amigo Leonhardt Käfer, de Bayern, fora queimado por ordem do bispo de Ulm. Na Europa havia guerra entre Itália, Espanha e França. Em abril de 1525 irrompeu a guerra dos camponeses. Em 03/06/1526 Lutero casou. O primeiro ano de casados não foi fácil para os dois. Em 1526 a primeira disputa entre Lutero e Zwínglio. Em resumo, eram anos difíceis.   
[3] De nossa igreja irmã a Lutheran Church Missouri Synod. Der Lutheraner, n° 21, de 09 de outubro de 1917, pág. 325-326.
[4] Kant (1724-1804) só conhecia o Catecismo Menor de Lutero
[5] Confere: Der Lutheraner, outubro de 1917.
[6] Denk-Mahl, Wittenberg, 1717, pág. 92
[7] PAUST, INGEROSE.Auszug der Achthundert. Brunnen, Verlag Giessen Basel,1992, Alemanha.
[8] Cf.: PAUST, INGEROSE. Auszug der Achthunder. Brunnen Verlag Giessen, Basel., 1997.
[9]  ZANGE, FRIEDRICH. Zeugnisse der Kirchengeschichte, Verlag Von C. Bertelsmann, Götersloh, 1912, pág, 440 – 443; Lutherische Beiträge, nº 3, 2012, Bewährung u. Verlust auf dem Wege Evangelisch-Lutherische Kirche in Brandenburg-Preussen u. Deutschland, por J-C Burmaeister, pág 139 a 165.
[10] Confira o capítulo: Relacionamento com outros.
[11] O livro se encontra na Biblioteca do Seminário Concórdia, em São Leopoldo, RS.
[12] Confira os temas para esta Década de Lutero.
[13] Confira o livro: Deus despertou Lutero, de Gustav Just.
[14] Leia o artigo um pouco mais adiante: Bênçãos da Reforma, de Dr. Mário Rehfeldt.
[15] Cabe ao governo administrar as coisas públicas, cuidar da boa ordem e defender os direitos individuais. Nisto seguem a lei natural, inscrita nos corações. Quando se desviam da ética dessa lei, fomentando o pecado, ou até obrigando seus cidadãos a praticarem o pecado, a igreja precisa levantar sua voz. 
[16] www.portasabertas.org.br; www.opendoors.de
[17] Exemplo: Um pregador afirmou: Você está doente? Algo vai mal em sua família ou no seu trabalho? Isso é sinal de que Deus não está contigo, não está te abençoando. A causa disso está em ti. Há algum pecado que você não confessou. Há falta de fé. Deus não quer ver ninguém doente, com problemas e sem prosperidade.
[18] Edição: EDIPUC,RS, Porto Alegre, RS, 1998
[19] Esta Igreja reúne luteranos, reformados e unitários. É uma igreja liberal.
[20] Esta frase provém da teoria da “Missão Integral” que visa sobre tudo “união”, e salvação do mundo, no sentido de melhorar as condições existenciais do mundo. Enquanto a Escritura prega arrependimento e fé com o objetivo: Salvai-vos desta geração perversa”.  (At 2.40)
[21] A Comunhão eucarística é possível. Editora Sinodal e est (Escola Superior de Teologia), 2006; Vom Konflikt zur Gemeinschaft. Bonifatius, Evangelische Verlangsanstalt, Leipzig, 2.13. Alemanha

[22] Confira o capítulo IV, deste trabalho. Festejar com quem e como?

500 Anos da Reforma - VII

VIII - Do que a Igreja Luterana jamais poderá abrir mão!
                                                          Jobst Schöne, Bispo emérito da Selbständige                
                                                                      Evangelisch-Lutherische Kirche (SELK)
                                                                Lutherische Beiträge – 1/2016, pág. 35ss.
                                                                 Tradução H. Kuchenbecker – com permissão
     A formulação do tema pode parecer para alguns uma limitação, autoafirmação ou endurecimento confessional. Esta, porém, não é nem deve ser nossa posição. Os reformadores, orientados por Lutero, não visaram estabelecer uma doutrina nova ou uma nova igreja confessional. Eles queriam, unicamente, abrir o Evangelho, a mensagem da salvação para toda a cristandade do eu tempo no Ocidente. Eles visaram conduzir e chamar ao centro do evangelho, a Cristo, não pelo distanciar-se da Igreja na qual foram batizados e chegaram à fé, da qual receberam o ofício, pelo contrário, por amor a esta igreja deformada, reconduzi-la de volta ao evangelho. Que isto, por fim, se desenvolveu de forma diferente e resultou na divisão e formação de outras igrejas confessionais, teve outras razões.
     Não queremos dar, à formulação desse tema, um tom negativo. Trata-se de acentuar porque a Igreja Luterana, na qual estamos, apesar de todas suas imperfeições, fraquezas e até caminhos errados, nos é tão querida e preciosa a ponto de não nos desviar dela. Destacar isso é nosso objetivo. Mesmo assim, não se trata aqui de opiniões subjetivas, nem de valorizações que a mim, único, me parecem importantes, indispensáveis e dignos de ser preservados. Trata-se da Igreja e de sua missão, daquilo que lhe foi confiado – para toda a cristandade. Reconhecer isto, a saber, o indispensável, mantê-lo e confessá-lo, deve estar em nossos corações. Pois se isto se perder, toda a cristandade será prejudicada. Estamos, portanto, diante de uma incumbência ecumênica que luteranos, que se mantém fiéis às Confissões, têm a cumprir. Não se trata de interesses individuais, autoafirmação e isolamento, mesmo assim de uma certificação própria.
      Nós chegamos, devido ao desenvolvimento que as igrejas do mundo ocidental aceitaram, a um ponto, no qual uma igreja não pode ganhar a custa de outra, pelo contrário, onde uma sucumbe, ela arrasta outras consigo. O fato da saída de pessoas de uma igreja (devido a escândalos de abuso de pessoas, mau uso do dinheiro, etc.) é tão grotesco que desencadeia um fluxo de abandono também em outras confissões. Por outro, bons exemplos de uma igreja, podem desencadear simpatia para o outro lado... Em resumo, estamos todos no mesmo barco. Quando, então, nos perguntamos: O que nos foi dado para ser conservado? Veremos que aqui não se trata de uma pergunta somente de nós, mas daquilo que, de forma indispensável, pertence a toda a cristandade, o que no seu todo e para o todo deve ser mantido e preservado.
      Um cristão por si pode vir a vacilar em sua certeza – nós o sabemos e o presenciamos com tristeza e dor – quando ele se pergunta: Será que estou na igreja cristã correta e certa? Esta observação vem de Wilhelm Löhe. – Ele disse: “Se eu encontraria uma igreja melhor do que a Igreja Luterana, eu me mudaria e converteria imediatamente a ela, mesmo no leito da morte – e isto apesar de todas as fraquezas da igreja luterana, que ele conhecia muito bem. Mas Löhe não mudou. Outros mudaram. Tal mudança de igreja é sempre um sinal de que na atual comunidade, surgiu, para o membro convertido, um determinado déficit que a levou a abandonar sua comunidade e deixar suas raízes. Um déficit tão importante, que o levou a buscar outras opções (que ele também poderia encontradas em sua comunidade atual, da qual, neste caso, ele está abrindo mão) mas que dificilmente será compensado. O que via de regra muda numa conversão é a compreensão da salvação, que Deus quer nos presentear e mostrar de onde ela vem, qual a sua base e o que ela abrange.
    Sob este ponto de vista perguntamos: O que é e o que deve ser para a Igreja Luterana e seus fiéis indispensável? Portanto, o que torna o cristianismo tão amável e precioso, a ponto de, sob nenhuma hipótese, abrir mão e nos afastar dela – apesar de todas suas fraquezas e deformações que ela apresenta na atualidade. Em consequência disso apresentamos aqui seis pontos, nos quais quero mostrar o indispensável, sob o qual a Igreja deve repousar, para poder cumprir sua missão.

7.1 - A Escritura Sagrada como Palavra de Deus, em Lei e Evangelho.
     A Reforma luterana considera a Bíblia, Antigo e Novo Testamento, como única norma (única regula et norma) para doutrina e vida em sua igreja, como ela o expõem em sua Confissão na Fórmula de Concórdia de 1577, onde lemos: “Cremos, ensinamos e confessamos que somente os escritos proféticos e apostólicos do Antigo e do Novo Testamento são a única regra e norma segundo a qual devem ser ajuizadas e julgadas igualmente todas as doutrinas e todos os mestres, conforme está escrito: “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra, e luz para os meus caminhos” (Salmo 119.115). E o apóstolo Paulo escreve: “Ainda que um anjo vindo do céu vos pregue diversamente, seja anátema” (Gálatas 1.8). “Outros escritos, entretanto, dos antigo ou dos novos mestres, seja qual for o nome deles (inclusive Lutero), não devem ser equiparados à Escritura Sagrada, porém todos lhe devem ser completamente subordinados, não devendo ser recebidos diversamente de ou como mais do que testemunhas da maneira como e quanto aos lugares onde essa doutrina dos apóstolo e profetas foi preservada nos tempos pós-apostólicos” (Fórmula de Concórdia, Epitome, De Suma, Regra e Norma § 1,2; Livro de Concórdia, pág. 499[1]). Naquele tempo em que escreveram isto, eles estavam mais apegados a Lutero do que nós hoje. Mesmo assim, de Lutero, só foram incluídos nos livros confessionais os dois Catecismos, Menor e Maior e os Artigos de Esmalcalde.
     A Escritura não é somente norma e regra para ensino e vida. Ela é também um poderoso instrumento através do qual o Espírito Santo age, gera e fortalece a fé, também hoje. Onde esta Palavra de Deus é proclamada e aceita, surge a igreja, também hoje. A Escritura Sagrada é, por isso, muito mais do que um documento histórico subordinado às condições do tempo em que surgiu, que deveria ser lido e exposto conforme o método histórico-crítico. Ela é – independente dos diferentes tempos de seu surgimento e diferenças de seus autores – uma unidade, um todo, que deve ser tomado e exposto tendo Cristo (como centro e alvo da Escritura); mesmo que isto seja hoje veemente contestado e declarado não haver consenso a respeito. A Escritura não é só palavra de homens, mas ela é em todas suas partes Palavra de Deus, pela qual Deus nos fala e se revela a nós. A ele (Deus) todos os expositores e proclamadores terão de prestar contas. Ninguém deve se sobrepor à Escritura, mas subordinar-se a ela. “Exegese canônica” desses textos “inspirados” é o adequado. A Palavra de Deus não se torna para nós “Palavra de Deus” de caso a caso, conforme a nossa disposição em recebe-la, mas é e permanece a priori.
     Deus nos fala na Escritura Sagrada e isto acontece, conforme a concepção luterana, em duas formas bem distintas: de lei e de Evangelho, como exigência e como presente, como acusação e como absolvição, mortificação e vivificação. (Confere: Apologia XII § 46; LC pág. 198). Este reconhecimento da Reforma luterana, essa clara distinção entre Lei e Evangelho é a chave indispensável para a compreensão da Escritura Sagrada. Assim, ela deve ser lida, anunciada, aplicada e crida. Uma mistura ou confusão dessas duas formas de falar conduz ao erro dos entusiastas (isto é, a falha e errada tentativa de querer dirigir o mundo pelo evangelho), ou então ao legalismo (que transforma o evangelho em lei, dizendo que a pessoa pode se salvar por seus próprios esforços). O legalismo na pregação atual é um perigo permanente e constante.[2]

7.2  - O quadro bíblico do ser humano e o poder do pecado. (Antropologia)
     A Escritura Sagrada, corretamente compreendida, transmite um quadro que pode vir a ser incômodo, que, no entanto, é realista e sem maquilagem. Em relação à lei, pela qual Deus convoca o ser humano a sua presença, precisamos nos reconhecer como criaturas caídas, separadas de Deus, incapaz de salvarem-se a si mesmas e alcançar a perfeição exigida pela lei. Aqui cabe a definição do “sine metu Dei, sine fiducia erga Deum et cum concupiscentia” (sem temor de Deus, sem fé em Deus e com concupiscência) – “isto é, que desde o ventre materno, todos estão plenos de concupiscência e inclinação más, e por natureza não podem ter verdadeiro temor de Deus e verdadeira fé em Deus” (Confissão de Augsburgo II § 2; LC, pág. 29). O conceito “Pecado Original” é mal-entendido se acrescentarmos que com isso o ser humano foi privado da capacidade de fazer qualquer bem no relacionamento humano, social, econômico e outros campos de ação neste mundo. Tão longe a compreensão luterana, em relação ao Pecado Original, não foi. Ela considera o ser humano capaz de, graças a um resto de livre arbítrio e sua razão humana, alcança certa “justiça civil”, porém nenhuma “justiça divina, espiritual” que o declararia justo diante de Deus (CA XVIII § 1 e 2; LC pág. 36[3]).
     Com a compreensão (definição) luterana do Pecado Original rejeitamos as definições da antropologia que nos são dadas e que encontramos de muitas formas nos mais diversos campos humanos, no campo do poder e do progresso, na ressocialização de presos, na pedagogia e (psicologia) e outros campos. Este otimismo em relação ao ser humano e sua capacidade para o bem, as catástrofes dos séculos 19 e 20 não conseguiram estremecer. O iluminismo levou aos horrores da revolução francesa, despertou o marxismo e forneceu estímulos às barbáries do nazismo, stalinismo e maoísmo para que esses pudessem se desenvolver – e ainda se crê que, no fundo, o ser humano é bom e só as circunstâncias na vida o tornam mau. A Escritura Sagrada, no entanto, nos ensina que: É mau o desígnio do homem desde a sua mocidade (Gênesis 8.21). A história da humanidade e os acontecimentos da atualidade nos fornecem a confirmação do “Pecado Original[4]”. Este quadro pessimista (melhor realista) a Reforma luterana destaca com clareza, mais do que outras confissões. É impossível para a Igreja Luterana abrir mão dessa definição. É impossível unir-se às concepções da Igreja Católica sobre a natureza humana e graça, e sua doutrina da cooperação humana na salvação. Isso torna nossa união com eles impossível. 

7.3  - Como Deus dirige o mundo e sua igreja
     O quadro bíblico de Deus tem dois lados. Primeiro, a Bíblia nos mostra o Deus oculto, inescrutável, enigmático (Deus abscondito), cuja ira, juízo e castigo temos a temer; segundo, o Deus compassivo, misericordioso, gracioso, o Deus de amor, que em Cristo se tornou homem, para nos salvar – este é o Deus manifesto (Deus revelatus), que nos permite olhar no coração de Deus e reconhecer sua verdadeira vontade. Ambos os lados de Deus encontram o ser humano no tempo, nos cruéis destinos da vida e na misericórdia que lhe é anunciada e dada. Mesmo assim, Deus não se deixa dividir, mas permanece Deus uno e vivo, que se dirige e fala a nós em sua Palavra, por lei e evangelho. O Deus que nos atrai ao arrependimento (à volta a Deus) e à fé (o confiar em sua misericórdia). 
     Ao aspecto duplo da imagem de Deus corresponde à forma dupla pela qual Deus governa o mundo e sua igreja. Ele sabe que a inclinação do ser humano para o mal precisa ser mantida sob controle. Para isso Deus usa a lei, a força da lei, a espada, pelas autoridades instituídas (seu reino da mão esquerda), a fim de manter a ordem, assegurando assim mais ou menos a justiça civil e evitar o caos.
     Amor, misericórdia, graça e perdão, no entanto, são formas que Deus usa em sua Igreja (reino da mão direita), para governar e chamar as pessoas a si. Ambos os reinos, são governados e dirigidos pelo mesmo Deus, porém, de maneira diferente e com objetivos (alvos) diferentes. Ambos os reinos não devem ser misturados, para não serem ambos prejudicados. Separar igreja e estado dá a ambos a liberdade, para servirem ao ser humano, cada qual em sua forma. Se misturarmos esses dois reinos (como acontece no Islã, e também onde uma igreja se torna Igreja do Estado, dependente do Estado), então facilmente se pratica injustiças em nome da religião (como por exemplo em Genebra no tempo de Calvino[5]), por fim a Igreja torna-se um serviçal do Estado ou o Estado torna-se um Estado de Deus.  A distinção da forma de Deus governar os dois e a consequente separação de Estado e Igreja, pertence à tarefa da qual a Igreja Luterana não pode abrir mão. 

7.4  - Deus-homem e a salvação do ser humano 
     A respeito de Deus, a Igreja cristã confessa no Credo Niceno: “O qual por nós homens e pela nossa salvação desceu do céu e se encarnou pelo Espírito Santo na virgem Maria e foi feito homem”. Neste acontecimento,
baseia-se a obra salvífica de Cristo, seu sofrer, morrer, sua ressurreição, sua ascensão e sua volta no fim dos séculos. A Igreja antiga resumiu tudo isso no dogma da cristologia. A Reforma luterana aceitou este dogma sem reservas. Dessa doutrina provém a doutrina luterana da salvação, a soteriologia. Ambas essas formas são inseparavelmente unidas. A humanação de Deus visa nossa salvação, nossa bem-aventurança, e aconteceu, unicamente, “para nossa salvação”.
     Neste ponto bate o coração da Reforma luterana, a saber, pela cristologia se fundamento a justificação do pecador, unicamente por amor a Cristo, somente por graça, pela fé (em Cristo e sua obra). “Justificação” é hoje uma palavra mal compreendida e mal-entendida. Ela significa a livre absolvição da culpa, do pecado, sem nossa cooperação e participação, um receber passivo, de fora, que Deus nos pronunciou e atribuiu, (ou como dizemos: “oferece, dá e sela” completo perdão dos pecados). Ele nos declara justos. A justificação não é uma doutrina que precisa ser captada pelo intelecto e refletida, mas é um acontecimento, um processo, que se concretiza ao ser humano e no ser humano. Justificação pressupõe o “ser pecador da pessoa e sua confissão de pecados (isto é, reconhecimento de sua necessidade de salvação). Ele é e permanece pecador, mas torna-se aos olhos de Deus pela absolvição “justo”, para o correto louvor pela salvação, pelo perdão que a obra vicária de Cristo lhe conquistou. A compreensão “em nosso lugar”, como nosso substituto, obra vicária, é aqui o ponto central, que une cristologia com soteriologia. 
     A fórmula da Reforma luterana “simul justus et pecador” (simultaneamente justo e pecador) descreve o cristão justificado. Sua santificação (= a transformação para uma pessoa que vive de forma justa em pensamentos, palavras e ações) deve ser vista como principiante, ainda com imperfeições, que aqui na vida terrena não será perfeita. Neste sentido, santificação não deve ser tomada como base e pressuposto para a justificação, mas como consequência, como fruto dela. A santificação brota da justificação, mas não a opera. Essa clara distinção entre justificação e santificação, em ordem irreversível, primeiro a justificação, depois a santificação. Esta verdade não é aceita pela igreja Romana (Católica), nem pelas igrejas reformadas e similares[6]. Ela é uma das partes das quais a Igreja Luterana não pode abrir mão do seu ensino nem de sua prática.  
      A justificação é dada, a saber o “justus” (o ser justo), somente por graça, somente pela fé (= o confiar em Cristo, no qual a misericórdia de Deus se tornou realidade, pela misericórdia de Deus), unicamente por amor a Cristo. Isto torna-se mais visível pelo quadro de Lutero da “feliz troca”: Culpa, morte e pecado, trocados por justiça, perdão e pureza; morte por vida. Isto a pessoa alcança pela união com Cristo. Sua fé (para o colocar de forma bem clara) não opera a salvação, nem em parte com o auxílio de Deus, mas a recebe. A fé a recebe como presente de Deus. Este apegar-se, voltar-se a Deus é operado pelo Espírito Santo, que a opera pelos meios da graça ordenados por Deus, confiados a sua Igreja: Palavra e sacramentos.
7.5  - Os sacramentos e o culto
     Justificação e sacramentos estão juntos de forma inseparável. Sem os sacramentos, os frutos da obra salvífica de Cristo permanecem no passado. Lutero disse: “Quem crer e for batizado será salvo (Marcos 16.16). Compreende-o, por isso, da maneira mais simples, assim: a força, a obra, o proveito, o fruto e o fim (alvo) do batismo é salvar... É bem sabido, entretanto, que ser salvo não significa outra coisa que, ser libertado do pecado, da morte, do diabo, chegar ao reino de Cristo e com ele viver eternamente. Vês aqui de novo em que grande apreço se deve ter o batismo, visto que nele alcançamos tão inexpressível tesouro” (Cat. Maior, Do Batismo, § 24; LC, pág. 477, 478). Da mesma forma da Santa Ceia: “Porque, de outra maneira, como saberíamos que tal aconteceu ou que nos deve ser dado de presente, se não nos fosse anunciado mediante a pregação ou palavra oral? De onde é que saberemos ou como é que podem apreender o perdão e dele se apropriar, se não se atém à Escritura e ao evangelho e neles não creem? Ora, o evangelho todo e este artigo do Credo: “Creio uma santa igreja cristã, a remissão dos pecados, etc.”, mediante a palavra foram incorporados neste sacramento e apresentados a nós. Por que haveríamos de permitir que se arranque dos sacramentos este tesouro, quando eles têm de confessar tratar-se das mesmas palavras que ouvimos por toda a parte no evangelho? (Cat. Maior, Da Santa Ceia, § 31; LC, pág. 489). Os sacramentos estão presos totalmente à Palavra de Deus. Se a Palavra cai, os sacramentos caem também. Agora, no entanto, a Palavra executa, opera, cria o que ela afirma, visto que o próprio Cristo está na Palavra e fala em linguagem humana. Conforme Lutero, ela é uma Palavra de ação – ação que é bem real naquilo que ela fala.
     Esta compreensão realista do cumprimento e ação da Palavra de Deus – na proclamação, bem como na consagração e distribuição real dos elementos – caracteriza a posição de Lutero e também, não em grau menor, a posição da Igreja Luterana. Ela crê, ensina e confessa a presença real de Cristo na Santa Ceia para nossa salvação. Ele (a saber, Jesus) prega. Ele batiza. Ele absolve. Ele torna seu corpo e sangue presente, para que seja distribuído e recebido.
      Se esta confissão da presença real de Cristo em sua Palavra e da presença real de seu corpo e sangue na Santa Ceia em, com e sob o pão e o vinho, se esta confissão se perde e se ela  não for mais confessado de forma clara e confiável na administração da Santa Ceia, mas reduzido a uma presença pessoal “em Espírito” (encoberta num véu por palavras veladas, que não são mais textuais, mostram o quando já se desviou da fé e da confissão da presença real), então a igreja perde o que a torna igreja no sentido pleno: o ser povo de Deus, em cujo meio Cristo está pessoalmente presente e seu Espírito agindo em nós. Trata-se aqui daquilo do que a igreja vive – e se isto se perde – ela morre.
     Visto ser a Igreja gerada e viver da Palavra de Deus e dos sacramentos, o culto, em cujo meio esses dons de Deus são “administrados” (praticados), proclamados e recebidos, são o centro de toda a vida da Igreja luterana. Isto inclui a prática da Confissão e Absolvição, pela qual nos é aberto o caminho de volta ao batismo, quando, é dado ao pecador contrito e arrependido, por ordem e poder de Deus o perdão. Tal confissão e absolvição perdeu-se quase que totalmente na Igreja do Ocidente. Como substitutivo entrou, sorrateiramente, a ideia de que Deus é cordial e amoroso, que nunca se ira, não castiga, nem julga ninguém – todos “são aceitos” por ele assim como são e como querem continuar a viver. Pessoas que não necessitam mais de reconciliação, nem contrição, nem confissão e absolvição. O pastor Claus Harms (1817) disse zombeteiramente: “Na idade média, o perdão ainda custava dinheiro. Hoje, o temos de graça e cada um se serve sozinho do perdão como quer”.

7.6  - O Ministério e a Igreja
     Como último ponto na enumeração de assuntos dos quais a Igreja da Reforma não pode abrir mão está sua posição em relação ao Ministério da Igreja, enraizado na comunhão dos santos, naquilo que chamamos de Igreja. A “comunhão dos santos” (communio sanctorum), como o confessamos no Credo Apostólico, sabemos, no entanto, que esta comunhão, originalmente, é a participação nas coisas santas, nos santos sacramentos. De fato, a igreja brota da Palavra e dos sacramentos, por meio deles o “corpo de Cristo” se edifica. Pois, a Igreja não surge de resoluções de pessoas que se reúnem para a finalidade de praticarem juntos a religião (Schleiermacher pensou assim). Pelo contrário, é pela Palavra anunciada em seu meio e os sacramentos administrados em seu meio que a fé é gerada. É pela fé que as pessoas são incorporadas no povo de Deus, no corpo de Cristo. Não são os fiéis que fazem a Igreja, mas a Igreja faz os fiéis através dos meios que lhe foram conferidos: Palavra e sacramentos. Assim a Igreja, como congregação dos santos, agradece total e inteiramente ao agir e falar de Deus, visto ser ela criação da Palavra de Deus (creatura verbi divini).
     Para levar os dons de Deus, Palavra e sacramentos, às pessoas, a fim de implantar e fortalecer nelas a fé, Cristo deu a sua Igreja “pastores” e instituiu o santo ministério que eles exercem. Na instituição deste ofício pelo próprio Cristo que chamou e enviou os apóstolos, a Igreja precisa manter-se de forma imutável e não pode ver nisso uma instituição humana. A concepção de que o santo ministério emana do “sacerdócio universal de todos os crentes” e é simplesmente uma instituição humana para manter a boa ordem, é bem pietista, mas não é doutrina da Igreja luterana (por isso também não se encontra assim em nossas Confissões). Pelo contrário, a proclamação e administração dos sacramentos (sempre é exercido “vice et loco Christi”), é confiado aos portadores do ministério, que Cristo instituiu. Eles, como responsáveis a Cristo, devem exercer seu ministério de forma conscienciosa, sem falsificações. Sua incumbência e sua autoridade remonta aos apóstolos, aos quais Jesus chamou diretamente.
     Incumbência e autoridade são transmitidos, hoje, pela ordenação. Cristo age hoje por meios, a saber dos ministros ordenados. A Igreja tem o dever de examinar os candidatos à ordenação e transmitir o ministério àqueles que o querem administrar conforme a vontade de Deus. (E, conforme a visão da Igreja antiga e a maioria das igrejas fieis às Confissões, isso excluí a ordenação de mulheres). A imposição das mãos que acontece na ordenação é um sinal valioso da continuidade através dos séculos, mas não substitui a “sucessão apostólica” (Sukzession), porém a acompanha.
     Este pastorado apostólico, chamado também de “Ofício da Pregação”, tem sempre um caráter de “servo”. Ele não foi instituído para dominar, para exercer “domínio”, mas tem sua autoridade unicamente da Palavra de Deus. Esta Palavra cria por si a aceitação em fé. Os portadores do santo ministério e os fiéis na Comunidade estão unidos um ao outro e não devem existir um sem o outro.
     Agora, nem a Escritura como tal, nem o culto ordenado por ela, nem a liturgia nem a pregação, nem o santo ministério, nem a comunidade – seja lá como se chamem – tem a finalidade em si mesma, mas servem ao louvor a Deus e a salvação das pessoas para a vida eterna. Assim a indispensável finalidade, da qual nunca podemos abrir mão, da qual a Igreja foi encarregada de levar ao coração e à mente das pessoas, não encontramos em nenhuma exposição melhor formulado do que na explicação do 2º Artigo do credo Apostólico de Lutero:

Creio que Jesus Cristo, verdadeiro Deus, gerado do Pai desde a eternidade, e também verdadeiro homem, nascido da virgem Maria, é meu Senhor. Pois me remiu a mim, homem perdido e condenado, me resgatou e salvou de todos os pecados, da morte e do poder do diabo; não com ouro e prata, mas com seu santo e precioso sangue e sua inocente paixão e morte, para que eu lhe pertença e viva submisso a ele, em seu reino e o sirva em eterna justiça, inocência e bem-aventurança, assim como ele ressuscitou dos mortos, vive e reina eternamente. Isto é certamente verdade.
                                                                    São Leopoldo, 22/02/2016
                                                            Tradução:  Horst R. Kuchenbecker


VIII - Festejar com quem e como os 500 Anos da Reforma
     Estamos rumando para os festejos dos 500 Anos da Reforma luterana. O mundo cristão[7] está-se preparando para os mesmos com programas dos mais diversos. A maioria das Igrejas tem um programa para os dez anos que antecedem a data, com temas anuais divididos em subtemas mensais,[8] por isso chamada de Década da Reforma.
     Através dos meios de comunicação está-se criando uma grande expectativa para este dia: 31 de outubro de 2017. Esperamos não desiludir os participantes.
     A pergunta que se coloca para nós é a seguinte: Com quem e como festejar a Reforma luterana? Quais é o nosso propósito ou quais são os nossos objetivos nestes festejos?

I – Com quem?
     Por que Lutero fixou as 95 teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg? Não foi para criar uma divisão na Igreja. Acusação que ainda hoje paira injustamente sobre Lutero.
    Lutero foi um fiel padre católico e Doutor em teologia. Ao estudar a Bíblia notou que sua Igreja, nos últimos tempos, havia-se desviado em vários pontos do ensino bíblico. Chamou atenção a isso. Enviou cartas ao Papa, pedindo correção dos erros. Pois, Lutero achava que esses erros estavam-se propagando somente na Alemanha. O Papa em Roma não foi ouvido. Para seu espanto, o Papa o repreendeu. Chocado com a venda das indulgências (perdão dos pecados por dinheiro), escreveu e fixou as 95 teses, chamando ao arrependimento e convidando para discutir essas suas afirmações (teses) à base da Escritura Sagrada. Após vários debates, Lutero foi expulso da Igreja Católica Romana. Os que reconheceram os erros da Igreja Católica e a verdade das Sagradas Escrituras se uniram a Lutero. Esses foram apelidados de “luteranos”, isto é, seguidores de Lutero.
     Vejamos quais as expectativas das diversas corporações religiosas que pretenderem festejar os 500 Anos da Reforma.
     Católicos - O que os Católicos esperam dos festejos da Reforma? A Igreja Católica e a Federação Luterana Mundial com as Igrejas luteranas filiada a ela assinaram em 1998 a Declaração Conjunta[9], na qual afirmam que concordam na doutrina da graça e da fé.  E se comprometeram a não invocar as condenações mútuas, se bem que não foram revogadas. As Igrejas luteranas não filiadas à Federação Luterana Mundial, mas congregadas no Conselho Internacional Luterano (CIL) não assinaram esta Declaração por discordarem doutrinariamente dos acertos. A Igreja Católica quer também que as Igrejas luteranas reconheçam que Lutero foi causador da divisão da Igreja Cristã Católica e voltem ao seio materno. Fato que nós luteranos missourianos (como nos chamam) não podemos aceitar. Bem gostaríamos que houvesse uma só Igreja Cristã no mundo, que se apegasse unicamente à Escritura Sagrada e seguisse fielmente os ensinos de Cristo, mas não podemos comungar com erros. 
     Reformados - O que os Reformados esperam dos festejos da Reforma? Eles querem festejá-la no espírito da União Prussiana. Por ocasião do terceiro centenário da Reforma, o Imperador Alemão, Frederico Guilherme III (1797 a 1840), decretou, no dia 27 de outubro de 1817, a união entre luteranos e reformados em seu reino, conhecida até hoje como a União Prussiana. Muitos luteranos aderiram, por motivos dos mais diversos. Um pequeno grupo, no entanto, discordou. Apesar de tratarem, inicialmente, os que não aceitaram esta união com muita cordialidade, logo passara a brutalidades. Pastores e leigos luteranos que discordaram foram perseguidos, multados, encarcerados, e pastores depostos do seu ministério. Estes pastores e congregações fundaram a Igreja Luterana Livre, a saber, independente do Estado, hoje reunidos na Selbständige Evangelisch-luterischen Kirche (SELK).
     Até aqui, já houve muitas reuniões e discussões entre luteranos e reformados. Vamos citar algumas das principais reuniões. A Concórdia de Wittenberg (1536): Lutero estava acamado. Martin Bucer conseguiu convencer Melanchton a ceder um pouco para agradar aos zwinglianos, e assinaram a Concórdia de Wittenberg, que não durou muito. O próprio Bucer, por seus ensinos, a quebrou.  A Explicação Teológica de Barmen, 1934, a Concórdia de Leuenberg, 1973, o compromisso de Lausane, julho de 1974, todos eles fracassaram. Nós luteranos fiéis ao Livro de Concórdia não pudemos concordar com as resoluções e nos unir a eles. A Fórmula de Concórdia de 1580 deixa a doutrina bíblica bem clara.  Os Reformados nos acusam de “separatistas” por insistirmos nos sacramentos como meios da graça.e na presença real do corpo e sangue na Santa Ceia.
     Evangélicos - O que os Evangélicos, com suas diversas ramificações, esperam dos festejos da Reforma? Os evangélicos são ecumênicos. Defendem a união na diversidade. Julgam que missão só acontecerá se a Igreja Cristã atuar unida, independente de suas diferenças doutrinárias. Ora uma missão sem a semente pura, só produz uma lavoura cheia de inço, que termina sufocando o resto da boa semente.
     Resumindo, o que católicos, reformados e evangélicos pensam a nosso respeito? Eles nos chamam de “missourianos fundamentalistas e pietistas”. [10] Eles nos rejeitam por não termos assinado a Declaração Conjunta (entre Católicos e Luteranos), por não ordenarmos mulheres, por não termo-nos filiado à Federação Luterana Mundial, por não endossarmos as teses da União Prussiana e o Tratado de Leuenberg, por não cooperarmos nos trabalhos missionários e na diaconia.
     Por que menciono esses fatos? Menciono esses fatos para não criarmos expectativas erradas. Vejam, badalamos os 500 Anos da Reforma, a data 31 de outubro de 2017, e ainda não temos clareza como IELB, o que queremos fazer neste dia, nem com quem e como o  festejaremos? Não há anda pior do que criar uma expectativa errada, pois ela redundará numa grande desilusão.

    Principais diferenças.
 - As principais diferenças com grupos acima mencionados são:
- A posição diante da Bíblia - Nós aceitamos a Bíblia como palavra inspirada, inerrante e infalível de Deus. Portanto, como verdade única e absoluta. Os outros a aceitam como “contendo” a Palavra de Deus, colocando a razão humana como juíza sobre a Palavra de Deus.  Católicos acrescentam a ela as tradições. Evangélicos confiam na revelação direta do Espírito Santo.
 - O pecado Original - Ensinamos que o ser humano nasce, após a queda de Adão e Eva, com o Pecado Origina. “O pecado, que herdamos de Adão, é a completa corrupção de toda a natureza humana, agora privada da justiça original, inclinada para todo o mal e sujeita à condenação”.[11] Por natureza, o ser humano é espiritualmente cego, morto e inimigo de Deus. Somos a única igreja que ensina isso com clareza. Esta doutrina é fundamental para a correta compreensão da conversão, da fé e da vida santificada. As outras religiões, mesmo falando do Pecado Original só vêem no mesmo certa deficiência. Falam em certa corrupção, mas deixam no ser humano a capacidade de buscar a Deus, de decidir-se por Deus e cooperar em sua salvação.
- A salvação objetiva e subjetiva - Cremos que Cristo salvou plenamente toda a humanidade e que Deus Pai aceitou o sacrifício vicário de Cristo e justificou toda a humanidade (Justificação objetiva). Deus oferece esta salvação, integral e completa, esta justificação, por sua Palavra e seus sacramentos, Batismo e Santa Ceia, que chamamos de meios da graça. Pelos meios da graça o Espírito Santo gera e mantém a fé, “onde e quando lhe apraz” (CA V). Pela fé, a pessoa toma possa da justificação (Justificação subjetiva). Católicos e evangélicos falam de Cristo. Eles ensinam que Cristo não salvou completamente a humanidade; que Deus fez sua parte, mas as pessoas precisam fazer a sua parte. Eles falam da “graça infusa”, isto é, Deus dá uma porção de sua graça ao pecador, com a qual o pecador deve trabalhar para completar a salvação. Assim os Católicos ensinam que as pessoas precisam completar a salvação por suas obras ou o sofrimento no purgatório.
     Evangélicos ensinam que a pessoa precisa tomar a iniciativa de aceitar a salvação, buscar a Deus e completar a salvação por sua vida santificada. Alguns ramos evangélicos ensinam que Deus salvou somente alguns, a saber os eleitos, os outros que não creem, são os não eleitos que serão condenados.
 – Meios da graça - Cremos que Deus oferece a salvação pelos meios da graça: Palavra e sacramentos: Batismo e Santa Ceia. Por esses meios o Espírito Santo opera e mantém a fé. As seitas não aceitam os sacramentos. Alguns acham que o Espírito Santo não precisa de meios (de um veículo) para operar, gerar e manter a fé numa pessoa. Que Deus Espirito Santo age diretamente. Católicos desvirtuam a Santa Ceia. Evangélicos só vêem na Santa Ceia um ato de comunhão e confissão de unidade. Mesmo que alguns falam na presença de Cristo na Santa Ceia, só compreendem a presença espiritual de Cristo, visto julgarem que o corpo humana de Cristo se encontra à direita de Deus e não está presente aqui.
 - Cremos na ressurreição da carne, no juízo final, no novo céu e nova terra, na vida eterna -  Nesse respeito há também muita divergência. Católicos têm o purgatório.  Evangélicos o milênio. Para outros só o espírito ou a alma sobrevive, etc.
     Por essas razões, nós não celebramos cultos de adoração com as igrejas com as quais não temos unidade na doutrina. Proclamamos a palavra e nos esforçamos para a unidade doutrinária. Isto nos leva à pergunta seguinte: 
     Com quem podemos celebrar a Reforma?  Mantemos nosso compromisso: Não celebramos culto com nenhuma igreja com a qual não temos comunhão de púlpito e altar, isto é, concordância doutrinária.[12] Participamos, no entanto, de Celebrações (não cúlticas). Celebração é uma comemoração de certas datas festivas, quer eclesiásticas ou pátrios, ou acontecimentos diacônicos especiais.  Nas quais atuamos sem talar. Poderá haver manifestação de diversas pessoas das diferentes igrejas.  Sem orações.


II - Como? 
     Não faltarão convites dos grupos acima mencionados para com eles festejarmos a Reforma. Diante disso precisamos manter nossos princípios. Nisso, na maioria das vezes, não seremos compreendidos em nosso mundo ecumênico; colheremos, muitas vezes, aversão.
1)      Comunhão de púlpito e altar. - Não praticamos, celebramos cultos com Igrejas
ou comunidades com as quais não firmamos comunhão na doutrina, isto é, com as quais não assinamos um documento no qual concordamos na doutrina, a saber, a assinatura do Livro de Concórdia. Não entendemos a confissão do Livro de Concórdia como uma confissão particular da Igreja Luterana, mas como doutrina bíblica universal da Igreja Cristã. Nela, importa, que firmemos a comunhão de Púlpito e de Altar.
2)      Comunhão seletiva - Aqui surge a pergunta: Se numa localidade, há um pastor (digamos, da IECLB, presbiteriano ou outra denominação) com o qual concordamos em grande parte na doutrina (isto é muito possível, especialmente na IECLB e na igreja presbiteriana), poderíamos celebrar um culto em conjunto? Chamamos isso de “Comunhão Seletiva”. Nossos pais optaram por não, visto aquele pastor estar ligado a uma corporação com a qual não temos comunhão. Amanhã muda o pastor e poderá vir um pastor liberal, ou até pastora. Como vamos explicar isso aos membros, dizendo: Agora não podemos. Isso, sem dúvida escandalizaria muitos membros.
3)      Celebrações - Participamos, no entanto, de celebrações em certos momentos festivos ou datas festivos, religiosos ou pátrios, ou em momentos de grandes catástrofes. Qual a diferença? Culto é adoração: proclamação da Palavra, oração e louvor. Isto requer comunhão na doutrina. Celebração são manifestações, nas quais cada pastor ou grupo externa sua posição, sem que isto expresse comunhão e concordância nossa com as idéias e pensamentos dos outros presentes neste evento. Em alguns momentos religiosos ou de catástrofes, podemos usar orações que nos são comuns, como o Pai Nosso, ou até o Te Deum, ou cantos comuns, como o canto de um Salmo, de hinos comuns, etc. Evidentemente não o canto do Ave Maria.
     Assim, por exemplo, na comemoração da Reforma, Dia da Soc. Bíblica, ou as grandes festas da cristandade, cada um poderá dar sua mensagem, conforme sua doutrina.  Sem dúvida, as diversas mensagens deixarão transparecer as diferenças.
4)      Colaboração in externis - Nós participamos com outras igrejas nos diversos trabalhos e empenho diaconal. Chamamos isso de colaboração externa. Que significa isso? Em nossos dias com tantas aberrações, a igreja cristã precisa se unir e em conjunto, quando concordar, para externar sua opinião, quer pela elaboração de um documento em conjunto ou mesmo uma passeata. Por exemplo, contra a lei do aborto ou em favor da família, etc. Nesses momentos externamos nosso posicionamento ético e nossa solidariedade diaconal nos momentos de catástrofe. Nada impede também a participação e manifestações públicas em defesa da posição ética natural (isto é, conforme a lei inscrita no coração humano).       

 - Perguntas polêmicas sobre nosso relacionamento com outros cristãos - Como proceder no relacionamento com cristãos de outras denominações cristãs, com as quais não temos comunhão de púlpito e altar, a quem nós negamos esta comunhão, como por exemplo: a católicos, batistas, presbiterianos, adventistas, metodistas, Assembléia de Deus, pentecostais, e à Igreja Evangélica de Confissão Luterana, etc.?
     Vamos rever alguns princípios da Escritura.
     O Evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê. O profeta Isaías afirma: Porque, assim como descem a chuva e a neve dos céus e para lá não tornam, sem que primeiro reguem a terra, e a fecundem, e a façam brotar, para dar semente ao semeador e pão ao que come (Isaías 55.10). O apóstolo Paulo escreve: Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego (Romanos 1.16). O apóstolo João escreve: Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus (João 1.12-13).
     O que essas palavras nos dizem? Elas dizem que onde o evangelho de Cristo é proclamado, (lido, ouvido, meditado) onde se prega arrependimento e fé na graça de Cristo, mesmo que não totalmente pura e limpa, ali há cristãos. Ali o Espírito Santo atua pela palavra, gera e mantém a fé “onde e como lhe apraz” (CA V). Ali há filhos de Deus pela fé na graça de Cristo. Por isso não duvidamos que nas congregações, tanto evangélicas como católicas e entre as seitas – na media em que o evangelho do Salvador Jesus é lido e anunciado - há filhos de Deus (Mc 16.16; Lc 17.16; Jo 4.25 – samaritanos). Este é também o posicionamento de nossas Confissões luteranas. Lemos no Prefácio ao Livro de Concórdia: “Pois para nós não há sombra de dúvida que se podem encontrar muitas pessoas piedosas e inocentes também nas igrejas que até agora não chegaram a acordo conosco em tudo. Essas pessoas seguem na simplicidade de seus corações, não entendem bem a questão e nenhum agrado têm nas blasfêmias contra a santa ceia tal como é celebrada em nossas igrejas...”  (LC pág. 10).  Dr. C.F.W.Walther escreve no seu livro: A verdadeira Igreja Visível, 11ª tese: A Igreja Evangélica Luterana não é a “una santa Igreja cristã” fora da qual não há bem-aventurança e salvação; ela, porém, nunca se separou da mesma, mas a confessa e a ela se atém.
     Quais são os motivos para afirmarmos que fora de nossos muros confessionais há cristãos?  Que há cristãos fora de nossos muros é na verdade um artigo de fé. Isto não é o resultado da observação humana, mas uma revelação da Palavra de Deus. Pois o fato de haver cristão nas igrejas que não permanecem em todas as verdades bíblicas, sabemos não pelo fato de praticarem boas obras, mas do fato de a Palavra de Deus estar ali em uso.
    Na prática ouvimos, por vezes, de nossos membros interrogações de admiração. Por exemplo: “Se olho para as seitas, vejo que seus membros têm muito mais amor e fervor pela causa de Cristo do que nós. Eles ofertam vultosas somas para a assistência social, sua freqüência aos cultos, e eles têm grande fervor evangelístico. Em muitos aspectos eles nos envergonham”. É verdade. Mas em si, as simples obras não provam nada. Também as pessoas nas religiões não cristãs como a Ciência Cristã, Testemunhas de Jeová, Mórmons, mesmo no Islã as pessoas apresentam tais obras. Portanto, a prática de boas obras, em si, não prova nada se alguém é ou não um cristão. A prova de que também nas seitas há eleitos de Deus, está no fato de estar entre eles em uso o Evangelho.
     Mais um detalhe importante. Todos os cristãos (verdadeiros, isto é, os que têm fé na graça de Cristo) são membros do corpo de Cristo. O Espírito Santo habita neles. Ele operou e mantém a fé e lhes concede todos os dons, como o confessamos na exposição do Terceiro Artigo do Credo Apostólico: “Creio que por minha própria razão ou força não posso crer em Jesus Cristo, meu Senhor, nem vir a ele. Mas o Espírito Santo me chamou pelo evangelho, iluminou com seus dons, santificou e conservou na verdadeira fé. Assim também chama, congrega, ilumina e santifica toda a cristandade na terra e em Jesus Cristo a conserva na verdadeira e única fé”. Portanto, todos os verdadeiros cristãos formam a grande família da fé. São nossos irmãos e irmãs em Cristo, pois pertencem à igreja invisível aqui na terra. Digo invisível, porque não podemos ver a fé nos corações, não podemos julgar se alguém de fato crê ou não. Por isso o apóstolo Paulo afirma: O “Senhor conhece os que lhe pertencem” (2 Tm 2.19). Todos os que baseiam sua salvação e esperança unicamente em Cristo, que se apegam em fé à graça de Cristo, formam o reino invisível de Cristo. Ali há completo perdão dos pecados, todos os dons espirituais, todas as orações são ouvidos, nos quais o nome de Deus é santificado e feito a sua vontade, apesar de todas das fraquezas humanas, mesmo imperfeições e obscuridade na doutrina. Este reino espiritual ao qual todos os cristãos pertencem, têm a promessa da bem-aventurança. A ele pertencem os patriarcas do Antigo Testamento, também os fiéis de Nínive e da Assíria (Is 19.23). Nesta igreja invisível há luteranos, metodistas, presbiterianos, batistas até episcopais e católicos. Pois em todas essas igrejas há ainda oportunidade para ouvir o evangelho através do qual Deus gerar seus filhos “onde e quando lhe apraz”. (CA V)
     Esta verdade é muitas vezes esquecida em nosso meio. Por vezes, membros nossos, quando assistem cultos ou devoções nessas seitas, voltam impressionados, dizendo: “Eles ensinam a mesma coisa que nós”. Um membro me disse que visitou sua tia, presbiteriana, no hospital. O pastor dela estava lá e fez uma devoção. A pessoa me disse: Pastor: “Ouvi uma devoção sobre a graça de Cristo, como nós ensinamos. Fiquei muito consolado, pois minha tia faleceu dias depois”. E então ela me fez a pergunta muito lógica: Por que estamos separados deles, se eles ensinam a graça corretamente, se eles são nossos irmãos na fé?
     Tive que me demorar com ela para clarificar o assunto.
     Em primeiro lugar temos que lembrar: Onde a Palavra de Deus está em uso, onde lei e evangelho são pregados, ali o Espírito Santo tem a oportunidade de gerar a fé. Logo, cremos que fora de nossos muros confessionais, também há cristãos.
     Segundo lugar. Este fato de que fora de nossos muros confessionais há cristãos como, por exemplo, na Igreja Católica, Presbiteriana, Batista, Metodista, etc., parece estar em contradição com nossa posição – que parece dura, e rígida – em condenar essas igrejas como falsas, por não permanecem em toda a verdade e, por isso, não mantermos comunhão com eles, quando na verdade há ali verdadeiros cristãos, como afirmamos, que formam conosco uma família em Cristo.
     Terceiro. Nós condenamos estas igrejas como falsas e advertimos nossos membros contra essas igrejas – mesmo sabendo que há ali, entre eles, cristãos e até pregadores que, mesmo não concordando em tudo o que suas Igrejas e Sínodos ensinam, permanecem em muitos pontos na verdade bíblica. Seus Sínodos permitem isso. Aí parece haver uma contradição em nossa prática. Há membros e até pastores que acham que não deveríamos condenar seus erros com tanta veemência. Tenho ouvido isso até de nossos membros que reconhecem a importância de zelarmos pela pureza de doutrina e evitar todo o tipo de unionismo. Eles nos dizem, que esta separação nos deixa intranqüilos. Esta intranqüilidade é ainda maior, quando falamos de outras igrejas luteranas das quais estamos separados. Vamos tomar o exemplo da IECLB. Nela há muitos pastores e membros fiéis, fiéis às Confissões, e só porque estão filiados à IECLB não podemos ter comunhão com eles? Por que não? Precisamos lembrar que não condenamos as pessoas destas igrejas, mas os seus erros doutrinários.
   Quarto. Numa discussão teológica com outras igrejas, um professor nosso leu um artigo de um dos nossos professores do passado que denunciou diversos erros de uma igreja. Terminado a leitura, pessoas da outra igreja pediram a palavra e contestaram diversas acusações, dizendo que esses são erros do passado, que eles já modificaram. Nosso professor respondeu: Fico muito feliz em ouvir isso, mas gostaria de ouvir ou ver uma prova, de que vossa igreja, realmente rejeitou esses erros e que todos concordam com isso.  – Bem, responderam, vocês sabem que nossa igreja é democrática. Não temos um código rígido, fechado de doutrinas, como vocês com vosso Livro de Concórdia. Nós somos mais abertos, não descriminamos, cada um tem a liberdade de ensinar conforme sua convicção. Realmente isto é um problema no relacionamento com tais igrejas.
     Quinto. Será que pelo fato de haver cristãos numa igreja, ou até pregadores que ensinam parcialmente de forma correta, podemos ter comunhão com aquele Sínodo? A Escritura responde com um: Não! Vejamos alguns detalhes. Jesus ordenou: - Ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado (Mt 28.20). Temos aqui a palavra “todas”. “Aquele, porém, que entra pela porta, esse é o pastor das ovelhas. Para este o porteiro abra, as ovelhas ouvem a sua voz, ele chama pelos nomes as suas próprias ovelhas e as conduz para fora. Depois de fazer sair todas que lhe pertencem, vai adiante delas, e elas o seguem porque lhe reconhecem a voz; mas de nenhum modo seguirão o estranho” (Jo 10.2-4). As ovelhas lhe reconhecem a voz e o seguem. O apóstolo Paulo escreve: “Rogo-vos, irmãos, que noteis bem aqueles que provocam divisões e escândalos, em desacordo com a doutrina que aprendestes; afastai-vos deles” (Rm 16.17). Aqui temos a palavra “afastai-vos deles”.
      Sexto.  Aqui, na igreja visível, cabe-nos zelar pela pureza de doutrina. A doutrina da Bíblia, a única autoridade em matéria de fé e vida. Muitas igrejas cristãs aceitam a Bíblia como palavra de Deus, mas não como única autoridade. Única autoridade para muitos é a razão humana. Para católicos é a Bíblia e as tradições. Para muitas seitas é a Bíblia é a revelação especial do Espírito Santo. Muitos aceitam a Bíblia, mas não aceitam os sacramentos e afirmam que o Espírito Santo não precisa de um veículo para nos dar a graça. Muitas seitas falam da “graça de Cristo”, mas não aceitam a graça universa, isto é, que Cristo morreu realmente por todos. Falam da fé, mas a atribuem ao seu livro arbítrio, isto é, a sua decisão de crer. Assim por diante. Com essas igrejas é impossível estabelecer comunhão de púlpito e altar. Precisamos lembrar que nestas igrejas – reformadas e luteranas – a doutrina errada não é o ensino e a fé privada de um e outro líder, mas sua doutrina oficial por eles defendida. Por outro, mesmo que um e outro ensine corretamente, mas o Sínodo como tal tolera em seu meio pastores que negam a divindade de Cristo, rejeitam a Bíblia como palavra de Deus, interpretam as profecias erradamente e em seus púlpitos há muitos erros. Sei que aqui alguém poderá objetar: Mas entre nossos pastores também há ainda muitos erros. Será que em nossos púlpitos tudo está certo? É verdade! Há muitas fraquezas e sem dúvida também erros nas pregações. Mas nós não os toleramos. Onde o erro é notado, há colegas, conselheiros e o Presidente da Igreja para admoestar, corrigir e reerguer.
     Mantemos comunhão com Igrejas (Sínodos) não pelo simples fato de haver ali cristãos, mas pelo fato de confessarem publicamente em todas as partes as verdades bíblicas, o que é expresso pela assinatura do Livro de Concórdia, praticando-as, isto é, não tolerando entre eles pessoas que se desviam propositalmente dessas verdades.
     Lemos na Confissão de Augsburgo, artigo VII  Da Igreja: “Ensina-se também que sempre haverá e permanecerá uma única santa igreja cristã, que é a congregação de todos os crentes, entre os quais o evangelho é pregado puramente e os santos sacramentos são administrados de acordo com o evangelho.
     Porque para a verdadeira unidade da igreja cristã é suficiente que o evangelho seja pregado unanimemente de acordo com a reta compreensão dele e os sacramentos sejam administrados em conformidade com a palavra de Deus. E para a verdadeira unidade da igreja cristã não é necessário que em toda a parte se observem cerimônias uniformes instituídas pelos homens. É como diz Paulo em Efésios, 4: “Há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo”. (Ef 4.5,6) 
     Por outro, cabe-nos proclamar zelosamente a verdade, o que chamamos de evangelismo. Mas não fazemos proselitismo, isto é, buscar e atrair membros de outras igrejas cristãs, para nossa. Nós não nos metemos em rebanho alheio. Por outro lado, nos esforçamos pela unidade da cristandade, isto é, convocando, participando de diálogos com outras igrejas, testemunhando da verdade. Mesmo aqui é importante lembrar que a expressão: “É suficiente que o evangelho seja pregado... (latim: satis est), isto não reduz a confissão a um mínimo, mas se refere ao evangelho na sua totalidade, a saber: à assinatura de nossas Confissões, ou seja do Livro de Concórdia (Sasse). Aqui cumpre lembrar que um pouco de fermente (doutrina errada) levada toda a massa (Gálatas 5.9).  


X -  Fundamentalismo

    Pastor! Nós luteranos somos fundamentalistas? Sou um universitário e sei que toda a verdade é relativa. Ouvi meu pastor afirmar: “Nós luteranos cremos que a Bíblia é a Palavra de Deus. Ela é verdade absoluta”. Eu sei que a Bíblia contém a palavra de Deus, mas afirmar que ela é verdade absoluta me parece semelhante às religiões fundamentalistas, como o Islã. Eles acham que têm a verdade absoluta e querem impô-la a todos, até a força. Por isso ela é muito contestada. Daí minha pergunta: Nós luteranos também somos fundamentalistas?

História
     Esta é uma pergunta ou até acusação que muitos nos fazem.  Numa reunião com pastores de outras igrejas fomos acusados de fundamentalistas. Perguntei: O que é isso? – Eles estranharam e disseram: Você não sabe o que é ser fundamentalista? – Respondi: Eu sei. Mas devido a vossa acusação, suponho que temos definições diferentes. 
     O que significa, por tanto, ser fundamentalista?[13] Ser fundamentalista significa ter um bom fundamento para suas afirmações e sua fé. Mas a palavra “fundamentalista” adquiriu desde 1912 um sentido particular. Naquele tempo reinava entre os cristãos o liberalismo, isto é, as principais verdades bíblicas eram desacreditadas. Surgiu, então, um grupo de cristãos que se apegaram à Palavra de Deus. Lançaram a revista com o nome de O Fundamentalista. Seus objetivos eram combater o liberalismo e reafirmar as principais doutrinas bíblicas como a inspiração verbal da Bíblia e sua autoridade, o criacionismo conforme Gênesis, o sofrimento vicário de Cristo pela humanidade, a ressurreição da carne, etc. A eles agregou-se, infelizmente, também o movimento pré-milenarista.

Mudança do nome
     Mais tarde, crescendo os movimentos missionários, o nome fundamentalista foi abandonado e substituído por “Evangélicos”, que abrange hoje um grande grupo, especialmente as religiões eletrônicas da música Gospel. É um movimento que perpassa muitas denominações. 
     O movimento se caracteriza por sua maneira própria de interpretar a Bíblia, tomando a ao pé da letra, sem levar em conta a analogia da fé. Muitos luteranos que lêem seus livros e cantam seus hinos com a mente luterana, por assim dizer, sentem-se em casa e nem se apercebem de que o verdadeiro consolo do Evangelho lhes está sendo roubado. Por isso precisamos analisar e conhecer este movimento.

Erros
     Poderíamos analisar seus erros de diversos ângulos. Vamos ater-nos ao que é básico, a saber, sua maneira de interpretar a Bíblia. Vejamos alguns pontos.
1. Fazem da Bíblia um novo código de leis - Os fundamentalistas evangélicos tomam a Bíblia muito a sério. Isto é bom. Eles a tomam ao pé da letra, o que em si está correto. Pois a primeira regra na interpretação é tomar cada palavra no seu sentido literal, a não ser que o contexto nos obrigue a interpretá-la figurativamente. Este último detalhe os fundamentalistas ignoram. Por isso caem em erros. A Bíblia é para eles um código de leis e falham em ver na Bíblia seu tema principal, Cristo e seu Evangelho. A Escritura foi nos dada por causa do Evangelho, por isso ela deve ser interpretada conforme a “analogia da fé”, a saber, conforme o espírito do Evangelho. Fazer da Bíblia um novo código de leis e exigir obediência rigorosa, dizendo: Está escrito, é interpretação legalista. Assim agem também os “fundamentalistas” da religião islâmica. 
     A lei de Deus foi, inicialmente, inscrita no coração de Adão e Eva. Com a queda em pecado, este conhecimento foi obscurecido. Não conhecemos mais, por natureza, a grandeza da santidade de Deus e a profundidade da lei. Pelo conhecimento natural o ser humano sabe ainda que Deus existe e conhece os rudimentos da lei de Deus, da vontade de Deus. Por essa razão o código de Hamurabi, por exemplo, tem muita semelhança com a segunda tábua da lei que Moisés recebeu no Monte Sinai. Mas pelo conhecimento natural jamais chegaremos ao conhecimento do Evangelho, da graça de Deus revelada em Cristo Jesus. Jesus é a pedra angular. (1 Pedro 1.7). Por esta pedra toda a Escritura e sua interpretação deve ser orientada. Para isso precisamos a Escritura. Assim, o principal objetivo da Escritura é anunciar o Evangelho. O evangelho, que nos anuncia a graça de Cristo é o ponto central da Bíblia do começo ao fim. Em outras palavras, Cristo é o centro da Bíblia, da primeira à última página. Isto os fundamentalistas, mesmo sendo chamados de evangélicos, ignoram. E este erro leva, conseqüentemente, a um segundo erro:

2. Pré-milenarismo – Sua maneira de interpretar a Bíblia de forma literal os levou a interpretar as preciosas profecias messiânicas de forma material. Para eles Israel é mais importante do que Jesus. Sonham com a volta de Cristo para um reino material de mil anos aqui na terra e a exaltação do povo de Israel a uma nação que dominará o mundo. Velho sonho judaico. Chegaram a isso por interpretarem o livro de Apocalipse 20.1-7 de forma literal, não levando em conta todo o contexto de Apocalipse, que, como livro profético, usa muitas figuras de linguagem. Pela forma literal, eles insistem que Apocalipse fala em mil anos reais e da volta visível de Cristo para levantar aqui, no presente mundo, um reino de paz com a duração de mil anos. Não notam que as profecias do grande reino de paz do profeta Isaías (2.4ss.) se cumpriu no dia do nascimento de Jesus, quando os anjos cantaram: Paz na terra aos homens a quem ele (Deus) quer bem (Lc 2.14). Com tal interpretação, eles têm, na verdade, alguma dificuldade com a grande corrente com a qual o anjo amarra Satanás. Será que o diabo arrastará tal corrente por mil anos pelo universo? O contexto de todo o Novo Testamento e dos Evangelhos nos levam a interpretar este trecho figurativamente. Os mil anos são o período da graça do Novo Testamento, da Igreja Cristã, e se estende da ressurreição de Jesus até a sua vinda em glória para julgar vivos e mortos. Neste período o Evangelho é pregado em todo o mundo. Este Evangelho é poder de Deus que limita o poder de Satanás, liberta os fiéis do seu poder, dá forças aos fiéis para poderem resistir ao diabo. E, visto que no final deste tempo a humanidade volta a rejeitar o Evangelho, Satanás adquire novamente grande poder. A Bíblia diz que o evangelho nos liberta. Se o evangelho é rejeitado, o diabo adquire, novamente, sua força, o que a Bíblia denomina como: “Será solto da sua prisão e sairá a seduzir as mações... “ (Apocalipse 20.7,8). Então Jesus virá julgar os vivos e os mortos.
     Mais um detalhe. Os fundamentalistas evangélicos, em sua interpretação legalista da Escritura, falham também em compreender o que significa estar à “direita de Deus”. Imaginam um lugar distante no universo, onde Jesus se encontra como homem, mas com sua natureza divina, não a humana, Jesus está em todo o lugar. Neste caso, temos dois Cristos, um divino e outro humano, que vivem separados. Eles não compreendem que o “estar à direita do Pai” é estar em toda a parte e “sobre tudo”, é ter todo o poder como verdadeiro Deus e verdadeiro homem, como uma só pessoa. Na comunicação das qualidades, Jesus como homem possuiu as qualidades divinas, a saber, Jesus como homem é onisciente, onipresente, onipotente.
    Por esta razão, eles não aceitam a presença real de Cristo na Santa Ceia. Pois, conforme a instituição de Cristo e a afirmação do apóstolo Paulo, recebemos na Santa Ceia sob, em e com o pão o verdadeiro corpo de Cristo de Cristo dado por nós e sob, em e com o vinho o verdadeiro sangue de Cristo de Cristo derramado por nós, para perdão dos pecados. Para deixar isso bem claro, Jesus acrescenta: Isto é o meu sangue, sangue do novo testamento, derramado por todos para remissão de pecados (Mt 26.28). Quem, porém não crê, recebe Cristo para juízo e condenação. Alguns, como os presbiterianos, admitem que Cristo está presente como Deus, como pessoa e que o recebemos, não precisamente pelo pão e o vinho, mas de forma espiritual, pela fé. E dizem que aquele que não crê, recebe somente pão e vinho. Para eles o que torna esta ceia a Santa Ceia não é a consagração, mas a fé pessoal da pessoa. Isto é contra a afirmação do apóstolo Paulo: Examine-se, pois o homem... pois quem come e bebe sem discernir o corpo, como e bebe juízo para si. (1 Co 11) Sim, quem não crê, recebe o corpo e o sangue de Cristo, mas para juízo.  Não é a nossa fé que faz a Santa Ceia, mas as palavras da instituição. Pela fé recebemos a bênção, pelo não crer, o juízo.
     Dentro dessa mesma linha está sua negação do poder do batismo. Eles argumentam: Jesus disse: “Quem crer e for batizado, será salvo”. (Mt 16) Jesus coloca a fé antes do batismo, logo só pode ser batizar quem crê, quem for capaz de confessar sua fé publicamente. E fazem do batismo somente uma confissão, negando-lhe o poder de ser um meio da graça. Pois, mesmo ensinando eles que somos salvos somente por fé, entendem por fé um ato divino com a colaboração humana. Caem assim em diversos erros. Negam ao batismo o poder de gerar a fé. Negam, contra a afirmação de Jesus, que crianças (pequeninos, crianças de peito), crêem. Por isso também seus hinos são sentimentais, da teologia do “Eu”, eu amo, eu faço, eu sinto, eu te quero e falam pouco da ação do amor de Deus em Cristo. Não compreendem que o renascer, (Jo 3; Rm 6) o vir à fé, o momento no qual é gerada a fé, quer pelo batismo ou a Palavra, ser a primeira ressurreição. A segunda ressurreição acontecerá quando Cristo vem para o dia do juízo final.

Lei e Evangelho, Justificação e Santificação
    Poderíamos citar muitos outros exemplos. Sua tônica está na obediência aos mandamentos de Deus. Em sua interpretação literal das profecias e textos que devem ser tomados figurativamente, eles exaltam a Jesus como Senhor, o seu poder e falam pouco de sua graça. Confundem Lei e Evangelho, justificação e santificação.
O perigo em nossos dias
     Vivemos novamente dias de grande liberalismo. A Lei de Deus é rejeitada, por isso não há arrependimento, nem fome e sede pelo perdão de Deus. Só se quer louvar a Deus, para uma catarse pessoal e para satisfazer seu ego religioso, sem temor de Deus, nem verdadeira adoração. Sem a correta pregação da lei, não há reconhecimento do pecado e da necessidade de um Salvador. Sem a correta pregação do Evangelho, não há fé, nem frutos da fé, o verdadeiro amor.  Sem arrependimento e fé na graça de Cristo, a liberdade cristã torna-se libertinagem. Dentro desse quadro, as religiões fundamentalistas como o islamismo e os fundamentalistas evangélicos criam novamente forças e levantam a bandeira do rigor da lei, mas de uma lei superficial, sem o reconhecimento do pecado original, um legalismo barato. Muitas pessoas desiludidas com o falso cristianismo veem no islamismo uma tábua de salvação, especialmente na educação de seus filhos e da juventude, e se deixam enganar por elas. Cuidado.
Conclusão
     Cantamos em nosso belo hino: Oh! retenhamos com firmeza o reto ensino do Senhor e conservemos em pureza as novas do bom Redentor. Jamais devemos anular o que Jesus nos faz pregar. (HL 246.1)
     Ao nos prepararmos para os 500 Anos da Reforma, importa que nos apeguemos a nossas Confissões. Estudar, especialmente o Catecismo Menor de Lutero, com a explicação de Heinirch Chr.  Schwan. Importa estudá-lo em família, com nossos jovens, mesmo que sua linguagem nos pareça arcaica. Ali está um imenso tesouro, fundamento para a nossa fé e escudo contra as aberrações de nossos dias. Nele encontramos a verdade bíblica corretamente exposta para repreensão, consolo, orientação e para a compreensão da verdadeira liberdade cristã. A leitura da Bíblia leva à nossas Confissões e a leitura de nossas Confissões leva a verdadeira compreensão da Bíblia.                                            
                                                                                      São Leopoldo, agosto 2005
                                                                                         Horst R. Kuchenbecker                              


XI– Programas

    Aqui os temas anuais para a Luther-Decada da Vereinigten Evangelisch-Luterischen Kirche (VELK)  e da Selbständige Evangelisch-Lutherische KIrche (SELK).

VELK  -  (www.luther2007.de;
SELK – www.blickpunkt-2017.de)
Folgende Themen haben wir in der Dekade bis 2017 im Blick:
2009: Luthers Thesenanschlag – Außer Thesen nichts gewesen?
2010: Die Beichte – Geständnis für die Ewigkeit.
- 2011: Die Taufe – Die Taufe schließt den Himmel auf.
- 2012: Das Abendmahl – Zu Tisch mit Gott.
- 2013: Die Gemeinde – Geschwister auf ewig.
- 2014: Die Kirche – Werkstatt des Heiligen Geistes.
- 2015: Tradition – Erbe zwischen Lust und Last.
- 2016: Christenleben – Mit Christus in einem Boot.
- 2017: Reformation – Luther weckt die Kirche auf.

A Igreja Luterna do Canadá – LCC – Estabeleceu o seguinte programa: Proeminentes figuras da Reforma:
-          2013 – Filipe Melanchton
-          2014 – Catarina von Bora
-          2015 - Martinho Lutero
-          2016 – Sangos da Reforma
-          2017 – História da Reforma
                  www.canadianlutheran.ca

Alguns programas via internet:
-           www.luther2017.de/en
-          www.damals.de/27
-           
Outros temas:
     Anexo também, o índice do livro Unser Erbteil (acho que deve estar na Biblioteca) que a LCMS lançou por ocasião dos 400 anos da Reforma. Cada professor elaborou um destes temas. O índice dos temas é interessante: Unser Erbteil. Eine Gedächtnisschrift auf das 400 jährige Refomationsjubiläum den 31 Oktober 1917. St. Louis, MO. Concordia Publishing House, 1917
1.      Prefácio
2.      Wittenberg  1517
3.       Lutero o herói da fé
4.      A armadura de Lutero
5.      A Bíblia alemã
6.      Lutero como pregador
7.      Lutero como poeta sacro
8.      “Castelo forte é nosso Deus”
9.      A comunidade cantante
10.  Lutero no seu círculo de amigos
11.  Lutero como homem de oração O Dr. Martinho Lutero e João Batista
12.  Nossa libertação da superstição católica
13.  Nossa libertação da tirania do direito católico
14.  Nossa libertação do sacramento da penitência católica
15.  O Sola Scriptura
16.  O Sola Gratia
17.  O Sola Fide
18.  Katarina de Bora
19.  Versos e citações de Lutero
20.  Inimigos da Reforma que a promoveram
21.  Amigos da Reforma que a prejudicaram
22.  As três grandes Dietas: Worms (1521), Spier (1529), Augsburgo  (1530),
23.  A Reforma e a escola
24.  Lutero e nosso tempo
25.  Como externar nossa gratidão pelos benefícios da Reforma
26.  O júbilo dos justos (Sl 118)




[1] LIVRO DE CONCORDIA. (LC) Editora Sinodal, São Leopoldo, RS e Editora Concórdia, Porto Alegre, RS, 1980. - As notas ao pé das páginas são do tradutor.
[2] Portanto, não podemos abrir mão dessa verdade de que a “Bíblia, Antigo e Novo Testamento, é, em seu todo, palavra por palavra, inspirada por Deus. Deus deu aos escritores da Bíblia os pensamentos e as palavras exatas que deveriam empregar. Deus nos deu sua palavra a fim de fazer-nos sábios para a salvação pela fé em Cristo Jesus” (Cat. Menor. Exposição de Schwan. Editora Concórdia, 2013, pág. 33,34). 
[3] Quanto ao livre arbítrio se ensina que o homem tem até certo ponto livre arbítrio para viver exteriormente de maneira honesta e escolher entre aquelas coisas que a razão compreende. Todavia, sem a graça, o auxílio e a operação do Espírito Santo o homem é incapaz de ser agradável a Deus, teme-lo de coração, ou crer, ou expulsar do coração as más concupiscências inatas. Isto, ao contrário é feito pelo Espírito Santo, que é dado pela palavra de Deus. Pois Paulo “O homem natural nada entende do Espírito de Deus (1 Co 2.14).
[4] O pecado original é o pecado que herdamos de Adão, isto é, a completa corrupção de toda a natureza humana, agora privada da justiça original, inclinada para todo o mal e sujeita à condenação” (Cat. Menor, perg. 100, pág 68).
[5] Calvino escreveu suas teses sobre: Política e Igreja, 1535. Ao tentar implantá-los em Genebra foi expulso. Retornou em 1541. Exigiu para si plena autoridade para implantar a “teocracia”, a cidade de Deus, em 1553. Passou a exigir de todos os cidadãos a “confissão de fé”, e passou a perseguir e executar os que não a aceitaram. Muitos foram mortos por sua inquisição. Outros tantos fugiram. (Lutheran Cyclopedia, Concodia Publihing House, 1954, pág. 155)
[6] Lemos no Catecismo Menor: Justificação: Recebemos remissão dos pecados e nos tornamos justos perante Deus, não pelas nossas obras, mas pela graça, por Cristo, mediante a fé (Perg. 209) O artigo da justificação pela fé temos que guardar fielmente em todos os tempos por ser o artigo principal da doutrina cristã, pelo qual a Igreja de Cristo se distingue de toda a religião falsa, sendo dado a glória somente a Deus e constante conforto ao pecador. (Perg. 211)

[7] Católicos, evangélicos, reformados, luteranos, com suas diversas ramificações, vão participar dos festejos.
[8] Confira tabela anexa: Programas.
[9] Cf.: Doutrina da Justificação por Graça e Fé. Declaração conjunta Católica Romana – Evangélica Luterana, Porto Alegre, 1998. Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (EDIPUCRS) Porto Alegre e Centro de Estudos Bíblicos (CEBI) São Leopoldo, RS
[10] Confira o anexo: Fundamentalismo.
[11] Catecismo Menor. Exposição, perg. 100; pág. 68.
[12] Regimento Interno da IELB, § 73.IV)
[13] Consulte: Prof. Arnaldo Schüler. Dicionário Enciclopédico da Teologia. Editora Concórdia, Porto Alegre e Editora Ulbra, Canoas, 2002, p. 212.